A IMAGEM DA CORRIDA
SÃO PAULO (preparem-se) – Recorro ao sábado, e é a primeira vez que faço isso no nosso tradicionalíssimo “Sobre ontem…”. Afinal, ontem é ontem, anteontem é anteontem. Mas como contar a história do GP dos EUA sem passar pela patuscada dos pilotos da McLaren na véspera? E a Sprint, afinal de contas, faz parte do evento.
O que aconteceu entre Oscar Piastri e Lando Norris na minicorrida foi definidor para o resultado do fim de semana de Austin. Os dois zeraram. Max Verstappen fez oito pontos. Já tinha largado na pole. Naquela tarde mesmo conseguiu a primeira posição para o grid da corrida principal no dia seguinte. Gosto de visualizar essa situação como se fosse uma luta de box. Max deu três porradas no queixo de um mamão papaia, que ficou grogue. No domingo, levou o rival à lona. Nocaute.
OK, Norris ficou em segundo na prova dominical. Mas vocês entenderam. O que conta, aqui, é que Verstappen agora está a 40 pontos do líder do campeonato. Chegou aos EUA 63 atrás. Faltam cinco etapas para o final da temporada, com duas Sprints — Interlagos e Catar. São 141 pontos em jogo. Nas últimas quatro provas, a diferença do holandês para Piastri despencou 64 pontos. Nas última cinco, depois da pausa de verão, o piloto da Red Bull marcou 119 pontos de 133 possíveis, aproveitamento de 89,4%. Piastri e Norris também fizeram 119. Somados. Foram 62 para o australiano (aproveitamento de 46,6%) e 57 para o inglês (42,8%).
Se esses dois estão dormindo tranquilos, é porque ainda não perceberam o que está acontecendo.
Alguém nessa foto aí em cima foi responsável por uma multa de 50 mil euros para a Red Bull, o que dá 300 mil reais. Aconteceu o seguinte. Depois que foi autorizada a volta de apresentação, todos os integrantes de todas as equipes passaram por um portão para voltar aos boxes. Menos um. O gaiato, com uniforme do time austríaco, entrou na pista como quem não queria nada e tirou da mureta uma fita adesiva colada pelos mecânicos da McLaren ao lado da posição de largada de Norris. É um artifício para ajudar o piloto a parar o carro no lugar certo do grid. Não é proibido.
Também não é proibido arrancar a fita, porque o regulamento da F-1 não proíbe ninguém de ser espírito de porco. Só que é proibido colocar o pé na pista quando tem carro andando, e a presença do sujeito ali, ainda que por apenas alguns segundos, foi percebida. A FIA comeu o toco da equipe, que levou a multa e ainda reforçou a fama de esperteza acima do tom.
E não foi a primeira vez que isso aconteceu.
O NÚMERO DOS EUA
5.004,5
…pontos acumula Lewis Hamilton na F-1, com os 17 que marcou em Austin. É o primeiro piloto da história a romper a barreira dos cinco mil. O inglês, heptacampeão mundial, estreou em 2007. Naquela época, o vencedor levava dez pontos para casa e só os oito primeiros marcavam. O regulamento mudou em 2010 para a pontuação atual — 25 para o ganhador e pontos atribuídos até a décima posição. No ranking da categoria, Verstappen é o segundo maior pontuador com 3.329,5. Sebastian Vettel vem a seguir com 3.098.
Breves notícias que não foram dadas no relato da corrida de ontem neste espaço. A primeira: a F-1 renovou seu contrato com o circuito de Austin, o famoso COTA (Circuit Of The Americas), que sedia o GP dos EUA desde 2012 e agora tem compromisso até 2034.
A segunda, que só foi acrescentada ao texto de ontem algumas horas depois da publicação original: Carlos Sainz foi considerado culpado pelo incidente com Kimi Antonelli e, por isso, perderá cinco posições no grid do GP do México, domingo que vem. “Eu estava atrás, então aceito minha parcela de culpa”, disse o piloto da Williams.
A terceira: Charles Leclerc foi eleito “Piloto do Dia” pelo amigo internauta.
Por fim, mudanças na classificação dos pilotos no meio e na parte de baixo da tabela: Nico Hülkenberg passou Isack Hadjar e foi para nono; Gabriel Bortoleto caiu de 18º para 19º, superado por Oliver Bearman — 20 x 18 na pontuação.
No fim de semana de Austin, a Red Bull foi a equipe que marcou mais pontos, somadas as duas corridas. Verstappen e Yuki Tsunoda entregaram 41 pontos ao time, contra 36 da Ferrari, 28 da McLaren e apenas 16 da Mercedes. Com isso, a equipe de Maranello se aproximou dos alemães na briga pelo vice-campeonato. Agora são apenas sete pontos de diferença. E a Red Bull encostou. Está só dez atrás da Mercedes.
A disputa está totalmente aberta. Ferrari e Mercedes oscilam muito, mas pelo menos marcam com seus dois pilotos. A Red Bull tem a garantia de que Max vai pontuar bem sempre. Se Tsunoda se endireitar, os austríacos podem muito bem atropelar na reta final.
Mas o japonês não tem correspondido. A ponto de o consultor Helmut Marko declarar, nos EUA, que o problema no segundo carro rubro-taurino é o piloto e nada mais. Yuki, coitado, está com os dias contados. Se conseguir um lugarzinho como piloto de testes da Aston Martin no ano que vem, por causa da Honda, deve acender alguns incensos para Buda.
E Marko falou mais…
A FRASE DE AUSTIN
“Max voltou incrivelmente motivado com a vitória de Nürburgring. Sendo honesto, durante o verão já tínhamos desistido. Agora estão todos com fome de vitória novamente.”
Helmut Marko
Chamou a atenção, no final da prova, a ordem da Alpine para Franco Colapinto manter a posição atrás de Pierre Gasly. Ambos estavam à frente de Gabriel Bortoleto. Não valia nada, todos lá no fundão, a léguas — ou milhas, estamos falando dos EUA — da zona de pontos. Mas o argentino passou. Alegou que estava muito mais rápido. E estava mesmo.
Mas a atitude pegou mal. “Qualquer instrução que venha do nosso pitwall é final, e hoje ficamos muito desapontados que isso não tenha acontecido”, falou o diretor geral do time francês, Steve Nielsen. “É algo que teremos de rever internamente.”
A Alpine está mal, muito mal. Colapinto largou em 15º e terminou em 17º. Gasly partiu da 14ª posição e acabou a corrida na 19ª — e última, já que Sainz abandonou. É um fim de feira de dar dó.
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS… de Nico Hülkenberg, que voltou a pontuar com a Sauber depois de seis corridas. A última tinha sido no pódio da Inglaterra. O alemão começou muito bem o fim de semana, fez o quarto lugar no grid da Sprint, foi acertado por Norris e conseguiu recuperar a alegria no dia seguinte com uma oitava colocação. A Sauber, assim, bateu nos 59 pontos e superou os 57 de 2022, até então seu melhor desempenho na era híbrida da F-1, que começou em 2014. Gabriel Bortoleto, por sua vez, não foi bem e terminou em 18º. “Tivemos duas histórias hoje”, filosofou o chefe Jonathan Wheatley. “Uma para celebrar, outra para aprender.”
NÃO GOSTAMOS… do desempenho da Mercedes, que vinha de uma vitória em Singapura e não fez nada de interessante nos três dias de Austin. Em nenhum momento George Russell e Kimi Antonelli sonharam com alguma coisa próxima do pódio. O italiano, é verdade, teve sua corrida estragada por Sainz. Mas conseguiria, no máximo, um sétimo lugar. A equipe tem tido muitos altos e baixos nesta temporada.
