A IMAGEM DA CORRIDA

SÃO PAULO (migrando em breve…) – Foi lá mesmo no México, em 1991 ou 1992, não lembro bem.
Minto. Lembro, sim: 1991. Porque foi minha primeira corrida no México, e foi naquele ano que fui incumbido de arranjar um restaurante para toda a tropa de jornalistas brasileiros jantarem na sexta-feira, depois dos treinos. Foi no ano em que o Senna capotou na Peraltada e todo mundo achou que ele iria partir desta para a melhor, porque dias antes tinha já rachado a cabeça num acidente de jet-ski. Ayrton era meio vida louca.
Aí, mesa cheia, cerveja descendo, tequila correndo solta, quase todo mundo já sentado decifrando o cardápio, chega o último colega, um gaúcho empedernido de sotaque carregadíssimo, e estávamos todos muito excitados falando sobre a capotada do Senna, sua cabeça rachada, a comida apimentada que recomendava alguma cautela, falávamos sobre vários assuntos e todos ao mesmo tempo, e o gaúcho, com seu vozeirão, pediu a atenção de todos, interrompeu todas as conversas, dirigiu-se ao mais afamado da mesa, que provavelmente, naquela ocasião, era o Reginaldo Leme, e disparou: “Viste as Minardi?”.
Ninguém queria saber das Minardi, os protestos foram imediatos, todos gritando com o gaúcho, que Minardi o quê!, foda-se a Minardi!, e outro colega, igualmente gaúcho, que conhecia melhor o recém-chegado, cochichou no meu ouvido: “Esse aí é um ‘outrista’”.
“Outrista” é palavra que não existe no dicionário, creio, mas passou a existir desde então, sendo a definição do sujeito que resolve introduzir “outro” assunto, notadamente irrelevante, numa roda em que todos estão falando sobre temas completamente diferentes. No caso, na populosa mesa daquele restaurante na Cidade do México, estes eram Senna, a Peraltada, Mansell, Williams, Piquet, jet-ski, McLaren, Telê campeão brasileiro, Pablo Escobar, colapso da União Soviética, assuntos não faltavam, e se surge alguém, nesse contexto, perguntando “viste as Minardi?”, eis um “outrista”.
Elimino as aspas do termo para me autoproclamar um outrista hoje, após a vitória de Lando Norris no GP do México, o que fez dele o novo líder do campeonato, agora apenas um ponto à frente de seu companheiro Oscar Piastri. Foi uma ótima corrida, Charles Leclerc terminou em segundo, subiu ao pódio pela 50ª vez, Max Verstappen se virou nos 30 e terminou em terceiro, Piastri foi só o quinto, mas eu, o outrista, chegaria na mesa mexicana hoje e pediria a palavra para perguntar ao primeiro que me desse atenção: “Viste o Bearman?”.
Oliver Bearman, 20 anos, da pequenina Haas, ficou em quarto na corrida e repetiu o melhor resultado da história da equipe, um quarto lugar de Romain Grosjean na Áustria em 2018. O menino que ainda tem umas espinhas no rosto e dentes tortos foi o grande nome do GP do México na visão outrista deste que vos escreve. Por isso, é dele a imagem da corrida deste rescaldão. E tem mais algumas aí embaixo.
Ótimas fotos, não? Nada como a alegria genuína de um piloto jovem que ainda não foi contaminado pelo proverbial mau humor da Fórmula 1. E isso acontece ou com os mais jovens, ou com os mais velhos. Se tem alguém que tem sabido rir de si mesmo nestes dias bicudos é Fernando Alonso. Vejam aí embaixo. No desfile dos pilotos, o espanhol, 44 anos no lombo, meteu uma máscara de “lucha libre” e ficou o tempo todo zoando a molecada.
Com viseira e tudo.
Como sempre fazemos neste “Sobre ontem…”, vamos dar uma olhada nas classificações dos dois Mundiais, de Pilotos e Construtores. Entre os dez primeiros, troca de posições apenas entre líder e vice-líder. Um ponto de vantagem para Norris sobre Piastri, como já dito. O que a McLaren pode fazer, agora? Nada. Estão empatados, na prática. Solta os caras e que vença o melhor. Verstappen descontou alguma coisa em relação ao australiano, mas perdeu dez pontos para o inglês — ele mesmo fez questão de dizer isso, para jogar água na fervura dos que acreditam que é capaz de um milagre nessa altura do campeonato.
Sim, milagre. O fato é que a diferença para o líder caiu de 40 para 36, mas agora tem uma corrida a menos para tirar o atraso. E Max já não depende só dele, como a gente fala no futebol. Se vencer as quatro provas restantes e as duas Sprints, perde para qualquer um dos dois que chegar em segundo em todas elas. A tarefa é bem complicada.
Mas tem jogo, ainda. Aprendemos muito nestes anos. Afinal de contas, não tem cabimento entregar o jogo no primeiro tempo. Nada de correr da raia. Nada de morrer na praia.
Entre as equipes, a Ferrari voltou à vice-liderança, agora um ponto à frente da Mercedes. Foram 22 pontos anotados por Leclerc (terceiro) e Lewis Hamilton (oitavo), contra 14 de Kimi Antonelli (sexto) e George Russell (sétimo). Dez pontos separam o time italiano da Red Bull, que está em quarto e, claro, muito viva na briga. Vale uma boa grana.
A Haas subiu para oitavo graças ao ótimo quarto lugar de Bearman e ao nono de Esteban Ocon. Passou a Sauber. Aliás, por conta disso houve um momento hilário ao final da corrida. Pelo rádio, Gabriel Bortoleto perguntou o resultado da prova e quando soube que Ollie tinha terminado em quarto, comemorou — são muito amigos. “É, mas foi ruim pra gente no campeonato”, corrigiu com algum azedume seu engenheiro. O brasileiro ficou meio sem graça.
Mas foi sincero e ficou feliz pelo amigo, o que tem muito mais valor que a espanada do outro lado da linha.
O NÚMERO DO MÉXICO
50
…pódios na F-1 alcançou Leclerc, sete deles neste ano. Empatou com Jenson Button nas estatísticas, na 17ª colocação. Com mais um, iguala o bicampeão Mika Hakkinen. O recordista é Hamilton, com 202. Companheiro do monegasco, o inglês ainda não ganhou nenhuma taça nesta temporada, porém.
“Fui salvo pelo VSC”, disse Leclerc depois da corrida. VSC é “virtual safety-car”, ordem dada pela direção de prova para todos tirarem o pé até um limite máximo de velocidade para clarear alguma situação na pista. Que, no caso, foi uma rodada de Carlos Sainz na penúltima volta. Mas o espanhol estacionou o carro em lugar seguro. O VSC desnecessário impediu Verstappen de atacar Leclerc pelo segundo lugar. O holandês nem reclamou. “Às vezes a gente dá sorte com essas coisas, às vezes dá azar. Hoje dei azar”, conformou-se.
Quem estava inconformado era Liam Lawson.
A FRASE DO HERMANOS RODRÍGUEZ
“Cara, que merda! Vocês viram isso? Eu podia ter matado eles!”
Liam Lawson, da VISA etc.
Foi na terceira volta do GP mexicano. Lawson tinha sido abalroado por Sainz na largada e teve de ir aos boxes para tentar arrumar o carro. Quando voltou à corrida, deu de cara com dois fiscais que tinham atravessado a pista para tirar detritos do asfalto. Houve um mal-entendido entre direção de prova e comando dos fiscais. A situação foi crítica. Felizmente ficou no susto e ninguém se machucou. Lawson acabou abandonando a corrida. A FIA promete investigar em detalhes o que aconteceu.
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS… de ver o maravilhoso Honda RA272 que venceu o GP do México com Richie Ginther em 1965, exatos 60 anos atrás. Foi a primeira vitória da marca japonesa na F-1. O carro, que pertence ao museu da montadora, foi levado ao Hermanos Rodríguez para algumas voltas de exibição. Yuki Tsunoda foi o encarregado de dirigi-lo. Pena que teve um probleminha no câmbio e ele parou depois de poucos metros. Mas deu para matar a saudade de um dos mais belos carros da história.
NÃO GOSTAMOS… da Williams e de Carlos Sainz. A equipe saiu zerada e errou tudo com Alexander Albon, que largou inexplicavelmente de pneus duros. O espanhol, por sua vez, só fez bobagem. Na largada, bateu em Lawson. Na batida, quebraram-se os sensores de velocidade do carro. Sem o sensor, Sainz excedeu a velocidade permitida nos boxes duas vezes, levando duas punições. Acabou rodando na penúltima volta.