
CAPITAL PAULISTA (sábado com sol e sem sal) – Lando Norris deu um grande passo para fechar o caixão do Mundial de F-1 agora há pouco em Interlagos. Fez a pole-position para o GP da Capital Paulista e ainda viu seus dois adversários na luta pela taça amargarem maus resultados. Oscar Piastri, que já levara um soco no estômago ao zerar na Sprint – vencida pelo companheiro –, larga em quarto. E Max Verstappen, que havia iniciado uma impressionante reação depois do fim das férias da F-1, jogou a toalha. “Esquece isso”, falou, quando lhe perguntaram sobre as chances de buscar o penta. Já tinha sofrido um golpe no México, com a volta de Norris ao primeiro degrau do pódio. Hoje, ficou em 16º na classificação.
Isso mesmo, 16º. Empacou no Q1. Saiu do carro cuspindo marimbondos e maldizendo o dia em que, quando era criança, se sentou num kart pela primeira vez. “Eu poderia ter virado contador!”, gritou pelo rádio – a transmissão oficial não mostrou, mas me contaram que foi isso mesmo. “Por que não estou em Belém vendendo açaí? Por que não virei artesão para vender pulseiras e tornozeleiras na praia no cará? Por que não fui estudar veterinária? Por que não fiz um curso de técnico em eletrônica do Instituto Universal Brasileiro?”
Ninguém tinha essas respostas. O fato é que o grid para a corrida de Interlagos, Norris à parte, já que era mesmo o favorito à posição de honra, ficou bem esquisito. Além da debacle inesperada da Red Bull, o povo que foi ao autódromo viu uma Ferrari degolada no Q2, a do cidadão honorário e queridinho da Santa Igreja da Sexta Marcha Lewis Hamilton. Uma vergonha. Viu, também, uns carros meio sem noção entre os dez primeiros, como o Alpine Mercado Livre de Pierre Gasly, o verde-alface de Nico Hülkenberg e dois cartões de crédito ambulantes, de Isack Hadjar e Liam Lawson.
Pior para os patriotas foi não ter ninguém para torcer, já que Gabriel Bortoleto não conseguiu ir para a pista depois do acidente da Sprint. A Sauber até que tentou, montou um carro novo em tempo quase recorde, ele chegou a botar o capacete e entrar no cockpit, mas aí alguém percebeu que esqueceram de colocar o carburador e de instalar o relê da ventoinha, e o brasileiro nem saiu da garagem. (Brincadeira, eu sei que carro de F-1 não tem ventoinha.)
Foi a sexta pole de Norris na temporada, 15ª na carreira. Ela foi obtida, no fim das contas, numa tarde de sábado quente e sem chuva, sem que se concretizassem, ainda bem, as previsões catastróficas dos meteorologistas – quem quer um ciclone? — e aquelas feitas duas semanas atrás pelos propagandistas do GP, que antecipavam “fortes emoções” em Interlagos porque ia chover “com certeza” – de onde veio tal convicção, não sei.
Não choveu hoje e não vai chover amanhã. O que tinha de acontecer em termos pluviométricos aconteceu de madrugada, por volta das 3h – chuva forte com bastante vento em várias regiões da cidade, inclusive onde fica o autódromo.
O dia, porém, amanheceu seco e nublado. E já não havia sinal de água na pista quando começou a classificação. O tempo firmou, a temperatura subiu a 26°C, o sol apareceu entre as nuvens e aqueceu o asfalto a 45°C – e aqui faça-se justiça aos apocalípticos e integrados: as equipes também trabalhavam com a expectativa do mau tempo.
O Q1 começou com quase todo mundo fazendo uma espécie de reconhecimento de terreno, já que as condições eram bem diversas das que foram enfrentadas ontem e hoje pela manhã. Pneus usados, voltas mais lentas, até a sessão pegar no breu.
Nos boxes da Sauber, o trabalho da equipe para montar o carro novo de Bortoleto seguia. As câmeras registraram o brasileiro com semblante tranquilo, primeiro, e de capacete, depois. Faltando menos de 5min para o fim do Q1, seu motor foi ligado. O piloto se ajeitou no cockpit e tentaria sair dos boxes para, pelo menos, saber se o carro funcionaria. Mas não conseguiu. Não deu tempo de acionar todos os sistemas, o cronômetro zerou e Gabriel apeou do carro. Pelo esforço, os mecânicos foram aplaudidos por todos nos boxes. Tentaram. Quase deu. O problema de Bortoleto amanhã será ir para a pista com um carro virgem, sem nenhuma possibilidade de trabalhar numa sintonia fina de acerto para os 4.309 m do circuito paulistano da capital paulista (já posso trabalhar em rádio, falando essas coisas).
O primeiro a baixar de 1min10s na classificação foi Oliver Bearman, com 1min09s891. A 2min do final do primeiro segmento, o inglês da Haas seguia na frente e vários candidatos às primeiras filas apareciam em posições pouco comuns – como Verstappen e Hamilton.
E o Q1 terminou muito estranho. Max foi eliminado com uma patética 16ª colocação, a 0s747 de Norris — que acabou em primeiro com 1min09s656. Foi a primeira vez desde o GP do Japão de 2006 que a Red Bull teve dois pilotos riscados no Q1. Naquela oportunidade, David Coulthard largou em 17º e Robert Doornbos, em 18º. OK no ano passado Verstappen era 17º no grid em Interlagos e venceu, mas foi aquela corrida doida com chuva, safety-car, pódio duplo da Alpine… Enfim, milagres e fenômenos paranormais que não acontecem todos os dias. E, como ele mesmo disse, “esquece”.
Esteban Ocon, Franco Colapinto, Yuki Tsunoda e Bortoleto, claro, foram os demais degolados. Atrás de Norris nas primeiras posições, duas surpresas: Pierre Gasly em segundo e Bearman em terceiro; ambos deixaram seus companheiros comendo poeira. Piastri foi o quarto e Charles Leclerc, o quinto.
No Q2, os tempos na casa “dos nove”, como a gente fala no linguajar dos boxes, começaram a abundar. Bearman voltou a liderar a tabela, seguido por Kimi Antonelli e Piastri. A McLaren só deu sinal de vida para valer quando Norris colocou pneus novos e virou 1min09s616, saltando para primeiro. E a bandeira quadriculada reservou melancolia para mais dois grandes campeões: Fernando Alonso, eliminado em 11º, e Hamilton, em 13º. Alexander Albon, Lance Stroll e Carlos Sainz se juntaram a eles e, cabisbaixos, foram para os vestiários mais cedo.
Norris, Bearman, Antonelli, Leclerc, Piastri, Gasly, Russell, Lawson, Hadjar e Hülkenberg avançaram para o Q3. O alemão, pela primeira vez no ano. McLaren, Mercedes e Aponta Para o QR Code foram as três equipes que levaram suas duplas adiante. Haas, Ferrari, Alpine e Sauber enviaram emissários isolados.
Para o Q3, o favoritismo da McLaren era gigantesco – especialmente no pé direito de Norris. Alguém podia incomodar? A Mercedes, talvez. Sem Verstappen na briga, quem sabe Leclerc? Difícil, a Ferrari faz tempo que não “performa” comentaria um farialimer usando seu verbo preferido.
Mas a primeira tentativa de Lando foi muito ruim, 1min10s548, o que o colocou em décimo na primeira leva de voltas rápidas. Piastri, enfim, nos lembrou que ainda está aqui e foi para a ponta com 1min09s897, apenas 0s002 à frente de Leclerc, que pouco antes havia “performado”.
Norris não podia pensar em errar de novo na sua segunda volta. Largar em décimo seria um desastre, jogaria no lixo tudo que conseguira até aqui no fim de semana – a saber, liderança no treino livre, pole para a Sprint, vitória na corrida curta e oito pontinhos mais do que desejáveis na briga pelo título.
Com isso em mente, fez uma volta boa, enfim: 1min09s511. Deixou Leclerc, que tinha superado Piastri, 0s294 atrás. E veio Antonelli para se colocar entre os dois e garantir a primeira fila a 0s174 do #4 papaia, um ótimo resultado para o menino maluquinho da Mercedes que melhorou muito, tem “performado”, depois do fim da temporada europeia. Tornou-se o terceiro mais jovem piloto da história a conseguir uma primeira fila do grid, aos 19 anos, 2 meses e 14 dias de vida. Para os registros, Stroll é o recordista (18 anos, 10 meses e 5 dias quando ficou em segundo no grid em Monza/2017 pela Williams) e Verstappen, o segundo (18 anos, 10 meses e 29 dias na Bélgica/2016 já na Red Bull).
O monegasco da Ferrari ficou em terceiro e larga ao lado de Piastri, que terminou 0s375 atrás do companheiro e voltou a murchar como um pé de manjericão que não é regado como se deve – a referência botânico-gastronômica é caseira; meu manjericão murchou. Hadjar, Russell, Lawson, Bearman, Gasly e Hulk fecharam os dez primeiros, nessa ordem.
Um grid meio incomum, que coloca Norris na condição de favorito absoluto à vitória amanhã. Como não há previsão de chuva, a corrida se torna bem previsível. Além do mais, seus desafiantes mais diretos, Piastri e Verstappen, estão mais perdidos em Interlagos do que capivaras num ringue de patinação no gelo (de onde tirei isso?).
Desconfio que, por esses motivos, o campeonato acaba amanhã na capital paulista. Não matematicamente, claro – há 108 pontos em jogo, ainda. Mas se Landinho terminar a prova à frente da dupla Oscar & Max, o que parece muito provável pela configuração do grid, nocauteia o holandês e coloca o australiano nas cordas com três etapas pela frente para fechar a temporada.
E é o que acho que vai acontecer, o que seria um anticlímax danado. Mas nem tudo é como a gente quer, não é mesmo?