
CAPITAL PAULISTA (foi bonito) – A vitória de Lando Norris hoje em Interlagos praticamente definiu o título de 2025 na F-1. Faltando três corridas para o fim da temporada, com 83 pontos em jogo (há mais uma Sprint, no Catar), o inglês abriu 24 de vantagem sobre seu companheiro Oscar Piastri, que teve mais uma atuação apagada e terminou a corrida de São Paulo na quinta colocação. E 49 sobre Max Verstappen, que foi o grande nome da prova: largou dos boxes, depois de uma classificação desastrosa ontem, e terminou em terceiro. Por pouco não conseguiu um segundo lugar. Pouco mesmo, três décimos de segundo. Foi sua diferença na bandeira quadriculada para Kimi Antonelli, o jovem italiano da Mercedes que guiou como um veterano e conseguiu o melhor resultado de sua curta carreira – foi seu segundo pódio no ano, depois de um terceiro no Canadá.
Os três que levaram suas lindas taças temáticas para casa (até agora não entendi bem o tema, mas tinha a ver com folhas, florestas, penas de pássaros e escamas de peixes) foram, por motivos óbvios, os maiores protagonistas do GP da Capital Paulista. Mas a corrida teve outros. Alguns, entre a turma que chegou nos pontos – como os novatos Isack Hadjar, Oliver Bearman e Liam Lawson. E um que dificilmente vai conseguir dormir hoje: Gabriel Bortoleto.
O brasileiro da Sauber não conseguiu completar uma volta sequer na sua primeira aparição como piloto de F-1 correndo diante de sua torcida. Repetiu o que parece ser uma maldição para estreantes no país (veja a caixinha abaixo): em 75% dos primeiros GPs de volantes verde-amarelos em casa, o desfecho foi um abandono.
21 A 7 – Foram 28 os pilotos brasileiros que disputaram GPs de F-1 em casa. Desses, apenas sete viram a bandeira quadriculada quando correram pela primeira vez no Brasil. Outros 21 abandonaram ou não obtiveram classificação final por motivos diversos. A estatística ignora a prova extracampeonato de 1972 no traçado antigo de Interlagos (que teve abandonos de José Carlos Pace e Emerson Fittipaldi, seu irmão Wilson em terceiro e Luiz Pereira Bueno em sexto). Considerando, pois, as corridas desde 1973, quando o Brasil passou a fazer parte do Mundial, os sete que concluíram suas provas de estreia foram Emerson (Lotus, vencedor em 1973), Luizinho (1973, Surtees, 12º), Ingo Hoffmann (1976, Copersucar, 11º), Pedro Paulo Diniz (1995, Forti Corse, 10º), Cristiano da Matta (2003, Toyota, 10º), Bruno Senna (2010, HRT, 21º) e Felipe Nasr (2015, Sauber, 13º). A lista dos que não terminaram a corrida é enorme e algumas dessas provas foram realizadas em Jacarepaguá, no Rio. A ela: Wilsinho (1973, Brabham), Pace (1973, Surtees), Alex Dias Ribeiro (1977, March), Nelson Piquet (1979, Brabham), Chico Serra (1981, Fittipaldi), Raul Boesel (1982, March), Ayrton Senna (1984, Toleman), Maurício Gugelmin (1988, March), Roberto Moreno (1989, Coloni, não se classificou para o grid), Christian Fittipaldi (1992, Minardi), Rubens Barrichello (1993, Jordan), Ricardo Rosset (1996, Footwork), Tarso Marques (1996, Minardi), Ricardo Zonta (1999, BAR, bateu nos treinos, não largou), Luciano Burti (2001, Jaguar), Enrique Bernoldi (2001, Arrows), Felipe Massa (2002, Sauber), Antonio Pizzonia (2003, Jaguar), Nelsinho Piquet (2008, Renault), Lucas Di Grassi (2010, Virgin, chegou a sair do carro, voltou para concluir a prova, nove voltas atrás do vencedor, portanto, oficialmente, não obteve classificação na corrida) e, hoje, Gabriel Bortoleto (Sauber).
Depois de sofrer um grave acidente ontem na Sprint, Bortoleto não teve carro para fazer a classificação e largou em 18º. Na primeira volta, na aproximação do Bico de Pato, a curva mais lenta do circuito, tentou passar Lance Stroll por fora, junto ao muro. Colocou metade do carro na grama e foi parar na barreira de pneus. Fim de papo para ele e para os patriotas que vieram a Interlagos apenas para ver um brasileiro disputar um GP pela primeira vez desde 2017. Voltem no ano que vem.
Apesar da frustração do público – os organizadores informaram que 304 mil pessoas passaram pelas catracas do autódromo desde a sexta-feira, um recorde para corridas no país –, a prova foi ótima. Teve muitas disputas no pelotão intermediário, ultrapassagens em profusão, uma atuação de gala de Verstappen e, não sejamos injustos, outra de Norris. O britânico foi o primeiro colocado no único treino livre, fez as poles para a Sprint e para a corrida principal e venceu as duas. Não há reparos à atuação de Lando no Brasil. Impecável é palavra que define bem seu fim de semana.
Antes da largada, não se pode deixar de registrar a presença no autódromo de parte da nata da extrema-direita brasileira, representada pelo prefeito bolsonarista de São Paulo e pelo governador do estado, aquele que vestiu o boné vermelho do MAGA e disse “grande dia” quando Donald Trump foi eleito nos EUA. O mesmo que, meses depois, resolveu foder o Brasil com suas tarifas, e o mencionado governador nada disse sobre o assunto, exceto que o Brasil deveria ceder “algumas vitórias” para o lunático americano. Mas não foram só eles dois. Estavam também no meio da pista, escutando o Hino Nacional entoado pelo pagodeiro Thiaguinho, o agromédico que governa Goiás e o governador do Rio de Janeiro. Este, duas semanas atrás, comandou uma chacina na capital de seu estado porque setores do crime organizado estavam ameaçando territórios ocupados por milicianos — com quem o poder fluminense tem grande afinidade. Logo depois, aviões da Força Aérea sobrevoaram Interlagos. Eu tenho algumas décadas de cobertura deste negócio aqui. Posso até estar enganado, mas não me lembro de cerimônia pré-corrida tão militarizada e sombria – pelas aeronaves de guerra e, sobretudo, pela presença de pessoas tão abomináveis no asfalto. Só faltou hastearem a bandeira com o braço estendido gritando “anauê”. Uma ode ao fascismo que representam. Mas sempre digo: o público que gosta de automobilismo, em boa parte, se identifica com essas coisas e essas gentes. E deve ter adorado.
Dito isso, Interlagos viveu um domingo de incertezas climáticas desde a a madrugada. Choveu de noite em São Paulo, parou, voltou a chover de manhã, abriu o sol, depois o tempo fechou de novo, garoou, a pista molhou, secou e, às 14h, hora da largada, a temperatura era de 17°C, sem chuva e com pista seca, asfalto a 30°C. Esse era o cenário no momento em que 18 pilotos levaram seus carros para o grid, com outros dois esperando na saída dos boxes o início da prova, Verstappen e Esteban Ocon. Red Bull e Haas decidiram mexer em tudo nos seus carros, já que os acertos usados na classificação não deram muito certo.
A largada foi limpa para a maioria. Norris partiu bem, fugiu de confusões e se manteve em primeiro. Mas, atrás, duas estrelas do GP se deram muito mal. Na segunda volta, Lewis Hamilton, que tinha perdido cinco posições depois de um toque com Carlos Sainz antes do S do Senna, bateu na traseira de Franco Colapinto na reta dos boxes e perdeu o bico. E Bortoleto, pouco antes, numa tentativa otimista de passar Stroll antes do Bico de Pato, acabou ficando por lá mesmo. Lewis ainda voltou para a corrida. Gabriel, como já sabemos, abandonou miseravelmente.
Foi necessário chamar o safety-car. No fim da quinta volta ele deixou a pista e a relargada foi um pouco mais selvagem. Piastri mergulhou por dentro do S do Senna e na dividida da curva ele e Antonelli se tocaram. O italiano deu uma rabeada e só não rodou porque seu carro se escorou no de Charles Leclerc, que estava à sua esquerda. Sobrou para o monegasco, que quebrou a suspensão e abandonou. Oscar foi para segundo. Kimi caiu para terceiro. O safety-car virtual foi acionado e nesse meio tempo Verstappen, que já era 13°, parou e trocou seus pneus porque um deles tinha furado.
A prova foi retomada na volta 9. Norris, Piastri, Antonelli, Hadjar, George Russell, Lawson, Bearman, Pierre Gasly, Alexander Albon e Sainz eram os dez primeiros. E as ultrapassagens começaram com fartura: Russell em cima de Hadjar, Bearman sobre Lawson, Verstappen, lá no fim da fila, sem perder muito tempo, deixando Hamilton e Colapinto para trás. Interlagos é uma pista boa para passar. Quando se tem um carro bom, largando do fundão, dá para se divertir. E o carro da Red Bull, se decepcionou muito ontem, hoje acordou de bom humor e estava voando.
Na altura da 17ª volta, apareceu a mensagem no computador. Pelo toque com Antonelli na relargada, após a saída do safety-car, Piastri foi punido com 10s. A direção de prova considerou o australiano culpado pela batida. Enquanto isso, Verstappen fazia fila: passou Yuki Tsunoda, Nico Hülkenberg e Fernando Alonso em coisa de três voltas e, na 18ª, entrava na zona de pontos pela primeira vez no domingo. Com algumas paradas à sua frente, como as de Hadjar, Gasly e Lawson, Max já era sexto na 20ª volta. Na 21ª, passou Albon e foi para quinto. Estava 19s atrás de Norris, o líder. E já tinha parado uma vez para trocar pneus.
Antonelli fez seu pit stop na volta 22 e Verstappen subiu para quarto. Era, de longe, o grande nome da corrida. Sua próxima presa, porém, estava um pouco distante, Russell. E, assim, as primeiras posições se mantiveram até a volta 30. Na 31ª, Norris parou, colocou pneus macios (tinha largado de médios) e voltou em quarto, atrás de Verstappen. Teria de parar de novo, porque os pneus de faixa vermelha não aguentariam até o final. Então, partiu apressado para cima do holandês e rapidamente, com borracha bem mais nova, superou o tetracampeão sem dificuldade. Na volta 35, Max parou pela segunda vez, para colocar pneus médios novamente. Caiu para 12º.
As janelas de paradas eram bem variadas porque os três tipos de pneus foram usados na largada. Eram oito pilotos de macios (Antonelli, Hadjar, Lawson, Bearman, Gasly, Hamilton, Sainz e Bortoleto), sete de médios (Norris, Leclerc, Piastri, Russell, Hülkenberg, Albon e Colapinto) e cinco de duros (Alonso, Stroll, Tsunoda, Verstappen e Ocon).
Piastri pagou seu pênalti na volta 39, trocou os pneus e colocou macios. Voltou em oitavo. Tentaria chegar ao final com aquela borracha, mas teria de cuidar dela com carrinho. O que acabou não acontecendo. Na volta 40, Norris, Antonelli, Russell, Bearman, Verstappen, Lawson, Piastri, Ocon, Alonso e Hulk eram os dez primeiros.
Antes da 50ª volta, Antonelli e Russell fizeram suas segundas paradas. Verstappen assumiu a segunda posição, um assombro. Foi quando Norris fez o segundo pit stop. Colocou pneus médios. E Max Emilian Verstappen virou líder da corrida. “Max, não achava que iria te dizer isso antes da largada, mas você está em primeiro”, falou seu engenheiro pelo rádio. “Nada mau”, respondeu o piloto. Piastri também parou pela segunda vez, logo depois.
Norris retornou ao leito carroçável de Interlagos em segundo, 7s5 atrás de Verstappen. Tinha pneus bem mais novos e 20 voltas para chegar e passar. Mas nem precisou, porque Max acabou fazendo uma terceira parada. Colocou pneus macios. Voltou em quarto, a 14s do líder. Antonelli era o segundo e Russell, o terceiro.
Aí, Verstappen colou o pé no fundo do acelerador. Começou a fazer voltas na casa de 1min12s, contra 1min13s dos que estavam à sua frente. Seu engenheiro pediu alguma moderação, para cuidar dos pneus. “Não temos nada a perder”, respondeu o holandês. E partiu feito um louco para cima de George. Pelo rádio, o engenheiro se rendeu: “Dá para chegar em segundo, Max. Desde que você cuide dos pneus”. Ele nem respondeu. Estava ocupado em dar espetáculo.
Faltando dez voltas para o fim, Verstappen apareceu no retrovisor de Russell. Se tivesse faróis, piscaria. Colou no inglês, abriu a asa na subida do Café e tchau. Passou por fora, no S do Senna. Uma humilhação. Próxima vítima: Antonelli. Distância calculada: 2s. Pra cima dele.
Quando o #1 mostrou as garras atrás do menino da Mercedes, não restou nada mais ao engenheiro da equipe alemã que dizer: “Agora se vira aí”. Max encostou na volta 68. Percorreu os 4.309 m de Interlagos atrás do italiano, sem se precipitar. Preparou o bote para o S do Senna na volta seguinte. Não deu, subiu o Café um pouco distante. Fica para a próxima. Não deu de novo. Kimi, atendendo a pedidos, estava se virando.
E se virou divinamente. Defendeu-se como se tivesse dez anos de F-1 nas costas, e não dez meses. E recebeu a bandeirada 0s3 à frente do monstro da Red Bull. Norris venceu com 10s3 de vantagem para Antonelli. Foi sua sétima vitória no ano, 11ª na carreira. Depois de Verstappen, que conseguiu um dos pódios mais impressionantes da história, vieram, na zona de pontos, Russell, Piastri, Bearman, Lawson, Hadjar, Hülkenberg e Gasly. De Lawson, o sétimo, a Alonso, o 14º, as diferenças entre cada piloto foram menores do que 1s. A Ferrari abandonou com seus dois carros e perdeu até a terceira posição no Mundial de Construtores. Está com 362 pontos, contra 366 da Red Bull e 398 da Mercedes (a McLaren já conquistou esse título).
Foi um corridão, como se vê. E nem precisou chover.