Blog do Flavio Gomes
F-1

PATRIOTÁRIOS (6)

SÃO PAULO (material não falta) – Ah, nada como terminar mais um dia lendo meus e-mails e me deliciando com o farto cardápio de possibilidades para os próximos dias em Interlagos e arredores. São muitas, muitas mesmo, as experiências imersivas que me têm sido oferecidas pelas gentis empresas que, de alguma forma, associaram suas marcas […]

SÃO PAULO (material não falta) – Ah, nada como terminar mais um dia lendo meus e-mails e me deliciando com o farto cardápio de possibilidades para os próximos dias em Interlagos e arredores.

São muitas, muitas mesmo, as experiências imersivas que me têm sido oferecidas pelas gentis empresas que, de alguma forma, associaram suas marcas ao GP da Capital Paulista, ex-Brasil. E todas elas me avisam sobre suas ações e iniciativas, fazendo convites sedutores para que me conecte ao universo das pistas.

Na medida do possível, vou colocá-las aqui, as experiências imersivas das quais poderei desfrutar nos próximos dias. Os trechos escolhidos serão sempre reproduzidos fielmente. A linguagem – desculpem, “narrativa”; hoje só se fala “narrativa” – é muito parecida em todos eles. Será o mesmo redator fazendo um frila para todas as agências? Ou será que…

Não, custo a crer que agências de publicidade e comunicação lá pelos lados da Vila Olímpia e da Faria Lima, com seus planos super elaborados por meninos de coletinho puffer e garotas de calças jeans boca de sino e tênis adidas, recorram a coisas banais como ChatGPT e Copilot, que podem ser baixados de graça em qualquer computador. Não, não. Prefiro acreditar que são estratégias comuns, mesmo, ainda que os produtos envolvidos sejam tão diferentes entre si, como picolés, bancos, salgadinhos e isotônicos.

Vamos lá.

CONFIRMADA!“Porto Bank ativa experiências imersivas e confirma roda gigante no Grande Prêmio de São Paulo 2025”, grita em negrito a manchete do press-release. Sim, press-releases são manchetados. Como tudo, hoje, precisam chamar a atenção do indigitado que vai receber aquilo em sua caixa postal. “Com roda gigante exclusiva, simuladores de corrida, autorama e troca de pneus, a marca transforma o evento em um dos principais espaços de experiência e grande celebração aos apaixonados por automobilismo”, diz a linha fina – que é uma espécie de subtítulo, abaixo da manchete; recomendo que seja menor, mais enxuta. Ainda tive de cortar um pedaço. Sigamos.“Entre as atrações já confirmadas pela marca estão a icônica roda gigante, com 36 metros de altura, vista panorâmica para o autódromo e capacidade para até 500 pessoas por hora [observação minha: que bom que a roda gigante confirmou sua presença; talvez tivesse outro compromisso, mas desmarcou para ir a Interlagos], os simuladores de corrida, uma pista de autorama e a ação interativa de troca de pneus, que convida o público a viver a adrenalina dos boxes. Além disso, um jogo para testar a velocidade de coordenação e reação do jogador — que faz parte do treinamento dos pilotos de corrida. ‘Mais do que a presença de marca, queremos proporcionar uma vivência real da principal categoria do automobilismo mundial. Com ativações interativas e emocionantes, o Porto Bank mostra como o cuidado pode ser também experiência, criando memórias que conectam o público à nossa proposta de valor’, afirma Oliver Haider, superintendente de marketing da Porto.” Fiquei com vontade de responder ao superintendente de marketing que as únicas memórias de quem tem Porto são relacionadas a batidas de automóvel ou requisições de guincho para rebocar carros quebrados. Mas receio que tal resposta poderia ser interpretada como algo meio deselegante. Deixei pra lá.

FIQUEMOS ATENTOS – A Porto atua em mais de uma frente. Vejam vocês, a marca será vista também nos carros da McLaren. A REF+, agência de publicidade, me avisou que assina a nova campanha do Porto Bank – sim, tem banco também. Em parceria com a Mastercard, patrocinadora do time papaia, vai estar nos carros de Norris e Piastri. “A comunicação (…) traduz a associação entre a velocidade da escuderia e o pioneirismo do banco, primeiro a zerar o IOF em compras internacionais”, diz o release. Ah, essa relação é batata, pensei. Qualquer um que vê um carro da McLaren liga imediatamente sua velocidade ao IOF em compras internacionais. Puta sacada. “No núcleo criativo, a REF+ une os dois universos – Porto Bank e McLaren – pelo atributo ‘velocidade’, conectando o DNA da F1 a um benefício tangível para o consumidor: a rapidez em zerar o IOF no exterior. Os filmes da campanha foram desenvolvidos pela agência com o uso de insumos originais da própria escuderia, potencializando autenticidade e relevância no contexto do calendário da categoria no país.” Puta que pariu. O que significa “potencializando autenticidade e relevância no contexto do calendário da categoria no país”? Quais são os “insumos originais” usados no filme – me mandaram o filme, é uma merda. Do que esses caras estão falando? Mas o que me chamou a atenção foi a ocorrência, pela terceira vez nesta semana, do termo “tangível” – escutei um comercial no rádio em que, juro, o locutor falou em “tangibilização”, e li em outro release que a marca X procurava “tangibilizar” não sei o quê; fiquemos atentos.

“SORVETE” NÃO EXISTE MAIS?“Bacio di Latte leva gelatos e picolés insanos para a Fórmula 1 em São Paulo”, berra outra manchete. “Marca artesanal de inspiração italiana estará presente no Autódromo de Interlagos entre os dias 07 e 09 de novembro, com sabores que prometem refrescar o público do Grand Prix SP”, continua o texto, descrevendo os picolés insanos: chocolate belga, pistache e morango. Insano, garanto, serão os preços. Pelo menos não falaram em sorvetes, digo, gelatos imersivos. (“Gelatos.” Puta que pariu.)

ESSE EU PERDI – “Oi Flavio, tudo bem? É hoje! KitKat® e Spotify se unem para um evento inédito em São Paulo que marca a chegada do Spotify AUX ao Brasil, uma experiência imersiva que mistura música eletrônica, automobilismo e o conceito ‘Have a Break, have a KitKat®’. A noite terá show de Dub Dogz, participação do piloto Gabriel Bortoleto e ativações exclusivas criadas pelas duas marcas. Spotify AUX são momentos criados pelo Spotify para gerar experiências memoráveis que conectam marcas, artistas e fãs em torno da cultura. Mais do que shows, são experiências imersivas e cuidadosamente curadas que colocam o público no centro de momentos culturais relevantes. Essas ativações ajudam marcas a fortalecer sua relação com as pessoas e com os criadores que elas admiram, associando-se a contextos culturais de alto impacto e promovendo engajamento autêntico na vida real.” Era hoje, acho que perdi a hora. Bortoleto sei quem é, Dub Dogz, não. Aproveitando, o que quer dizer “associando-se a contextos culturais de alto impacto e promovendo engajamento autêntico na vida real”? Que caralho é isso?

SALGADINHO – “DORITOS® sempre se conectou com quem ousa e tem coragem de ser você mesmo. A parceria com a F1® é extremamente estratégica, pois reforça essa atitude, unindo a energia das arquibancadas, a ousadia dos pilotos e o espírito global do esporte”, explica Samia Chehab, diretora de marketing da PepsiCo Brasil. Samia, se pudesse me dar um exemplo, unzinho só, dessa associação entre um triângulo de massa gordurenta que deixa os dedos amarelos, a ousadia dos pilotos e o espírito global do esporte, putz, eu adoraria. Não sei se não percebi, se algo me escapou. Em todo caso, se você que está me lendo tiver a mesma dúvida, tente saná-la na Fanzone do GP. “No espaço da marca, o público poderá mergulhar ainda mais no universo da Fórmula 1®. O stand contará com uma ativação chamada ‘Crunch Radio’, onde o público poderá espelhar a intensa comunicação por rádio das equipes de corrida, proporcionando uma imersão direta e divertida da F1®. E o ponto alto será com uma corrida de bolinhas que desafia os fãs e entrega pura diversão no clima da FÓRMULA 1 MSC CRUISES GRANDE PRÊMIO DE SÃO PAULO 2025. O espaço ainda conta com um photo opportunity temático para registrar a experiência.” O ponto alto será uma corrida de bolinhas, preparem-se. A parada da imersão no rádio, aí, não entendi o que é.

MAS É OFICIAL – Eventos esportivos, festivais de música, competições de qualquer coisa têm seus fornecedores oficiais. “Pneu oficial da F-1”, Pirelli. “Banco oficial do Rock in Rio”, Itaú. “Patrocinador oficial do Brasileirão”, Betano. Entendo. Mas vocês sabiam que tem um “hidratador oficial da F-1”? Pois tem, sim. E é bem conhecido: Gatorade, senhoras e senhores. E contrato longo, podem reparar nos próximos cinco anos em toda corrida. Pelo menos é oficial. E, claro, estará na Fanzone. “Gatorade® quer fortalecer sua conexão com o público brasileiro que consome o esporte com uma estratégia robusta. A marca promoveu o GDay, um evento exclusivo e imersivo que ofereceu aos convidados a oportunidade de vivenciar o treino similar ao de um piloto profissional de Formula 1®. (…) Outro grande momento será a presença inédita da marca no Grande Prêmio de São Paulo. Para sua estreia oficial, Gatorade® preparou uma série de ações especiais para potencializar sua presença no evento e ampliar o alcance da parceria com a F1®. Entre as iniciativas, a marca terá um estande com experiências imersivas na Fanzone, conteúdos exclusivos para redes sociais e ativação de um squad de criadores de conteúdo, levando a emoção da Formula 1® a um público ainda mais estratégico e genuinamente interessado no tema.” Quando me mandaram esse mesmo e-mail semana passada, respondi delicadamente que a Gatorade patrocinar um evento esportivo não era exatamente notícia, do ponto de vista jornalístico. A não ser, continuei, que você me disser que vão encher os dois lagos de Interlagos com Gatorade sabor framboesa ou tangerina. “Aí sim seria uma experiência imersiva”, encerrei, imaginado um mergulho coletivo ao final da corrida. Não me responderam. Em todo caso, o filme da campanha já está no ar. Ficou uma merda, e os carros de F-1 não fazem esse barulho desde 2013.