Blog do Flavio Gomes
F-1

QUEM LEVA ESSA DOHA? (1)

SÃO PAULO (tem jogo…) – Ele andava meio sumido, mas apareceu. Oscar Piastri subiu ao pódio pela última vez em Monza. Foi naquela corrida em que a McLaren se candidatou ao Nobel da Paz ao ordenar a troca de posições entre ele e Lando Norris porque, oh, a parada nos boxes do inglês foi ruim. […]

SÃO PAULO (tem jogo…) – Ele andava meio sumido, mas apareceu. Oscar Piastri subiu ao pódio pela última vez em Monza. Foi naquela corrida em que a McLaren se candidatou ao Nobel da Paz ao ordenar a troca de posições entre ele e Lando Norris porque, oh, a parada nos boxes do inglês foi ruim. Ele não merecia aquilo. Então, Oscar contestou daquele seu jeito eloquente. “Você acha errado?”, perguntou seu engenheiro. “Sim”, respondeu. “Vai ficar putinho?” “Sim.” “Mas vai sair da frente do mesmo jeito.” “Sim.”

Desde então, o australiano murchou. Recolheu-se ao seu marsúpio particular e nas seis provas seguintes ninguém mais viu o rapaz. Bateu no Azerbaijão, foi quarto em Singapura, quinto nos EUA, no México e no Brasil e tinha terminado em quinto em Las Vegas, também. Ganharia uma posição com a punição a Kimi Antonelli, mas acabou desclassificado. Seis corridas desaparecido. Nelas, marcou 42 pontos. Se fosse um campeonato de seis etapas com duas Sprints (Austin e Interlagos), Oscar seria o sexto colocado. À frente dele estariam Max Verstappen (136 pontos no período), George Russell (100), Norris (97), Antonelli (71) e Charles Leclerc (63).

Oscar Jack Piastri (até o nome inteiro dele é sem graça, coitado; quem neste mundo se chama “Oscar Jack”?) fez a pole-position hoje para a Sprint do Catar, penúltima etapa do Mundial.

Renasceu.

Trofeuzinho da pole na Sprint: importante, claro

Vice-líder do Mundial, 24 pontos atrás de Norris e empatado com Verstappen, Oscar pode descontar um pouquinho dessa diferença amanhã na minicorrida de 19 voltas no circuito de Lusail, que fica pertinho de Doha, capital do país árabe. De grão em grão, vai saber… Piastri assumiu a liderança do Mundial na quinta etapa, em Jedá, e ficou na ponta da tabela até a 19ª, no Texas. No México, perdeu a posição para Norris. Havia muito tempo que não fazia nada de notável. Essa pole, como ele mesmo disse, em longo discurso de agradecimento à equipe pelo rádio, pode ser uma virada de chave.

Na íntegra, segue o que ele falou (desculpem a longa transcrição, mas cada palavra importa): “É bom estar de volta”.

Foi uma noite agradável a desta sexta no Catar. O primeiro treino livre — e único do fim de semana — aconteceu dentro da mais pura normalidade, com tempo seco e 26°C de temperatura. Teve o próprio Piastri na frente, com o tempo de 1min20s924. Foi 0s058 mais rápido que Norris e o terceiro colocado, Fernando Alonso, acabou sendo a surpresa da sessão com a Aston Martin.

Verstappen: irritado do começo ao fim

Quem não ficou nada contente com o início dos trabalhos foi Verstappen. “Esse volante não vira”, reclamou. “OK, Max”, assentiu seu engenheiro. “Esse breque não breca.” “OK, Max.” “Esse motor não anda.” “OK, Max.” “Esse assoalho bate no chão.” “OK, Max.” “Essas marchas não entram.” “OK, Max.” “Esse banco é duro.” “OK, Max”. “Esse macacão é quente.” “OK, Max.” “Essa sapatilha aperta.” “OK, Max.” “Esse pneu é uma merda.” “OK, Max.” “Esse carro não faz curva.” “OK, Max.” “E também não vai na reta.” “OK, Max, tirando isso, o resto…?” “O resto tá OK.” Ficou em sexto, a 0s580 de Oscar.

Na classificação para a Sprint, os termômetros já haviam caído para 21°C, clima supertranquilo para todo mundo. Max foi o primeiro a fazer tempo, 1min22s258. Ao final do SQ1, ele mesmo ficou com o melhor tempo, 1min21s172, depois de a primeira colocação passar também pelas mãos de Isack Hadjar, da Doze Vezes Sem Juros na Black Friday, Norris e Alonso. Foram eliminados Lance Stroll, Liam Lawson, Lewis Hamilton, Pierre Gasly e Franco Colapinto.

Hamilton, Hamilton… O que acontece com esse moço? Ao final da classificação, foi entrevistado pela Sky Sports, emissora inglesa que transmite a F-1. No total, para três perguntas, devolveu nove palavras de acordo com o canal de TV: “same as always”, quando perguntado como tinha sido o Shootout; “no, [not] good enough”, quando perguntado sobre o acerto de seu carro para a Sprint; e “the weather’s nice”, sobre as perspectivas para a provinha de amanhã. Eu contei 11 palavras, se consideramos esse “not” entre colchetes (virou uma praga esse negócio de colchetes, ninguém tem critério pra esse negócio!) e o “is” contraído após o apóstrofo. Onze ou nove, tudo que diz respeito a Hamilton neste ano tem sido… muito pouco. Não vou criar teorias da conspiração aqui, nem tenho informação alguma a respeito. É puro impressionismo. Mas acho que Lewis se arrepende de ter ido para a Ferrari. Não é como ele imaginava. Parece comigo em Itacaré há quatro anos, mal comparando: pura fantasia. Eu voltei. Ele vai insistir? Não sei. Mas não ficaria surpreso se, de repente, decidisse pendurar o lindo capacete amarelo. Hamilton está triste. É melhor ser alegre que ser triste. Alegria é a melhor coisa que existe.

No SQ2, Norris ficou com o melhor tempo, 1min20s956, 0s049 à frente de Piastri. Ficaram pelo caminho Hadjar (volta cancelada por exceder os limites da pista), Oliver Bearman, Gabriel Bortoleto, Nico Hülkenberg e Esteban Ocon. Avançaram as duplas de McLaren, Mercedes, Red Bull e Williams, além dos representantes isolados de Ferrari e Aston Martin.

Antonelli abriu os trabalhos no SQ3 com 1min20s903 e depois disso a briga pela pole ficou entre Piastri e Russell, que se revezaram na ponta. Norris estava na luta, também, mas errou na última curva em sua melhor volta e ficou em terceiro. Oscar fechou a sessão com 1min20s055, meros 0s032 à frente do inglês da Mercedes. Alonso foi o quarto, sua melhor posição de largada no ano contando Sprints e GPs. Yuki Tsunoda, surpresa das surpresas, ficou em quinto, à frente de Verstappen. Antonelli, Carlos Sainz, Leclerc e Alexander Albon fecharam as dez primeiras posições.

“Tenho 44 anos e sei bem o que fazer com um carro, com pneus, com tudo. Por isso de vez em quando vou bem nas sextas-feiras”, comemorou Alonso. “Sofro um pouco mais que os jovens com o jet-lag, mas consigo me virar.” Fernandinho — boatos indicam que vai ser papai, a confirmar — teve a companhia nos boxes de Adrian Newey, projetista da Aston Martin que, nesta semana, foi promovido a chefe da equipe no lugar de Andy Cowell — que caiu para cima e vai cuidar da transição em 2026 para os motores Honda, novos combustíveis Aramco e lubrificantes Valvoline; vai trocar o óleo, em resumo.

Por fim, Bortoleto. Resultado normalíssimo, lembrando que o brasileiro perde cinco posições no grid para a corrida principal, de domingo, por ter causado um acidente na largada em Las Vegas. Na Sprint, parte de onde terminou a classificação, 13º, com poucas chances de pontuar se nada de anormal acontecer à frente — é difícil de passar nessa pista. Espera-se que complete a primeira volta. Pode parecer bobagem, mas depois de duas corridas sem passar dela a pulguinha fica atrás da orelha.

A Sprint catari amanhã começa às 11h da Papuda e terá 19 voltas. Depois, às 15h (sempre no horário da Superintendência da PF na Asa Sul), acontece a sessão de classificação que vai definir o grid do GP do Catar. A corrida, domingo, terá 57 voltas e largada às 13h da Estação de Rádio da Marinha. Serão obrigatórios dois pit stops, porque a Pirelli só garante a segurança de seus pneus para no máximo 25 voltas — o circuito de Lusail tem muitas curvas de alta velocidade que submetem os pneus a cargas laterais de estresse muito elevadas; nem cantando o hino para eles a situação melhora.

Para ser campeão, Norris precisa marcar dois pontos mais que Piastri e Verstappen no fim de semana todo. A chance é grande. Se não conseguir, a decisão fica para Abu Dhabi, no outro domingo.