Blog do Flavio Gomes
F-1

SOBRE ONTEM À TARDE

A IMAGEM DA CORRIDA MACARAÚ (adorando) – Gabriel Bortoleto abandonou o GP de São Paulo antes de completar a primeira volta. Na véspera, batera na Sprint na última passagem da minicorrida e poderia ter morrido — não é exagero. Nos dois eventos, cometeu erros. Na Sprint, mergulhou loucamente por dentro no S do Senna para […]

A IMAGEM DA CORRIDA

Abandono na primeira volta: hora de baixar a bola do patriotismo

MACARAÚ (adorando) – Gabriel Bortoleto abandonou o GP de São Paulo antes de completar a primeira volta. Na véspera, batera na Sprint na última passagem da minicorrida e poderia ter morrido — não é exagero. Nos dois eventos, cometeu erros. Na Sprint, mergulhou loucamente por dentro no S do Senna para tentar passar Alexander Albon. Valia o quê? A décima posição.

Ou seja, nada. Por isso ficou sem carro para a classificação, algumas horas depois. Destruiu o carro titular e a Sauber teve de montar o chassi reserva. Não houve tempo de concluir o trabalho.

Em 18º no grid, porque dois pilotos decidiram largar dos boxes, Gabriel tentou passar Lance Stroll na freada para o Bico de Pato, por fora. É o ponto mais estreito de Interlagos. Se colocou entre a pista e o muro, com metade do carro passando sobre a faixa de terra e grama. Bateu de novo.

Pergunto ao admirável leitor e à dileta leitora: se essa corrida fosse em outro lugar, Bortoleto tentaria manobras semelhantes contra Albon e Stroll? Em mesmo respondo: acho que não. E por que acho isso? Porque nas 20 etapas anteriores, o brasileiro não fez nada parecido. Então que diabos aconteceu com Gabriel em Interlagos? Também respondo: ele é brasileiro.

O comportamento de atletas brasileiros é contaminado por surtos de patriotismo há séculos, ainda mais quando disputam competições em sua terra adorada. Todos assumem uma posição de heróis e se autonomeiam responsáveis pela alegria do povo. Também se dizem representantes do povo. Chamam o povo de incrível. Declaram que amam o povo. Se travestem de redentores do povo.

Depois, se desculpam com o povo.

Essa baboseira costuma afetar o desempenho dos filhos deste solo quando atuam na pátria amada. São inúmeros os exemplos, mas fico apenas com a F-1. Mostrei ontem que 75% das estreias de brasileiros em casa acabaram em quebras, batidas e rodadas. Há um padrão aí.

Mirem-se em alguns modelos, vocês que acham que desafiam a própria morte com vosso peito quando vestem a amarelinha (argh). Max Verstappen quando corre na Holanda, por exemplo. Michael Schumacher e Sebastian Vettel quando corriam na Alemanha. Fernando Alonso na Espanha.

Menos podcasts, menos entrevistas, menos entradas ao vivo, menos tempo sendo paparicado por influencers, produtores de conteúdo, jornalistas e ex-jornalistas em atividade. Menos contato com quem vai ficar repetindo à exaustão o mesmo discurso patético da “importância de ter um brasileiro no grid para dar sequência ao legado de Emerson, Senna, Piquet, Barrichello, Massa…”.

Menos é mais, dizia o arquiteto Ludwig Mies van der Rohe — é dele, e não do filósofo Henrique Fogaça, o aforismo. Se vale o conselho, Bortoleto tem de encarar o GP do Brasil exatamente como encara todas as outras corridas da temporada. Querer se exibir diante da torcida, da família e da mídia que lhe puxa o saco dá no que deu. E poderia ter sido bem pior.

Façam as contas comigo, mais uma vez. Faltam três corridas para o fim do campeonato, uma delas com Sprint. Pontos em jogo, 83. Digamos que Oscar Piastri dê uma gabaritada e vença todas. Vai a 449 pontos. Se Lando Norris ficar em segundo nas três e na Sprint, termina o Mundial com 451. E é campeão.

Conclusão óbvia e fácil: Piastri não depende mais só dele e Norris não precisa mais vencer para conquistar o título. Aliás, registre-se aqui que Lando dedicou a vitória de ontem a Gil de Ferran, que morreu no final de 2023. O brasileiro estava trabalhando na McLaren e, entre muitas outras funções, era uma espécie de conselheiro do piloto.

Fiz outra continha rápida para ilustrar este momento da temporada, um recorte das últimas cinco corridas — depois da patuscada papaia com Oscar em Monza. Nessas cinco, Lando fez 97 pontos, contra 42 de Piastri. Verstappen marcou 111. Max ainda tem chances matemáticas, claro, mas precisa fazer, por etapa, 16,3 pontos mais que o inglês para terminar o ano na frente. Convertendo em resultados, e desconsiderando a Sprint para facilitar o entendimento, ele teria de vencer todas e torcer para Norris terminar as três no máximo em sexto. Convenhamos…

Piastri chega para a foto oficial: não depende mais só dele

No Mundial de Construtores, reforçando o que já noticiamos ontem, a Ferrari caiu da segunda para a quarta colocação. Fez apenas seis pontos no fim de semana de Interlagos (todos na Sprint), contra 43 de McLaren (já campeã) e Mercedes e 20 da Red Bull.

A FRASE DE INTERLAGOS

“Com certeza, este é o pior dia da minha vida.”

Gabriel Bortoleto, após abandonar a corrida na primeira volta
O consolo do amigo Bearman depois da corrida: pior dos dias

FALTAM TRÊS – O GP da Capital Paulista teve pico de 6 pontos de audiência no Ibope e média de 5,3 na transmissão da Band(eirantes). A emissora mostrou sua última corrida de F-1 em Interlagos e o comentarista Reginaldo Leme anunciou que, da mesma forma, era sua última prova da categoria trabalhando para o veículo TV. O campeonato, no ano que vem, volta para a Globo, que no final de 2020 não renovou seu contrato de direitos de transmissão com a FOM depois que quatro décadas mostrando as corridas para o Brasil. Houve algumas deselegâncias na despedida da equipe, que aconteceu ao vivo sobre o terraço da torre de controle de Interlagos. Mas não vou entrar de novo nesse assunto, que já deu o que tinha de dar.

A PRIMEIRA – Alexander Albon fez a melhor volta do GP da Capital Paulista em 1min12s400, na 59ª passagem. Ele tinha acabado de colocar pneus novos. Foi a primeira volta mais rápida de um GP anotada pelo tailandês da Williams.

O NÚMERO DO BRASIL

11

…anos se passaram desde a última vez em que um piloto largou dos boxes e terminou no pódio, como fez Verstappen ontem. A façanha foi de Lewis Hamilton no GP da Hungria de 2014. Seu carro pegou fogo no Q1 e a Mercedes fez com que ele largasse dos boxes. Ficou em terceiro, atrás de Daniel Ricciardo (Red Bull) e Fernando Alonso (Ferrari).

Max comemora: título longe, mas atuação excepcional

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS… do desfile dos pilotos em calhambeques infantis movidos a motor a gasolina. Os caras se divertiram para valer, houve quebras, caronas e ultrapassagens arriscadas. Bela ideia que arrancou sorrisos da plateia e, principalmente, das estrelas do espetáculo.

NÃO GOSTAMOS… da atuação desastrosa da Ferrari, que no domingo teve dois abandonos, de Lewis Hamilton e Charles Leclerc. O que motivou o desabafo do presidente da empresa, John Elkann. Ele começou elogiando o time vermelho no WEC, que na noite de sábado conquistou o título da categoria, e os mecânicos e engenheiros da F-1. Depois, soltou os cães: “O resto não está à altura. Nossos pilotos precisam se concentrar mais em pilotar e falar menos”.