SÃO PAULO (desculpem o atraso) – Tenho a impressão de que as discussões sobre os novos motores da F-1, a coisa de ter de tirar o pé na reta, a necessidade de pensar em gestão de energia antes de acelerar e todo o resto vão arrefecer rapidamente. Porque pilotos e equipes têm pressa. Precisam fazer essas geringonças funcionarem a contento. Urge encontrar atalhos, descobrir truques, artimanhas, jeitinhos, esparrelas, logros, tramoias, embustes, subterfúgios, tramas, expedientes, ardis e tretas de todas as naturezas para que seus carros sejam rápidos. Não adianta reclamar, o regulamento é esse, os motores são esses, quem não gostar que pegue seu paletó na cadeira e vá fazer outra coisa.
O mesmo vale para quem se mete a comentar F-1, gente como eu. Minha opinião sobre o tema já foi dada. Não vou ficar repetindo a mesma ladainha o resto da vida. E está na cara, porque essa é a história da F-1, que rapidamente engenheiros e babalorixás da eletrônica vão tapar os buracos que afligem os puristas como Max Verstappen e encontrarão soluções que serão imediatamente copiadas pelos outros e la nave va. Daqui a alguns meses, teremos esquecido do tema. Foi assim quando proibiram controle de tração e suspensão ativa, quando introduziram os pneus com ranhuras, quando inventaram a asa móvel, quando surgiu o KERS, quando vetaram os motores turbo, quando surgiram os híbridos, quando enfiaram o Halo sobre o cockpit e por aí vai. Os motores mezzo a cobustão mezzo elétricos são apenas mais um soluço, que passa rápido com um bom copo d’água.
Assim, só voltarei ao assunto se ele voltar a ser… assunto! Quem tinha de reclamar já reclamou, quem tinha de defender já defendeu, quem achou uma merda já emitiu seu parecer, quem acredita que as corridas serão espetaculares com as novas estratégias, botões e carregadores de bateria, idem.
Nesta sexta acaba a pré-temporada. Na quinta (escrevo depois da meia-noite), segundo dia de treinos da semana, Kimi Antonelli fez o melhor tempo, 1min32s803. Oscar Piastri, da McLaren, ficou 0s058 atrás dele. Foram os dois únicos que andaram abaixo de 1min33s nesta semana. Lewis Hamilton quebrou de manhã e a Ferrari perdeu tempo nos boxes. A Aston Martin viveu mais um dia terrível e o carro de Fernando Alonso parou no meio da pista com problema de superaquecimento no motor. Verstappen foi o que mais andou, 139 voltas. Foram 16 pilotos na pista.
Volto ao tempo de Antonelli: 1min32s803. Nossa, os carros estão muito mais lentos, a pole no Bahrein no ano passado foi de 1min29s841! OK, os carros tendem a ficar mais lentos com menor pressão aerodinâmica e velocidade mais reduzida nas curvas. Mas vejam… Quando estreou a geração anterior dos carros da categoria, em 2022, o melhor tempo na pré-temporada do Bahrein foi de 1min31s720, de Verstappen. No ano seguinte, 1min30s305 de Sergio Pérez, então na Red Bull. Em 2024, 1min29s921 de Carlos Sainz, da Ferrari. E no ano passado, o mesmo Sainz, já na Williams, bateu o cronômetro em 1min29s348 no circuito barenita.
Entendem onde quero chegar? É possível que nesta sexta o melhor tempo da pré-temporada no circuito de Sakhir esteja muito perto do que Verstappen conseguiu em 2022, também ano de estreia de novos carros e novo regulamento. A evolução é muito acelerada. Em breve esses carros estarão andando tanto quanto os anteriores. E se os caras terão de dirigir apertando botões e perguntando pelo rádio onde deixaram seus carregadores — todo mundo perde carregador! –, problema deles.
Não adianta reclamar, e não dá tempo de reclamar. A F-1 é urgente.
