A IMAGEM DA CORRIDA

SÃO PAULO (é o fuso) – O GP do Japão será lembrado como aquele em que Kimi Antonelli se tornou o mais jovem líder da F-1 de todos os tempos. OK, é merecido. Mas Kimi, o italianinho, vai nos perdoar no futuro. O jornalismo é o rascunho da História. O acidente de Oliver Bearman, no futuro, terá mais consequências para a categoria que a simpatia do piloto da Mercedes em Suzuka. Porque a F-1 terá de mudar alguma coisa. Ela foi avisada pelos pilotos mais experientes: vai dar merda. Não deu ouvidos. O inglês da Haas poderia ter se arrebentado.
Não importa quem — e se — alguém errou nesse acidente. Vi alguns vídeos de patetas dizendo que o acidente não teve nada a ver com o regulamento, que um apertou um botão errado, que o outro errou a marcha, teses estapafúrdias que desaguam na culpabilidade. Brasileiro adora arrumar um culpado para tudo. (Por que esses vídeos aparecem no meu celular do nada? Eu só vejo vídeos de imobiliárias em João Pessoa!)
O resumo da ópera é o seguinte: se numa corrida de carros da mesma categoria dois deles chegam no mesmo ponto de um circuito com velocidades tão distintas sem que nenhum deles esteja quebrado, tem alguma coisa errada. Com as regras, não com os pilotos.
E quando isso acontece, vai dar merda, porque não estamos falando de Gol Bolinha x Voyage Chinesinho, que se esgoelam, quando tudo dá certo e com vento de proa, a 170 km/h. Estamos falando de carros de F-1, que ultrapassam os 350 km/h.
A hora que morrer alguém, como escrevi domingo, vão chorar no caixão.
Eis as classificações do Mundial depois de três etapas. Quem mais subiu foi Piastri, que estava na roça com três pontinhos da Sprint na China. “Quando a gente larga, até que vai bem”, brincou o australiano. Isso porque nos GPs principais de Melbourne e de Xangai, não deu nenhuma volta. A segunda colocação do maclariano foi sólida, construída a partir de uma boa largada e com um ritmo bem aceitável. Ganhar da Mercedes, mesmo sem o safety-car que jogou Antonelli na ponta, não sei se daria. Ele disse que sim.
Lando Norris, em compensação, está apagadíssimo. O campeão mundial terminou a corrida em quinto. Anda macambúzio pelo paddock. Tanto que ninguém lembra que é campeão mundial.
Sobre a precocidade do menino Antonelli, falamos bastante domingo. Os dados históricos, inclusive, já foram anotados: líder do Mundial aos 19 anos, 7 meses e 4 dias de idade. A quebra de tabus italianos, idem. Foram necessários 73 anos para que um piloto da Bota ganhasse duas corridas seguidas de novo. Alberto Ascari fez isso nos GPs da Holanda e da Bélgica de 1953 pela Ferrari. Alguns meses depois, sempre em 1953, Giuseppe Farina e Ascari ganharam na Alemanha e na Suíça, tendo sido essa a última sequência de duas vitórias italianas na F-1.
Aqui é bom lembrar que a Itália, na F-1, se destaca muito mais por suas equipes — Ferrari à frente — do que pelos pilotos. Tanto que apenas dois foram campeões mundiais, e no alvorecer da categoria: Farina em 1950, Ascari em 1952 e 1953. Embora 16 pilotos italianos tenham vencido GPs na história, o que coloca o país em segundo lugar no número de vencedores, no ranking geral a Itália aparece apenas em oitavo no número de vitórias, com 45. À frente dela estão Reino Unido, com 326 vitórias de 21 pilotos diferentes (aqui entram ingleses, escoceses e norte-irlandeses), Alemanha (179 de sete pilotos), Brasil (101 de seis), França (81 de 14), Holanda (71, todas de Max Verstappen), Finlândia (57 de cinco) e Austrália (52 de cinco).
Falamos muito das duas vitórias, mas pouco das duas poles seguidas de Antonelli. Não são muitas, claro, apenas duas, mas apenas outros três pilotos fizeram suas duas primeiras poles de forma consecutiva na categoria: Ayrton Senna em 1985 (Lotus, Portugal e San Marino), Michael Schumacher em 1994 (Benetton, Mônaco e Espanha) e Lewis Hamilton em 2007 (McLaren, Canadá e EUA).
Já a Mercedes não conseguia três primeiras filas seguidas no grid desde 2020, com a sequência Nürburgring/Portimão/Ímola.
A FRASE DE SUZUKA
“Esses meninos hoje em dia aprendem a dirigir e tiram carteira de motorista com carros automáticos na autoescola. Então temos de ensiná-los a soltar a embreagem devagar.”
Toto Wolff, chefe da Mercedes, sobre a má largada de Antonelli
Quem claramente não gostou nada do que aconteceu no Japão foi George Russell. Na modesta opinião deste nada modesto escriba, ele continua sendo o favorito ao título. É bom, inteligente, bonitão, educado e experiente. Está na oitava temporada, de bobo não tem nada, foi forjado nos corredores mercêdicos, é claro que chegou sua hora. O problema é que se Antonelli emplacar mais uma vitória, o que está longe de ser impossível, talento, inteligência, beleza, educação e experiência serão substituídos, em conjunto, por um buraco sem fundo. Por isso Toto Wolff foi a ele depois da corrida para trocar algumas palavras e evitar que o rapaz entre em parafuso. F1/status/2038201424295731693?s=20" target="_blank" rel="noreferrer noopener">A própria Mercedes divulgou o vídeo.
Não é muito comum expor essas intimidades, ainda que a ideia inicial possa ter sido minimizar a derrota com algumas explicações que até podem fazer sentido — acerto errado na classificação, botão apertado em hora imprópria (junto com uma troca de marcha, o que enlouquece o sistema), recuperação de energia falha. A impressão que me passou foi mais de fraqueza do que qualquer outra coisa. Isso que vocês, internautas, chamam de “sentir a pressão” — algo que eu jamais escrevo.
Só sei que no comunicado de imprensa da Mercedes Russell não deu os parabéns a Antonelli, ele que é tão bem nascido e mimoso.
O NÚMERO DO JAPÃO
88
…voltas na liderança tem Antonelli nesta temporada, considerando apenas as corridas principais (nas estatísticas, as Sprints não entram). Depois dele vêm Russell (36), Charles Leclerc (23), Piastri (16) e Hamilton (4).
Falemos da TV, agora. Começando, para provar que não estou de má vontade com ninguém, com o bom número de audiência obtido pela Globo na madrugada. Pico de 5,3 e média de 5 pontos no ibope-que-não-se-chama-mais-ibope. É que “ibope” já virou sinônimo de medida de audiência e, desconfio, é termo incorporado ao léxico brasileiro. Quem mede é outro instituto com outro nome, nem sei se o Ibope existe, ainda.
Sobre a transmissão em geral, fiz um vídeo muito bom para a “Foi o Que eu Disse TV” (faço vídeos semanais). Está aí embaixo.
Sim, volto a tocar no tema Ayrton Senna. Que é o único tema que a Globo e suas filiais do Caburaí ao Chuí conseguem resgatar para falar da história da F-1, numa veneração insuportável e descabida.
Não vou repetir aqui o que disse no vídeo. Mas vou aproveitar o ensejo para explicar quem é, afinal, o cabra que a Mariana Becker entrevistou com um capacete dito original de Senna de 1994. Quem viu o breve quadro de curiosidades que ela, aparentemente, vai apresentar antes dos GPs, ficou sem saber quem é o sujeito, de onde veio, o que estava fazendo no Japão, quanto pagou no objeto que, segundo Becker, era “onde ele colocava a cabeça”.
Trata-se do canadense Darren L. Jack, um colecionador de memorabilia de automobilismo que juntou tanta coisa que montou um enorme museu. O capacete, aparentemente, vale mais de um milhão de trumps. O cara tem um site, também, que vende todo tipo de tranqueira relativa ao mundo das corridas. Tem desde boné assinado por Pierre Gasly por US$ 250 a macacão de Nigel Mansell de 1986 por US$ 50 mil. Como se vê, o cara coleciona, pero no mucho. Se abrir a carteira, leva o tal do capacete “onde ele colocava a cabeça”.
Eu não vendo nada.
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS… da Alpine de Pierre Gasly, que já marcou 16 pontos nesta temporada — 15 deles do francês, sétimo colocado em Suzuka. No ano passado, a equipe rosa e azul levou 12 etapas para chegar a 17 pontos e terminou o ano com apenas 22, em último. Agora com motores Mercedes, já está sendo chamada de “quarta força” do campeonato, atrás apenas de Mercedes, Ferrari e McLaren. OK, quem falou isso foi Flavio Briatore, o chefe. E o time está em quinto na classificação. Mas está valendo.
NÃO GOSTAMOS… da Audi, que estava andando bem em todos os treinos, mas na corrida não fez nada. Criou-se até um mal-estar entre Mattia Binotto e Gabriel Bortoleto, que criticou a falta de velocidade de seu carro nas retas e foi acusado de apertar o tal do botão “Boost” quando não devia, perdendo energia.