
SÃO PAULO (corram atrás) – Esqueçam este campeonato. Como legítimo arauto do apocalipse, vos afirmo: George Russell será campeão com muita antecedência e Kimi Antonelli tornar-se-á o vice mais jovem de todos os tempos. A dupla da Mercedes está sem adversários. Já não teve na Austrália, não terá na China e nunca mais alguém vai chegar perto até o fim dos tempos. A não ser que mudem as regras, mandem desligar dois cilindros de seus motores, coloquem lastros em forma de sacos de areia, obriguem os pilotos do time alemão a uma parada extra em todas as corridas para fazer xixi.
Russell conquistou nesta madrugada, com estarrecedora facilidade, a pole-position para a Sprint de Xangai. Antonelli larga em segundo. É possível que um deles seja ultrapassado na largada por pelo menos uma Ferrari, a de Lewis Hamilton, quarto no grid. Mas, se isso acontecer, a posição será recuperada na enorme reta que é a marca registrada do circuito de Xangai. A superioridade dos carros da Mercedes neste começo de temporada é massacrante. Está deixando todo mundo desolado. Inclusive este que vos escreve na madrugada.
Como mandam os cânones, na classificação para a Sprint, o uso de pneus médios é mandatório nos dois primeiros segmentos. Assim, no SQ1 os primeiros tempos começaram a ser registrados modestamente acima de 1min34s. Hamilton e Nico Hülkenberg foram os primeiros a entrar na casa de 1min33s. A temperatura estava um pouco mais alta do que no treino livre, com os termômetros marcando 15°C. O asfalto, que de manhã se apresentou gélido a 14°C, já batia nos 26°C. A sexta-feira foi ensolarada na megalópole comunista, com um céu azul de doer.
Quando a Mercedes foi para a pista, Russell bateu o cronômetro em 1min33s030 sem nenhum esforço. A Ferrari até que insinuou alguma disputa, com Hamilton subindo para segundo e Chaleclé escalando o pelotão até a terceira posição. Mas ficou na insinuação.
Sem Sergio Pérez, desfalque anunciado antes de começar a classificação (veja caixinha preta abaixo), cinco carros ficariam de fora do SQ2. Stroll, Alonso e Bottas certamente estariam entre eles. Assim, na prática, o SQ1 detonaria apenas dois pilotos. E foi a dupla da Williams que ficou com o mico na mão. Pela ordem, do 17º ao 22º, o fundão do grid terá Carlos Sainz, Alexander Albon, Fernando Alonso, Lance Stroll, Valtteri Bottas e Pérez. Williams, Aston Martin e Cadillac são equipes que, neste momento, nem parecem times de F-1. Os dez primeiros: Russell, Hamilton, Charles Leclerc, Antonelli, Lando Norris, Oscar Piastri, Pierre Gasly, Hülkenberg, Esteban Ocon e Liam Lawson. Max Verstappen, que odeia esses carros, odeia o regulamento, odeia os novos motores e odeia as baterias, foi o 11º. Gabriel Bortoleto, o 13º.
O SQ2 já seria mais complicado, sem a presença das lesmas que frequentarão a zona da degola por um bom tempo, neste ano. Complicado, para ficar bem claro, para a galera do segundo pelotão. Lá na frente, a Mercedes era pule de dez. Logo em suas primeiras voltas, Russell e Antonelli foram para primeiro e segundo. Ferrari e McLaren se revezariam nas quatro posições seguintes. E a Red Bull viria um pouco mais atrás – o time de Verstappen não consegue fazer frente às demais da ponta, por enquanto.
Os dois intrusos que se juntaram às quatro duplas das grandes foram Gasly e Oliver Bearman. Russell e Antonelli foram, de novo, os dois primeiros: 1min32s241 para seu Jorge, com diferença de meros 0s050 para o italianinho. A foice do SQ2 eliminou Hülkenberg, Ocon, Lawson, Bortoleto, Arvid Lindblad e Franco Colapinto. Verstappen foi apenas o nono, cuspindo marimbondos. Acho que já disse, ele está odiando essa F-1 elétrica.
No SQ3, com todos usando pneus macios, não houve surpresas. A Mercedes fechou a primeira fila com Russell na pole e Antonelli em segundo. O tempo do inglês: 1min31s520. Kimi ficou 0s289 atrás. A partir de Norris, o terceiro, as diferenças foram gigantescas. Lando terminou a 0s621 da pole. Hamilton, o quarto, a 0s641. Depois vieram Piastri, Leclerc, Gasly, Verstappen (a intransponíveis 1s734), Bearman e Isack Hadjar no top-10. Se houvesse um trofeuzinho para o destaque do dia, eu daria para o francês da Alpine, um piloto claramente mais rápido que o carro que tem.
A Sprint chinesa começa hoje à meia-noite e terá 19 voltas. A Mercedes fará dobradinha. Depois, às 4h do sábado, tem a classificação para o GP de verdade. A Mercedes também fará dobradinha. Agora vou dormir.
DOLPHIN – Deu na imprensa alemã, na famosa “Auto, Motor und Sport”: a BYD chinesa está interessada na F-1. O mais fácil, claro, é comprar uma equipe que já existe, como fez a Audi. Ninguém está oficialmente à venda, com plaquinha na porta da fábrica. Mas a Renault, se aparecer alguém disposto, vende a Alpine ontem. A montadora já desistiu de fazer motor, está gastando mais do que devia comprando da Mercedes e trouxe Flavio Briatore para fazer uma limpa na organização. Fala-se também em Aston Martin, em crise com a Honda. Mas aí o buraco é mais embaixo. Ou mais caro.
PARA COMPARAR – GP da China de 2025, pole-position: Piastri, 1min30s641. Melhor volta na corrida: Norris, 1min35s454.
TREINO ÚNICO – No treino livre único da China, realizado no começo da madrugada pelo horário brasileiro, Russell foi o mais rápido com 1min32s741, 0s120 à frente de Antonelli. Norris, o terceiro, ficou a 0s555 do britânico mercêdico. A primeira Ferrari, de Leclerc, foi a quinta colocada a 0s858 de seu Jorge. Bortoleto terminou em 12º. A sessão foi realizada com sol e muito frio, 12°C.
DESFALQUE – Pérez não participou da classificação para a Sprint. A Cadillac identificou um grave problema no seu carro: não andava. Porque a bomba de gasolina não funcionou.