Blog do Flavio Gomes
F-1

STRONG & FREE (4)

SÃO PAULO (monstrinho) – “Não foi como eu gostaria. Estava numa briga muito boa com George. Mas tudo bem, aceito.” Assim Kimi Antonelli descreveu sua quarta vitória no ano, a quarta seguida. O piloto da Mercedes venceu o GP do Canadá, quinta etapa do Mundial, e é o primeiro na história a ganhar suas quatro […]

Antonelli: quarta vitória, liderança no campeonato ampliada

SÃO PAULO (monstrinho) – “Não foi como eu gostaria. Estava numa briga muito boa com George. Mas tudo bem, aceito.” Assim Kimi Antonelli descreveu sua quarta vitória no ano, a quarta seguida. O piloto da Mercedes venceu o GP do Canadá, quinta etapa do Mundial, e é o primeiro na história a ganhar suas quatro primeiras corridas de forma consecutiva. O resultado fez o italianinho disparar na liderança do campeonato com 131 pontos, 43 mais que seu companheiro de equipe George Russell, que quebrou quando estava na primeira colocação, na 30ª volta. Até ali, os dois travavam um duelo tão bonito quando assustador – belo para quem via, aterrador para Toto Wolff, o chefe da Mercedes, apavorado com a possibilidade de uma batida entre os dois.

Sem Russell na briga, Kimi teve apenas o trabalho de levar o carro até a bandeirada. Mas a prova de Montreal não se resumiu ao duelo mercêdico precocemente interrompido pela falha no carro de Russell. A briga pelo segundo lugar foi bonita e decidida no apagar das luzes da prova. E quem levou foi Lewis Hamilton, depois de linda batalha com Max Verstappen. Foi o melhor resultado do inglês desde que chegou à Ferrari e o primeiro pódio do holandês da Red Bull no ano.

Apesar da expectativa de chuva e das previsões apocalípticas para a corrida, de um dilúvio bíblico e enchentes devastadoras, não choveu durante a prova. Fez frio, é verdade: 12°C. Mas, mesmo sem chuva, a coisa começou esquisita. Na largada, as luzes vermelhas se acenderam, mas não apagaram. Arvid Lindblad, coitado, não conseguiu engatar a primeira marcha, sinalizou o problema para os fiscais e o procedimento foi abortado, com nova volta de apresentação.

Alguns pilotos – sete, para ser preciso, a saber: Lando Norris, Oscar Piastri, Nico Hülkenberg, Gabriel Bortoleto, Carlos Sainz, Sergio Pérez e Valtteri Bottas – tinham pneus intermediários no grid. Mas a pista estava praticamente seca. O carro de Lindblad foi empurrado de volta para os boxes, mas a retirada demorou um pouco mais do que o normal. Então, mais uma volta de apresentação – ou de formação, que é a denominação mais precisa – foi realizada. A distância original da prova caiu de 70 para 68 voltas.

No fim da primeira volta Piastri foi para os boxes. Norris tinha largado bem, pulando para a ponta, graças aos intermediários. Mas logo fez um pit stop, também. Ambos colocaram pneus médios. Quem tinha apostado nos intermediários teve de colocar slicks, não tinha jeito. Assim, Antonelli, que tinha largado melhor que Russell, assumiu a liderança. Hamilton era o terceiro, com Verstappen em quarto e Charles Leclerc em quinto.

George assumiu a liderança no fim da volta 6. Colocou por fora e ficou lado a lado com Antonelli no retão, o italiano travou os pneus, passou direto pela área de escape e por um fio de cabelo não acertou o companheiro. A manobra, reconheça-se, foi muito bonita. Toto Wolff, nos boxes, quase teve um infarto. Ou enfarte. Ambas as formas são aceitas pelo coração.

Verstappen: bom duelo (e divertido, pelo jeito) com Hamilton

Na volta 9, Verstappen passou Hamilton e assumiu o terceiro lugar. Lewis pediu, pelo rádio, um pouco mais de potência no motor. Como atendê-lo? Difícil. Ford x Ferrari, deu Ford. Pelo menos no primeiro round.

Era bom manter um olho na dupla da McLaren, àquela altura. Ambos tinham despencado no pelotão por causa da troca prematura de pneus, mas não iriam parar quando todos fossem para seus pit stops. Na volta 12, Lando estava em nono e Oscar, em 13º.

No fim da volta 12, Toto pediu um copo d’água com açúcar. Antonelli passou Russell, que tinha travado os pneus no “hairpin”, mas o inglês retomou a posição metros depois. Kimi, então, foi para cima na curva 1, mergulhou por dentro, mas não conseguiu recuperar a liderança. A briga estava tão boa que passou despercebida a segunda parada de Piastri. Pouco antes ele tinha enchido a lateral do carro de Alexander Albon. Quebrou o bico e jogou a sua corrida e a do tailandês no lixo.

Russell e Antonelli seguiram se pegando. Por isso, também, quase ninguém percebeu quando Norris foi chamado para os boxes pela McLaren por algum problema não esclarecido. Aquele olho na McLaren de dois parágrafos atrás, esqueçam. A corrida papaia tinha ido para o vinagre.

Na volta 17, Toto pediu uma ambulância e um cardiologista. Antonelli tentou passar Russell no fim da retona, George resistiu. Não bateram por mícrons.

Com 20 voltas, Russell, Antonelli, Verstappen, Hamilton, Leclerc, Isack Hadjar, Franco Colapinto, Liam Lawson, Pierre Gasly e Oliver Bearman eram os dez primeiros. George e Kimi estavam separados por um piscar de olhos. O líder do campeonato pressionava o tempo todo, alucinado. No fim da volta 22, finalmente, conseguiu passar na freada para a chicane que leva à reta dos boxes. De caçador, virou caça.

Aí virou um pega pra capar insano. Kimi errou no “hairpin”, Russell passou. Antonelli foi para cima na reta e, emparelhados, quase se tocaram. O italiano cortou a chicane. Teve de devolver a posição e começou a reclamar pelo rádio. “Por quê? Ele me jogou pra fora!”. Devolveu. George reassumiu a primeira colocação.

O único jeito de Toto Wolff não sucumbir a um colapso nervoso seria chamando um dos dois para trocar pneus, para que pelo menos por alguns instantes os dois se separassem na pista. Mas nem precisou. Na volta 30, Russell abandonou. Na curva 8, passou direto pela chicane e o carro parou do nada, com tudo apagado. O piloto arrancou a proteção interna do cockpit e jogou na pista. Depois, socou o carro. O safety-car virtual foi acionado. Todo mundo aproveitou para trocar pneus. A vitória caiu no colo de Antonelli sem que ele precisasse alvejar o companheiro com um trabuco.

Desolado, George ficou grudado no alambrado enquanto os fiscais tiravam seu carro da pista. O olhar, perdido no horizonte. Por que comigo, céus? Porque é assim, meu filho. Carro de corrida quebra.

Antonelli, Verstappen, Hamilton, Hadjar, Leclerc, Colapinto, Lawson, Gasly, Norris e Sainz eram os dez primeiros na volta 35, já sem safety-car virtual. Nessa turma, Leclerc x Hadjar e Norris x Gasly eram as brigas da vez – os demais tinham diferenças confortáveis para quem vinha atrás.

Sem Russell para incomodar, Kimi sossegou o facho, claro. O segundo colocado, Verstappen, estava a léguas de distância. Na volta 40, finalmente Leclerc passou Hadjar – que seria punido com 10s por ter mudado de direção 500 vezes na reta quando era assediado pelo monegasco. No mesmo momento, Norris abandonou. Pelo rádio, irritado, avisou: “Quebrou o câmbio ou qualquer coisa assim”.

Na volta aos boxes, Russell foi recebido pessoalmente por Toto Wolff, já mais calmo – e igualmente chateado. Recebeu um abraço e a promessa de que todos os esforços seriam envidados para que o suplício não se repetisse.

Depois de um safety-car virtual na volta 46, para retirada de restos mortais do Cadillac de Pérez, a disputa que se descortinava era pelo segundo lugar entre Verstappen e Hamilton. Lewis, a conta-gotas, se aproximava do holandês. Em dez voltas, descontara 3s. Pelo rádio, que andava meio silencioso, procurou estimular a equipe. “Vai dar, galera! Vamos nessa! Acreditem! Confiem em mim!”, falou. Frédéric Vasseur, o chefe, bocejou. O engenheiro de Leclerc, então, resolveu entrar na vibe do inglês e tentou dar uma animada no outro ferrarista. “Lewis chegou no ritmo dele, 1min15s! Vamos lá, galera!” Charles, em modo Aracy de Almeida (deem um Google, não vou explicar tudo), resmungou: “Só falem comigo quando for estritamente necessário”. Vasseur bocejou de novo.

Um novo safety-car virtual para limpeza de pista foi acionado na volta 53 e Hadjar aproveitou para pagar seu pênalti e trocar pneus. Na retomada da prova, Hamilton se aproximou de verdade de Verstappen: menos de 1s. Foi ao ataque. Vasseur acordou.

A ultrapassagem não foi das mais fáceis. Max sofria com os pneus médios, mas se defendia com o vigor de sempre. Na volta 57, Lewis mostrou o carro duas vezes, mas não fez nenhuma loucura. Na 58, repetiu o assédio moral. Verstappen fingiu que não era com ele. O heptacampeão pediu para a Ferrari lhe dar alguma orientação: “Preciso de mais potência!”.

Não sei se lhe deram alguns cavalinhos, mas na abertura da volta 62, na curva 1, por fora, Hamilton passou lindamente. Max, porém, não entregou a paçoca sem luta. Foi para cima do velho rival na mesma volta, insinuou-se aqui e ali, mas Lewis se manteve firme até a quadriculada.

Antonelli, Hamilton e Verstappen foram ao pódio de Montreal. Leclerc, Hadjar (que ainda pagou mais um pênalti, por desrespeitar bandeira amarela), Colapinto, Lawson, Gasly, Sainz e Bearman fecharam a zona de pontos. Gabriel Bortoleto foi o 13º com a Audi. Como Norris e Piastri, ele e Hülkenberg viram a vaca ir para o brejo na escolha dos pneus intermediários para a largada.

Nos braços dos colegas: Kimi segue fazendo história

O pódio foi festivo. Antonelli é um garoto querido pelos colegas e adorado pelo público. Além do talento inegável, tem carisma e simpatia. Foi erguido nos braços por Hamilton e pelo representante da Mercedes que recebeu o troféu de Construtores. Verstappen deu-lhe um banho de champanhe.

A Mercedes segue invicta na temporada, com cinco vitórias e cinco poles. Quem talvez pudesse incomodar em Montreal errou feio na escolha dos pneus intermediários, a dupla da McLaren. A trapalhada facilitou as coisas para o time alemão. Que tem, neste momento, os dois títulos na mão.

E um piloto que precisa colocar a cabeça no lugar para não mergulhar no abismo da depressão. Para ser campeão neste ano, Russell vai precisar de muita força mental. Seu adversário é bem mais perigoso – e capaz — do que ele poderia imaginar. Ou do que ele gostaria.

Daqui a duas semanas, tem Mônaco. Europa, até que enfim.