SÃO PAULO (histórico) – Sir Lewis Carl Davidson Hamilton ficou 686 dias sem saber o que era vencer na F-1. Um jejum incomum. Afinal, ele é, faz bastante tempo, o piloto com o maior número de vitórias na categoria. Foi no fim de outubro de 2020, em Portugal, no meio da pandemia, que se tornou o maior de todos ao vencer pela 92ª vez, superando Michael Schumacher.
De 2007, quando estreou pela McLaren, a 2021, ano em que perdeu o título para Max Verstappen na última corrida do ano, venceu GPs em todas as temporadas das quais participou. Aí passou em branco em 2022 e 2023 na Mercedes, primeiros anos de um novo regulamento da categoria, com carros que, definitivamente, não combinavam com seu estilo de pilotagem. Muitos lhe deram como acabado. Então, no começo de 2024, avisou à equipe, onde estava desde 2013, que ao final daquele campeonato iria mudar de endereço.
Sua saída para a Ferrari foi das mais rumorosas transferências da história da F-1. Na despedida da Mercedes, venceu dois GPs, na Inglaterra e na Bélgica. Este, o de Spa. Há exatos 686 dias.
Hoje, ganhou de novo. Trinta anos depois de Michael Schumacher ganhar pela primeira vez com a Ferrari. Na mesma pista. E vinte anos depois de sua vitória em Mônaco na GP3, sob a chefia de Frédéric Vasseur — atual comandante do time de Maranello.
Hamilton venceu o GP de Barcelona-Catalunha, que chamamos apenas de GP da Catalunha neste blog, e pela primeira vez escalou o mais alto degrau do pódio vestindo vermelho. Foi muito emocionante. Chorou bastante, sorriu mais ainda. Ganhou a prova aos 41 anos, cinco meses e sete dias de vida. Desde o GP da Austrália de 1994 que um quarentão não vencia na F-1. Naquela ocasião, Nigel Mansell, fazendo um frila para a Williams, venceu em Adelaide aos 41 anos, três meses e cinco dias de idas e vindas pelo planeta. (A propósito: hoje em Barcelona Alexander Albon se tornou o piloto com mais GPs disputados pela Williams, 96, superando justamente Mansell. Por isso correu com um capacete inspirado no do “Leão”.)
A vitória de Hamilton veio numa corrida muito interessante, embora menos fértil em ultrapassagens do que se poderia imaginar neste ano de baterias e motores elétricos e papagaiadas mil criadas pelas novas regras. Não faz mal. Foi um GP daqueles que enxadristas adoram, com estratégias de pneus determinando o resultado final. No caso, três paradas para a Ferrari de Hamilton, duas para a Mercedes, que era favorita até para uma dobradinha – o time alemão venceu as seis corridas anteriores do campeonato e tudo indicava que manteria a invencibilidade, com George Russell na pole e Kimi Antonelli na terceira posição do grid.
Quando as mantas térmicas foram retiradas dos pneus para a volta de apresentação em Barcelona, notou-se que o pessoal do Departamento de Estratégias de Merda da Ferrari estava de folga. A surpresinha: Hamilton estava de macios. Apenas sete dos 22 no grid fizeram a mesma escolha. A ideia de Lewis (e dos demais) era saltar bem na largada, com maior aderência, mesmo sabendo que o primeiro pit stop teria de ser feito muito cedo por causa do alto nível de degradação da borracha no circuito catalão e do forte calor na região – 30°C, com 50°C no asfalto. Os pneus macios estavam nos carros de Hamilton, Verstappen, Nico Hülkenberg, Franco Colapinto, Carlos Sainz, Esteban Ocon e Sergio Pérez. Lance Stroll e Fernando Alonso foram de duros. O resto, incluindo Russell e Antonelli, de médios.
Mas, pelo menos na largada, não deu muito certo o projeto ousado da Ferrari. Russell largou muito bem e manteve a ponta. Lewis, apesar da borracha gosmenta, ficou onde estava, em segundo. Os cinco primeiros colocados no grid mantiveram suas posições originais. E dois pilotos largaram muito mal: Isack Hadjar caiu de sexto para 14º e Gabriel Bortoleto despencou de 12º para 17º. Da turma que estava entre os dez primeiros, Charles Leclerc foi o melhor, pulando de décimo para sétimo.
George abriu mais de 2s sobre Hamilton em quatro voltas. Suas intenções eram óbvias: abrir, abrir e abrir. Porque em algum momento, imaginava, seu companheiro de equipe iria superar Hamilton para ocupar o segundo lugar. E tudo que ele não queria era ver o rostinho angelical do falso anjo pelo retrovisor. Pelo rádio, inclusive, ouviu-se uma espécie de murmúrio do piloto inglês nas primeiras voltas da corrida: “Vade retro, Satána. Nunquam suade mihi vana. Sunt mala quae libas. Ipse venena bibas”. “O que é isso?”, perguntou Toto Wolff ao engenheiro. “Acho que é latim”, respondeu o funcionário da equipe.
Na volta 12, como se esperava, Hamilton parou pela primeira vez. Colocou pneus duros e caiu para sétimo. Pouco antes, Leclerc havia ultrapassado Oscar Piastri com vigor e disposição. Para evitar problemas, na volta seguinte George parou também. E, como Lewis, optou pelos pneus duros para seu segundo stint. Voltou à pista à frente do ferrarista, o que naquele momento era o que mais importava. Seria uma corrida de muitos pit stops.
Antonelli, com a parada de Russell, assumiu a ponta. “Si vis pacem, para bellum”, escutou-se no rádio do inglês assim que saiu dos boxes. “Que diabos ele falou?”, perguntou Toto ao engenheiro. “Me parece latim de novo”, intuiu o engenheiro, sem entender direito. E chutou: “Se olhar nosso pace, tá bonito”. O que deixou Toto satisfeito. Kimi também trocou seus pneus logo e voltou onde estava antes, atrás de Hamilton. Com os primeiros pit stops, Leclerc assumiu a ponta. Atrás dele, Russell, Hamilton, Antonelli, Lando Norris, Verstappen e Piastri. Era a volta 16. Charlinho parou na seguinte e logrou manter-se à frente do australiano da McLaren. George, então, reassumiu a ponta. “Amat victoria curam”, balbuciou, pelo rádio. “O que ele está falando?”, insistiu Toto, intrigado. “Pelo que entendi, mandou enfiar a vitória naquele lugar”, tentou traduzir, um pouco envergonhado, o engenheiro. “Ele tá meio mordido.”
Na volta 20, Russell tinha 2s sobre Hamilton, que por sua vez abrira 5s sobre Antonelli, o terceiro. Norris, Verstappen, Leclerc, Piastri, Arvid Lindblad, Hadjar e Liam Lawson ocupavam as dez primeiras posições. Desses, Verstappen tinha pneus médios. Os outros, duros.
A corrida entrou num período de monotonia. Nem as ultrapassagens iô-iô, que este que vos bloga achou que seriam frequentes pelas características da pista, aconteciam. Antonelli, em terceiro, forçava um pouco o ritmo para chegar em Hamilton. Na volta 25, a diferença caíra para 2s2. A equipe avisou Russell que, em breve, Kimi iria passar Lewis. “Corvus oculum corvi nor eruit”, respondeu George. “O que ele disse?”, questionou Toto, demonstrando alguma irritação. “Nada muito importante, alguma coisa sobre usar óculos nas curvas”, inventou o engenheiro, que na escola tinha aprendido um pouco de francês e nem se lembrava direito, porque passava as aulas olhando para as pernas da professora. De latim, mesmo, não sabia nada.
Lewis fez sua segunda parada na volta 28. Colocou pneus médios. Voltou em sétimo e sua estratégia era clara: três pit stops. Para funcionar, teria de recuperar terreno, chegar à ponta e abrir um montão do segundo colocado para poder parar a terceira vez e buscar a vitória com pneus novos na parte final da corrida. No papel, OK. Mas teria de combinar com os russos (deem um Google, não vou explicar o que quer dizer essa expressão; Russell está falando em latim o tempo todo e vocês não reclamaram, então não encham).
Kimi assumiu o segundo lugar. A diferença dele para Russell era de apenas 2s7. O pesadelo começou. Na volta 30, 1s1. George começou a pegar tráfego e o amiguinho satânico chegou de vez.
O primeiro ataque aconteceu na volta 33. Russell se defendeu. Antonelli, como diz Edgard Mello Filho, babava na gravata. A Mercedes pediu para os dois segurarem a onda porque quem vinha atrás, especialmente Hamilton, tinha estratégia diferente. O ferrarista fazia tempos de volta muito bons e diminuía a distância para a dupla.
George foi chamado para os boxes na volta 37. Colocou pneus duros para ir até o final. Kimi parou na volta seguinte. Voltou à frente de Norris, mas atrás de George. Hamilton assumira a liderança, mas teria de parar de novo. O que não era necessariamente ruim. Perderia a ponta, sim, mas faria a parte final da prova com pneus novos, podendo atacar os mercêdicos – isso se os dois não se matassem antes.
Na volta 41, porém, sua vida ficou mais fácil. Alonso parou seu calhambeque na curva 9 e a direção de prova acionou o safety-car virtual. Hamilton teve tempo de ir para os boxes no período de neutralização. Deu muita sorte. Matou seu terceiro pit stop de graça. Voltou em primeiro com pneus novos e, assim que saiu dos boxes, a prova foi retomada. A Ferrari, surpresa!, foi muito precisa no chamado. Na volta 43, Hamilton, Russell, Antonelli, Norris, Verstappen e Leclerc eram os seis primeiros. A vantagem de Lewis sobre George era de 2s6. Kimi vinha 1s5 atrás do companheiro.
O rádio da Mercedes tentou dar uma animada em Russell: “Temos 24 voltas pela frente, essa é sua corrida, vai lá, quebra tudo, arrebenta a boca do balão!”, mandou o engenheiro. Em resposta, ouviu: “Hoc non pereo habebo fortior me”. “Hein?”, falou Toto. “Tenho de ser forte como o Pereio”, arriscou o engenheiro. “Quem é o Pereio?”, perguntou Toto. “Um ator, mas depois eu explico”, pediu o rapaz, ocupado com cálculos e dados. Wolff deu um Google. “Eu te amo”, disse. “O quê?”, espantou-se o engenheiro, com um quê de esperança. “O filme. O filme que esse Pereio fez”, explicou Toto. O engenheiro, então, se perguntou o que estava fazendo ali num domingo de sol e calor na Catalunha quando poderia estar numa praia de nudismo tomando um mojito e fumando um baseado. “Preciso repensar a vida”, disse para si mesmo.
Faltando 20 voltas, com um ritmo muito forte e felicíssimo com a possibilidade de vencer pela primeira vez com a Ferrari, Hamilton já abrira 5s para Russell. Na volta 50, a diferença subira para 8s3. George estava derrotado. Para piorar, Antonelli avisou pelo rádio que tinha carro, motor, velocidade e vontade de passar o parceiro. Até porque Norris estava nos seus calcanhares. Segundo, terceiro e quarto colocados estavam separados por 2s. Hamilton sumira na frente, com mais de 10s de vantagem.
Nas últimas dez voltas, Lewis lembrou aquele piloto da Mercedes que dominou a categoria entre 2014 e 2020 – com exceção de 2016, quando perdeu o título para Nico Rosberg. Mais atrás, o drama era mesmo de Russell. Na volta 61, a cinco do final, no fim da reta dos boxes, Kimi atacou e passou na curva 1. George tentou dar o troco na curva seguinte, mas não conseguiu. Antonelli foi embora. Seu mundo caiu.
Mas por pouco tempo. Na volta 62, o carro de Kimi foi ficando lento, lento, lento… E apagou. “Ut sementem feceris, ita metes!”, gritou Russell pelo rádio. “O que foi agora?”, assustou-se Toto. “O cimento é duro pra quem mete a face nele”, traduziu o engenheiro, já mais desenvolto na interpretação do idioma, percebendo que podia dizer qualquer merda que o chefe aceitaria como verdade. “É um ditado popular”, explicou. Estava chutando de novo, claro. Safety-car virtual acionado. No mesmo momento, Leclerc, sexto colocado, ficou sem direção hidráulica e foi para os boxes. Abandonou.
A bandeira verde foi mostrada na volta 65, com Lewis 20s à frente de Russell, segundo de novo. E o ferrarista desfilou toda sua alegria na última volta para vencer de novo na F-1, chegando a incríveis sete triunfos em Barcelona, um recorde histórico. O pódio foi fechado com Norris em terceiro. Verstappen, Piastri, Hadjar, Pierre Gasly, Lawson, Lindblad e Colapinto terminaram nos pontos. O argentino foi o oitavo, mas tomou um pênalti de 10s por não reduzir a velocidade sob bandeira amarela e caiu para décimo. Bortoleto foi o 11º.
“Grazie a tutti, não posso agradecer o bastante! Estou muito orgulhoso, amo minha família, amo vocês! Forza Ferrari!”, vibrou Hamilton pelo rádio. O primeiro piloto a abraçá-lo no Parque Fechado foi Antonelli. Emocionado, Lewis se agachou antes da pesagem e respirou fundo. Recebeu depois os cumprimentos de Norris, Russell e Verstappen. Abraçou longamente Vasseur, que o levou para a equipe italiana. Estava todo mundo feliz pelo veterano heptacampeão. A Ferrari não vencia um GP desde o México em 2024 com Sainz.
E como a Terra não gira, capota, Rosberg, seu antigo inimigo – talvez único na longa carreira –, foi o entrevistador oficial pós-corrida. Dez anos antes, os dois quase se pegaram em Barcelona depois de um acidente que deu a Verstappen sua primeira vitória na F-1. “Ganhar pela Ferrari é especial”, falou Hamilton. “É diferente. Desde criança me imaginava vencendo com esse carro. Tomara que seja a primeira de muitas.”
No pódio, Hamilton vestiu um gorrinho para cobrir os longos cabelos que, em Barcelona, não estavam penteados em cuidadosas e lindas tranças. Vibrou como poucas vezes. Não sabia se chorava ou se sorria. Olhava, com ternura, os mecânicos cantando o hino da Itália. Foi bem bonito. E um pódio totalmente britânico depois de muito tempo. O último fora no GP dos EUA de 1968 com Jackie Stewart, Graham Hill e John Surtees.
O único com o semblante fechado na entrega dos troféus era Russell. Ele sabia que não tinha muito para comemorar. É verdade, a diferença dele para Antonelli na classificação teve queda razoável, de 68 para 50 pontos. Descontou 18, não dá para reclamar. Mas Hamilton, vice-líder desde Mônaco, abriu mais um pouco. Tem 115, contra 106 dele, Russell – Kimi ficou com 156.
O problema, mesmo, e por isso Russell não esboçou nenhum sorriso rasgado, é que seu companheiro iria chegar na frente dele de novo. Só não chegou porque quebrou. O inglês não está sabendo lidar direito com a situação.
E o campeonato é entre eles, apesar da linda vitória de Hamilton em Barcelona.
E ele, o anjinho do pau-oco, está na frente. Bem na frente. E guiando melhor. Bem melhor.
