A IMAGEM DA CORRIDA

SÃO PAULO (rapidinho) – Em 1996, na Bélgica, Michael Schumacher venceu sua segunda corrida pela Ferrari. A entrevista coletiva depois do GP era meio zoada. Hoje tem sofazinho e tudo. Naqueles tempos os três primeiros colocados, antes de falarem com a imprensa, passavam pela “unilateral” imediatamente após a cerimônia do pódio. Era uma salinha com três cadeiras atrás de uma minúscula bancada, uma câmera e um entrevistador anônimo. Ele fazia uma ou duas perguntas básicas para cada um e depois pedia que fizessem breves resumos da corrida em suas línguas nativas. Esse material era gravado e distribuído para as agências internacionais e para emissoras de TV do mundo inteiro. Depois seguiam para a sala de imprensa, onde seriam metralhados pelos jornalistas sob o comando do inglês Bob Costanduros, que abria a entrevista com uma pergunta para cada e depois passava a palavra aos colegas.
(Bob é um querido amigo. Também tinha carros antigos. Por anos, muitos anos, foi o entrevistador oficial da F-1. Educado, polido, não entrava em divididas. Deixava as perguntas incômodas para a gente. Funcionava perfeitamente. Bob era, também, dono de alguns carros antigos. A gente falava bastante sobre eles. Me achava louco sempre que eu contava que tinha comprado alguma jabiraca nova. Não sei por onde anda. Espero que esteja bem.)
Terminada a coletiva, que teoricamente era reservada para o que se chamava de imprensa escrita — jornais e revistas –, ainda havia tempo para ir até a mesa onde ficavam os pilotos e acionar nossos gravadores para pegar umas “sonoras”, como dizíamos. Não havia o cercadinho de hoje, por onde todos passam e são obrigados a dar uma palavrinha para os microfones credenciados. Está fácil, atualmente. Antes era meio no corpo a corpo. Mas, pelo menos, éramos todos jornalistas. Não havia influencers ou produtores de conteúdo.
Volto a Schumacher em Spa, 1996. Acabou a coletiva, ele se sentou numa cadeira na extremidade da sala de imprensa para atender os italianos. Eu estava sempre entre eles. Aí fiz uma pergunta qualquer e quando ele começou a responder tocou o telefone celular da Stefania, a assessora de imprensa que gravava tudo — e se casou alguns anos depois com Maurizio Arrivabene, que chegou a ser chefe da Ferrari; antes, era diretor da Philip Morris. Ela passou o telefone para Schumacher, que pediu desculpas pela interrupção e atendeu. Não deu para saber quem era do outro lado da linha. Sorrindo, disse “obrigado” várias vezes — em inglês — e se despediu com um “ciao”, devolvendo o aparelho para a Stefi. Aí retomou a entrevista. “Do que eu estava falando?”, perguntou. “De como é diferente ganhar um GP de F-1 pela Ferrari”, ajudei — tinha feito alguma pergunta nessa linha. Michael, então, falou: “Em qual outra equipe o presidente da empresa te liga quando você ganha uma corrida? Era o presidente no telefone”, revelou. Luca di Montezemolo, no caso. “Em nenhum outro lugar é assim. Isso aqui é muito especial.”
Michael estava em sua primeira temporada pela Ferrari. Ficaria em Maranello até 2006, 11 campeonatos inteiros. Deixou o time depois de 72 vitórias e cinco títulos mundiais. E, até o fim, repetiria a cada vitória: isso aqui é muito especial.
As lágrimas de Hamilton ontem no pódio de Barcelona dizem a mesma coisa.
Quem não ficou nada contente com o desfecho do GP da Catalunha foi Toto Wolff. O chefe da Mercedes falou que “não dá para quebrar um carro numa corrida e outro carro na seguinte”. “Ou a gente termina as provas com os dois andando, ou não se vai a lugar nenhum. Estamos devendo.”
Toto ainda reclamou da briga interna entre George Russell e Kimi Antonelli. “Perdemos uns quatro ou cinco segundos nessa história. Isso ajudou a Ferrari a fazer funcionar sua estratégia de três paradas. E também erramos na nossa estratégia, dois pit stops foi um erro e eles mostraram isso.”
Isso porque a equipe ganhou seis das sete corridas até aqui… E fez todas as poles.
Mas o dirigente tem razão numa coisa. A falta de confiabilidade de seu equipamento custou, no mínimo, alguns pódios. Russell quebrou quando liderava o GP do Canadá. Kimi pifou ontem quando estava em segundo. Os dois abandonos tiveram origem parecida: problemas elétricos nao especificados.
Antonelli estava 66 pontos à frente de Hamilton na tabela. Agora tem 41 de vantagem. Russell descontou 18 pontos na sua luta inglória para alcançar o coleguinha. Não bastasse o trampo de ter de recuperar o que perdeu nas últimas cinco provas, George agora tem de se preocupar com a Ferrari. “Eles estão chegando”, disse.
Não divido as mesmas preocupações. Acho até que a equipe italiana pode ganhar mais algumas corridas no ano. Mas lutar pelo título não me parece ser algo no horizonte.
E espero estar enganado, porque se isso acontecer este pode ser um campeonato épico — apesar do regulamento esdrúxulo de motores.
O NÚMERO DA CATALUNHA
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…pilotos, apenas, pontuaram em todas as etapas deste Mundial: Hamilton e Pierre Gasly. O francês da Alpine não marcou na prova principal do GP de Miami, mas aquele fim de semana teve Sprint e ele chegou nos pontos na minicorrida. Gasly está em oitavo no campeonato com 41 pontos em sete etapas. No ano passado inteiro fez 22. Em 2024, 42. Tem sido um dos destaques da temporada.
Duas punições foram aplicadas após a prova. Uma teve consequências: 10s para Franco Colapinto, da Alpine, por desrespeitar bandeiras amarelas. Caiu de oitavo para décimo. E Antonelli levou 5s por sair dos limites da pista quatro vezes. Mesmo abandonando, Kimi completou mais de 90% das voltas, e por isso teve uma classificação final — e não um “DNF”, sigla para “did not finish”. Assim, 5s foram acrescidos ao seu tempo total de corrida. Não mudou nada, claro, e ele ficou em 16º, formalmente. Mas poupou o piloto de ter de pagar o pênalti na corrida seguinte, com perda de posições no grid.
E mais dois números importantes envolvendo Hamilton e a Ferrari após a corrida na Espanha: o inglês se tornou o 41º piloto a vencer um GP pela equipe de Maranello e o time chegou a 249 vitórias na F-1.
A FRASE DE BARCELONA
“Obrigado por me fazerem lembrar de quem eu sou.”
Hamilton se dirigindo aos fãs e à Ferrari
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS… da (vá lá) Racing Bulls, que pela segunda corrida seguida colocou seus dois pilotos nos pontos. Liam Lawson foi o oitavo e Arvid Lindblad, o nono. A filial da Red Bull já tem 41 pontos neste ano. A esta altura do campeonato, em 2025, eram apenas dez.
NÃO GOSTAMOS… de ver a Audi mais uma vez andar bem nos treinos livres e sair sem nenhum ponto da corrida. Gabriel Bortoleto largou mal e perdeu cinco posições assim que se apagaram as luzes vermelhas. Culpou o turbo que não encheu. Chegou em 11º. Já com Nico Hülkenberg as coisas foram mais… exóticas. Na 30ª volta da corrida, atrás de Lawson, levou uma chuva de brita numa das últimas curvas do circuito. Uma pedrinha bateu no acionamento externo do extintor de incêndio e desligou seu carro. Ele entrou nos boxes, no embalo, e de lá não saiu mais.