Blog do Flavio Gomes
F-1

ÚLTIMO PINGO

SÃO PAULO (fim) – Foi meu 21º GP do Brasil como jornalista. É bastante coisa. A sensação, quando termina, é de uma certa melancolia. Porque a gente se interna neste autódromo por cinco dias, de sol a sol (de sol a lua, seria mais preciso), e vive com grande intensidade uma corrida que quase sempre […]

SÃO PAULO (fim) – Foi meu 21º GP do Brasil como jornalista. É bastante coisa. A sensação, quando termina, é de uma certa melancolia. Porque a gente se interna neste autódromo por cinco dias, de sol a sol (de sol a lua, seria mais preciso), e vive com grande intensidade uma corrida que quase sempre deixa recordações fortes.

As de hoje ficarão para sempre, porque nunca um título foi decidido dessa forma — e se foi eu não vi, o que dá na mesma. Quem esteve no autódromo, trabalhando ou assistindo, saiu com a certeza de que aqui aconteceu algo histórico para um esporte que desperta paixões e emoções que nem sempre eu consigo descrever ou traduzir.

A última volta da corrida de hoje a gente não vê nem nas histórias de Michel Vaillant — gosto mais dele do que de Speed Racer. É muito pouco verossímil. Mas ela aconteceu de verdade, e só poderia acontecer aqui mesmo, neste lugar que adoro, onde me sinto tão bem, e que é inteiramente meu quando estou dentro de um carro de corrida saindo dos boxes, com uma multidão imaginária olhando para mim das arquibancadas sempre vazias.

Os 4.309 metros do asfalto mais visto do mundo hoje se tornam propriedade absolutamente particular quando ganho a Reta Oposta e começo a passar as marchas, e tudo que Massa, Hamilton, Vettel, Alonso, Glock e todos os outros viveram hoje eu também vivo, dentro de meu mundinho minúsculo, na minha velocidade desprezível, na minha desimportância desconcertante.

Interlagos é um lugar especial, que resiste ao tempo, que traz em cada centímetro de seus barrancos milhões de memórias, muitas delas, talvez, de corridas como a de hoje, mas que se perderam no tempo, que nunca foram registradas por câmera alguma, exceto aquela que cada piloto que correu aqui carrega dentro de seu capacete solitário.

Gosto muito de corridas. É isso que percebo cada vez que termina um GP do Brasil, ou cada vez que termina um GP em qualquer canto do mundo, porque já fui a quase todos os cantos, já saí de quase todos os autódromos muito tarde da noite, tendo apenas o silêncio do asfalto a acompanhar meus passos, para, como dizia Steve McQueen, esperar o próximo, porque a vida nada mais é do que isso, “when you’re racing, it’s life, anything that happens before or after is just waiting.”

Acabou mais um GP. Acabou mais uma corrida, trabalhei feito um doido, minha equipe do Grande Prêmio, mais uma vez, me encheu de orgulho (Victor, Bruno, Evelyn, Marcão, Chico, Terena, vocês são preciosos), escrevi furiosamente, me dediquei a este blog como nunca, e agora vou para casa.

Esperar a próxima, porque tudo que acontece antes ou depois é só isso, esperar.

Boa noite, Interlagos.