SÃO PAULO (para discutir) – Acabo de receber mensagem do Jason Vôngoli, com observações importantes sobre o Tucker resgatado do museu de Caçapava. Volto depois, para a gente refletir sobre o tema.
Olha aí as fotos do Tucker 48 de Caçapava, camarada. O carro ainda não foi lavado. Nas ruínas do museu, o Tucker estava sobre cavaletes — no novo galpão está no chão, com pneus arriados (mau sinal. Alguém com um mínimo de sensibilidade automotiva teria dado uma paradinha com o caminhão prancha no posto e enchido os pneus). Visualmente, o maior problema do carro, chassi # 1035, é a falta do “cyclops eye” (farol central que acompanhava as curvas), a ferrugem e um vidro quebrado. Mas um olhar mais atento percebe que esse carro já foi muito modificado. Nota-se que o painel completo é de Cadillac Série 62, ano 1947 — nada a ver com Tucker. O volante, a barra de direção, o seletor de câmbio automático e o pedal de freio são do mesmo Cadillac — isso indica que a mecânica completa foi trocada em algum lugar do passado! Em uma das fotos do carro na prancha, acho que vi até um feixe de molas na traseira, como o do Cadillac, reforçando essa história da transformação. A suspensão do Tucker era bem diferente. Saiu o motor Franklin seis cilindros boxer montado bem no meio do eixo traseiro, e entrou um V8 dianteiro. A tampa do tanque adaptada no para-lama traseiro é outro indício da adaptação. O motor original está no museu de Bebedouro.
Pois é. Evidentemente, esse carro, que não sei como, nem quando chegou ao Brasil (essa é a grande história, na verdade), foi mutilado ao longo dos anos. Mas ainda assim é um dos 51 Tuckers fabricados em 1948, seu único ano oficial de produção. O que é incrível é que todos eles têm destino conhecido. Quase todos sobreviveram, e o brasileiro é seguramente um dos mais maltratados pelo tempo e pelos homens. O que, a esta altura, importa pouco. A pergunta é: o que fazer com esse carro? Restaurá-lo? De que jeito? Não há peças de Tucker à venda no Mercado Livre. Uma restauração teria de ser necessariamente artesanal. OK, algo possível de fazer, porque o que não falta é referência visual de Tucker, além dos carros originais que estão em mãos de colecionadores.
Mas quanto custaria isso? Uma fortuna que Caçapava (a quem o acervo do museu foi doado) não tem, e nem deve gastar com algo supérfluo, numa cidade que, como todas, tem lá seus problemas para resolver.
Eu acho que uma boa lavagem, higienização e polimento bastariam. A preservação desse Tucker no estado em que está, desde que não se deteriore mais, é um retrato de uma história trágica, mas interessante — a da vida e do museu de Robert Lee. Ele nunca voltará a ser original. Pode-se “levantá-lo”, claro, com repintura, tapeçaria, confecção de instrumentos, cromados, etc. Mas pode-se, igualmente, mantê-lo como uma peça de arqueologia, como uma ânfora egípcia encontrada quebrada em escavações, cujos pedaços jamais serão recuperados.
Mas, ainda assim, uma ânfora egípcia.
