Blog do Flavio Gomes
F-1

AUSTRALOPITACOS (6)

SÃO PAULO (os coadjuvantes) – Antes de descascar a corrida, seus destaques e seus fiascos, algumas figurinhas merecem post à parte depois dessa prova de Melbourne. A começar por Sergio Pérez. Quem vive criticando os pilotos pagantes deveria repensar um pouco suas convicções — que, em geral, servem para sustentar a tese de que os […]

SÃO PAULO (os coadjuvantes) – Antes de descascar a corrida, seus destaques e seus fiascos, algumas figurinhas merecem post à parte depois dessa prova de Melbourne.

A começar por Sergio Pérez. Quem vive criticando os pilotos pagantes deveria repensar um pouco suas convicções — que, em geral, servem para sustentar a tese de que os brasileiros são injustiçados, coitados, tão bons e sem lugar na F-1 porque tem um monte de piloto cheio de grana por aí.

Pérez é um pagante, como Petrov — apoiado por empresas russas, entre elas a gloriosa Lada. O comedor de nachos só está na Sauber porque Carlos Slim, um dos homens mais ricos do mundo, comprou a vaga. Como comprou a Embratel, também. E quem, depois da corrida de hoje, é capaz de contestar o investimento? Pérez tem 21 anos, fez um grande campeonato na GP2, chegou a ser o mais rápido num dia da pré-temporada em Barcelona. Foi o melhor estreante no grid e fez uma corrida exemplar. Brilhante, daqueles cartões de visitas que poucos foram capazes de apresentar em suas primeiras corridas.

Para começar, foi o único a fazer uma só parada. Uma façanha. Que deve ser creditada também à Sauber. Foi a equipe que, aparentemente, mais se preocupou em fazer um carro que gasta pouco pneu. Típico de Peter Sauber, um sovina juramentado que não gosta de gastar nem grafite do lápis. Fico imaginando-o na sala dos engenheiros, quando o carro estava sendo projetado. “Olha aí esse negócio da borracha, hein! Pneu tá caro, não dá pra ficar trocando o tempo todo! Tratem de economizar! Não pode gastar muito não!” Kobayashi fez duas paradas, e talvez isso se deva ao fato de ter largado com pneus usados, já que foi ao Q3 — e os dez primeiros, como se sabe, largam com os pneus usados na classificação.

Vai dar muito trabalho essa equipe em 2011. Trabalho para aqueles do pelotão intermediário, que fique claro. Nada de ganhar corridas, nem de namorar o pódio com frequência. Mas vai andar bem, com consistência. E o menino deu um show de maturidade e talento. Nunca tinha andado nessa pista. Aprendeu rapidinho. Não cometeu um erro sequer. Nadica de nada. Chegou em Massa como se estivesse enfrentando alguém com um velocípede. Só não precisou passar porque o brasileiro resolveu ir para os boxes antes de sofrer uma humilhação inesquecível.

É justo, pois, dizer que o Chapolim é ruim só porque entrou com grana? A grana não é dele, ora bolas. Pilotos só se sustentam com patrocinadores. Raros, raríssimos, são os que colocam a mão no próprio bolso. Mais ainda aqueles que ascendem do nada, sem grandes apoios, “descobertos” por alguém — caso de Hamilton. Quase todos, em algum momento, contaram com dinheiro de outrém. Barrichello, por exemplo, chegou à F-1 via Arisco. Errou, a Arisco? Claro que não. Schumacher só ganhou um cockpit porque a Mercedes bancou os 300 mil doletas que Eddie Jordan pediu pela vaga naquele GP da Bélgica de 1991. Errou, a Mercedes? Claro que não. E por aí vai.

(Ah, mas vejam que injustiça com o Bruno Senna, o Heidfeld é uma porcaria!, dirá algum nacionalista mais exaltado. Heidfeld não é uma porcaria. Foi muito mal o fim de semana todo, mas não tomem o alemão por essa corrida. É estupidez. Ele fez uma baita largada, pulou de 18º para 12º na segunda curva, mas foi abalroado por alguém não identificado. Seu carro ficou todo detonado e não teve como andar decentemente. A Renault mostrou que tem bala para pódio. Nick, assim, vai buscá-los ao longo do ano. E vai encher o rabo de pontos.)

Pérez ofuscou os demais debutantes e podem ter certeza de que olhos crescerão em sua direção a partir de algumas equipes de ponta que andam fartas de certos pilotos. Mas tem mais gente que merece ser citada neste GP australopiteco, para o bem e para o mal. Buemi, por exemplo, que vai a cada dia se firmando como primeiro piloto da Toro Rosso, foi bem e pontuou. Já Schumacher, que como largou no pelotão da merda ficou exposto às cagadas que frequentemente acontecem do meio do grid para trás, foi mal. Péssimo. Barrichello, que fazia uma prova excepcional depois de cair para último na largada, se entusiasmou demais quando foi passar Rosberg. Aí estragou tudo de bom que fizera nas 20 primeiras voltas, chegando até a nona posição. Se o resultado foi um desastre (acabou sendo punido por acertar o piloto da Mercedes no meio e abandonou com problemas de câmbio), o carro deu alguma demonstração de força. Mas que ninguém se iluda demais. A Williams não tem muita grana e sua curva de evolução tende a ser pouco acentuada.

Das grandes, e da cara que deve ter essa F-1 de pneus inconstantes, asas que abrem e fecham, muitas paradas e otras cositas más, falo daqui a pouco. Enquanto isso, levantem-se, coloquem a mão no peito e chorem, infames capitalistas! Reconheçam a superioridade soviética e aplaudam sempre que virem um Niva por aí.