
Pois quando Hermann Tilke foi chamado para desenhar Sochi, perguntou a Putin: o senhor quer uma pista com emoção ou sem emoção?
Não se sabe o que Putin respondeu, talvez Tilke não tenha compreendido, mas no fim das contas saiu “sem emoção”. Não adianta, não consigo gostar dessas pistas artificiais demais, construídas com um único objetivo: mostrar um cenário arquitetônico que muitas vezes é de gosto duvidoso, como Abu Dhabi, ou árido, como era Valência, ou simplesmente sem sal, como Sochi.
Ah, mas é tudo lindo, tem o Mar Negro, as montanhas e as instalações olímpicas. Verdade. É tudo bonito, estalando de novo, ginásios, estádios e lagos, mas falta um negócio que não se compra na esquina: alma.
Enfim, não há muito o que fazer. O fato é que o GP da Rússia de russo não tem nada. Nenhuma característica marcante do país, da região, nada. Apenas mais um monumento à gastança desenfreada. E, o que é pior, fizeram uma pista anódina, que quando for limada do calendário será esquecida sem deixar vestígios — como a espanhola, reduzida a ruínas.
Isso posto, vamos ao grid definido agora há pouco no circuito soviético.
Deu Hamilton, pule de dez, barbada total. O cara foi rápido em todos os treinos, desde ontem, e Rosberguinho não chegou a ameaçá-lo de verdade em nenhum momento. Foi sua sétima pole no ano, 38ª na carreira — é o quarto maior poleman da história, atrás de Schumacher (68), Senna (65) e Vettel (45). O momento é dele. Depois que passou Nico na classificação, parece que Comandante Amilton aprumou a proa e caminha para seu segundo título sem maiores sustos. O inglês se impôs ao companheiro depois do quiproquó de Spa. Ganhou as três corridas seguintes, em Monza, Cingapura e Suzuka, e deixou de lado as picuinhas. Será o campeão.
(Se vocês buscarem os textos das corridas ao longo do ano no blog, eu devo ter escrito “será o campeão” para Rosberg também algumas vezes. Sou muito volúvel.)
Lewis começou a mostrar que não estava para brincadeira já no Q1, virando 1min38s759, 0s317 mais rápido que Nico. A naba foi enorme nos demais: Bottas ficou em terceiro a 0s830, e o resto amargou mais de um segundo de distância. O drama da hora foi de Massa, que perdeu potência no motor e quando faltavam 4min para o fim da prática estava a 8s601 de Lewis, oibviamente em último. Fez duas tentativas, ainda, mas o máximo que conseguiu foi um 18° lugar, 4s305 mais lento que a pole. Aparentemente o defeito foi na bomba de gasolina. Sei como é. O diafragma da bomba do DKW vive ressecando.
Dançaram na primeira degola Ericsson, seguido por Felipe, Kobayashi, Maldonado e Chilton. Sempre é bom lembrar que o grid amanhã terá apenas 21 carros. A Marussia não colocou ninguém no lugar de Jules Bianchi, que segue hospitalizado no Japão. Os organizadores do GP da Rússia pintaram “eletronicamente” no asfalto, na entrada da reta dos boxes: “Jules, we are all supporting you”. Destaque no Q1 foi Kvyat, em sexto, e a dupla da McLaren, com Button em quarto e Magnussen em quinto.
No Q2 ficou claro que em Sochi o tempo de classificação não vem exatamente na primeira volta do pneu. Dá para fazer três ou quatro sem maiores problemas, porque o asfalto é liso e não gasta nada de borracha. É possível que neguinho faça apenas um pit stop amanhã. Certamente o uso dos pneus médios será restrito a algumas poucas voltas, porque é duro demais. Ano que vem a opção da Pirelli deverá ser por macios e supermacios. Hamilton ficou em primeiro de novo, agora com 1min38s338, que viria a ser o melhor tempo do fim de semana. Rosberg ficou a 0s268 em segundo e Bottas, sempre ele, a 0s633 em terceiro.
O Q2 foi cruel com Vettel, que terminou em 11°, seguido de Hülkenberg, Pérez, Gutiérrez, Sutil e Grosjean na turma dos cortados. Sebastian vive um fim de era na Red Bull que tende a ser melancólico. OK, a pista não ajuda em nada os carros rubrotaurinos. Mas a má vontade interna com o alemão é visível. Agora é tudo para Ricciardo. Até a máquina de café dele é melhor. Faz parte. Pelo menos café bom Vettel vai encontrar na Ferrari.
Passaram ao Q3, então, as duplas de Mercedes, McLaren, Ferrari e Toro Rosso, a surpresa do fim de semana, além de um piloto da Williams e outro da Red Bull. E a luta pela pole acabou sendo uma minicorrida de três voltas entre Hamilton e Rosberg, que nem voltaram aos boxes para trocar pneus. Na primeira, deu Rosberg: 1min38s946 contra 1min39s980 do inglês, que cometeu um erro e fez um tempo de merda. Na segunda, 1min38s647 para Lewis, 0s217 mais rápido que o parceiro. E na terceira, 1min38s513 para Hamilton, contra 1min38s713 de Rosberg.
Bottas, na última volta, vinha com parciais melhores que as dos pilotos da Mercedes, mas errou na última curva e ficou em terceiro a 0s407. Button conseguiu sua melhor posição no ano e foi o quarto, seguido por um espetacular Kvyat, Magnussen (que trocou câmbio, perdeu cinco posições e larga em 11°), Ricciardo, Alonso (a 1s196…), Raikkonen e Vergne.
Ninguém fez festa, porque como todos sabem a situação de Bianchi é muito difícil, o acidente aconteceu há menos de uma semana e está todo mundo ainda muito abalado. Até mesmo o russinho Kvyat foi bastante contido, apesar do resultado excepcional.
Não será uma corrida muito empolgante. A dupla mercêdica saltará á frente e desaparecerá. Bottas e Button devem travar bom duelo, com Magnussen e Massa tendo de buscar forças na famosa “corrida de recuperação”. A Ferrari é coadjuvante, assim como a Red Bull. Claro que posso errar miseravelmente o prognóstico e o GP da Rússia ser o melhor de todos os tempos. Mas acho bem pouco provável.
Para fechar, parabéns às Organizações Globo, que relegaram a transmissão da classificação ao terceiro canal do SporTV, que nem HD é. Enquanto isso, nos outros dois, era possível assistir aos VTs de Vasco x Boa Esporte pela Série B, ou Eslováquia x Espanha pelas eliminatórias da Euro-2016. Na Globo aberta, acho que estava passando desenho. Os fãs de Fórmula 1 agradecem, enternecidos, a consideração.