Blog do Flavio Gomes
F-1

CHAPEIRO (3): GOAT?

RIO (questão de gosto) – Não sou muito familiarizado com algumas gírias de redes sociais, talvez seja mesmo um pouco desatento (demorei meses para compreender o que era “lol” e “comofas?”), e agora há pouco fiquei um pouco intrigado ao ver vários tuítes chamando Hamilton de “GOAT”. Que porra é essa?, me perguntei. “Goat” em […]

Hamilton festeja o sexto título: maior de todos?

RIO (questão de gosto) – Não sou muito familiarizado com algumas gírias de redes sociais, talvez seja mesmo um pouco desatento (demorei meses para compreender o que era “lol” e “comofas?”), e agora há pouco fiquei um pouco intrigado ao ver vários tuítes chamando Hamilton de “GOAT”. Que porra é essa?, me perguntei. “Goat” em inglês é “cabra”, “bode”, às vezes pode ser “otário”, “trouxa”, depende do contexto e de onde você estiver quando ouvir a palavra.

Pombas, Hamilton pode ser qualquer coisa, menos um bode otário ou uma cabra trouxa. Além do mais, acabou de ganhar o sexto título mundial, que história é essa de chamar o sujeito de bode?

Foi aí que, correndo pelas postagens de gente de todo o mundo, notei que a expressão é usada meio que globalmente, e GOAT — desse jeito aí, tudo em maiúsculas — não passa de um acrônimo destes tempos em que as pessoas economizam caracteres e esbanjam ignorância.

Usa-se muito GOAT para falar do Messi, do Cristiano Ronaldo e não sei mais quem, por exemplo. “Greatest of all time”, o maior de todos os tempos, é o que significa GOAT quando grafado desta forma. OK, muito obrigado pela informação. Agora podemos começar a falar da corrida que deu o hexa a Hamilton. E discutir se ele é mesmo o GOAT — e não “um goat”, o que nos remeteria novamente à dúvida inicial, por que alguém chamaria um piloto como ele de bode?

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Tenho meus próprios critérios para chamar alguém de GOAT na área que for e, da mesma forma, evito cerrar fileiras definitivas em torno de qualquer nome porque na maioria das vezes — e no esporte mais ainda — tudo é uma questão de gosto. Eu, por exemplo, acho Schumacher o maior de todos na F-1. Não só pelos sete títulos e pelos recordes de vitórias, pódios e não sei mais o quê — são marcas que, de resto, cairão em breve. Considero o conjunto da obra, a coisa de ser campeão num time médio como a Benetton, depois encarar o abacaxi de tirar a Ferrari da fila, passar 15 anos como protagonista e por aí vai. E se alguém me encher o saco uso as estatísticas e pronto, encerro o assunto.

Mas no futebol, por exemplo, esse negócio de números para mim não vale nada. O melhor jogador de todos os tempos foi Enéas e acabou, e quem não concordar que se foda. Assim como a Portuguesa é maior que tudo e a mais bela conquista de um time na história do futebol mundial foi a Série B de 2011. E o maior jogo da história da humanidade foi o empate com o Atlético no Mineirão em 1996 que colocou a gente na final do Brasileiro, e se você não acha, problema seu.

GOAT ou não — de novo, questão de gosto –, Hamilton certamente está no Olimpo de todos os esportes porque o que ele vem fazendo numa modalidade tão difícil e competitiva quanto a F-1 é memorável. (Assim como o que faz Marc Márquez na MotoGP; no fundo, somos privilegiados por sermos contemporâneos desses dois aí.)

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Pena para Bottas que uma das suas maiores vitórias na categoria tenha acontecido justo hoje, no dia em que Hamilton fechou a conta do hexa. O sétimo triunfo da carreira do finlandês, quarto no ano, foi totalmente ofuscado pela proeza do companheiro, que transformou um medíocre quinto lugar no grid numa convincente segunda colocação. Que só não foi uma nova vitória por conta de quatro voltas — Bottas só foi recuperar a ponta de Hamilton na 52ª das 56 do GP dos EUA, em Austin.

Valtteri fez uma linda pole ontem e hoje, mesmo parando duas vezes — contra apenas um pit stop de Lewis — brigou até o fim para buscar o que era dele por direito. Hamilton e a Mercedes arriscaram na estratégia e não se pode dizer que ela deu errado. De quinto no grid para segundo no final não chega a ser um desastre.

O inglês ajudou a fazer as coisas darem certo com uma largada muito boa. Passou Leclerc e Vettel já na primeira volta, posicionou-se em terceiro atrás de Verstappen e foi à luta para ver no que dava. Bottas, também depois de uma boa largada, assumiu a ponta com segurança e um ritmo forte e consistente.

Vettel, que de cara reclamou que seu carro saía de frente loucamente, arrebentou a suspensão na oitava volta e saiu de cena. Na 14ª, Max foi aos boxes para colocar pneus duros, no que foi seguido pelo líder Bottas na volta seguinte. Com as paradas, Lewis assumiu a primeira posição. Quando a Mercedes o chamou para trocar pneus na volta 23, avisou pelo rádio que iria ficar mais um pouco na pista.

Seu companheiro vinha voando com pneus novos e retomou a ponta na volta 24. Então, Lewis parou. Quando voltou, estava 20s atrás do parceiro, de novo em terceiro. Verstappinho parou de novo na volta 35. Bottas, na 36. Hamilton retomou o primeiro lugar e não iria parar mais. A pergunta era: com aquele jogo de pneus duros — os primeiros do grid largaram com médios — sustentaria a ponta até o fim sem mais um pit stop?

Quando saiu dos boxes, Bottas estava 10s atrás do inglês. Faltavam 20 voltas para o fim da corrida, mas seu carro estava mais rápido. A conta-gotas, foi descontando a diferença. Na volta 40, ela tinha caído para 4s8. Na 45ª, para 3s1. Na 50ª, 1s2. Lewis se virava do jeito que dava. Só na volta 51 que a diferença caiu para menos de um segundo, o que daria ao finlandês a possibilidade de abrir a asa e partir para o ataque.

Na primeira tentativa, Hamilton resistiu. Na segunda, não teve jeito. Bottas passou e abriu. Verstappen se aproximou para tentar o segundo lugar, mas não conseguiu. Terminou em terceiro.

Vaga reservada para o campeão: temporada impecável e título merecido

Hamilton estacionou seu carro numa vaga que os organizadores reservaram para o campeão mundial. Fez a festa com a equipe, comemorou com os pais e depois recebeu o abraço de Vettel já na salinha antes do pódio, numa atitude bonita do alemão da Ferrari.

“Still we rise”, dissera um pouco antes ao time pelo rádio, uma adaptação para o momento da inscrição que ele leva no capacete há anos — “Still I rise” é o mais famoso poema da escritora e ativista negra americana Maya Angelou, morta em 2014; é uma espécie de mantra para o piloto, o único negro a vencer na categoria desde sua criação, em 1950.

A corrida que decidiu o título de 2019 não foi das melhores do ano, mas será lembrada com carinho por alguns pilotos que tiveram excelentes atuações, como Albon, o quinto colocado, Ricciardo, que terminou em sexto, Norris, o sétimo, e Pérez, o décimo. Os outros que pontuaram foram mais discretos. Leclerc foi o quarto com a Ferrari, Sainz levou a McLaren ao oitavo lugar e Hülkenberg terminou em nono.

Hamilton: 34 anos e, segundo Toto Wolff, vontade de ganhar intacta

Campeão pela primeira vem em 2008 pela McLaren, na sua segunda temporada na F-1 com a equipe que o adotou quando era um moleque mal saído das fraldas no kart, Hamilton se mudou para a Mercedes em 2013 e conquistou o bi em 2014, primeiro ano da era híbrida da categoria. Foi tri em 2015, perdeu o título para o companheiro Nico Rosberg no ano seguinte e, depois, enfileirou mais três taças com enorme autoridade, sem dar chances aos rivais.

Hoje, Hamilton superou no número de títulos o argentino Juan Manuel Fangio, pentacampeão na década de 50, e encostou no hepta Schumacher. Já é o GOAT na F-1? Precisa superar o alemão para ostentar o epíteto? Ou será que outros como Senna, Lauda, Prost merecem a alcunha por tudo que fizeram em suas carreiras?

Como disse no início, é questão de gosto. Prefiro esperar mais um pouquinho para acrescentar o acrônimo ao nome, torcendo para admirar seu talento ainda por bastante tempo.

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