SÃO PAULO (agora sim, nublado, 22°C) – Vou começar com os números:
- Hamilton, 91 poles na carreira
- Hamilton, 3 poles no ano
- Hamilton, 7 poles no GP da Inglaterra (2007/13/15/16/17/18/20)
- Mercedes, 8 poles consecutivas em Silverstone (desde 2013, pois)
- Hamilton, 100 vezes na primeira fila com a Mercedes
Vou passar para a evolução de cada equipe em Silverstone em relação ao ano passado, com a comparação da melhor volta de cada em classificação. Os números antecedidos por [-] indicam que o time melhorou o tempo. Por [+], que a equipe piorou. (Será que preciso ser didático assim?)
- Williams, -1s057
- Force Point: -0s810
- Mercedes: -0s790
- McLaren: -0s442
- Renault: -0s173
- AlphaTauri: -0s002
- Red Bull: +0s049
- Ferrari: +0s255
- Alfa Romeo: +0s715
- Haas: +0s811
Vou fazer a sugestão para Ferrari, Alfa Romeo e Haas: peguem os carros do ano passado, que devem estar empoeirados em algum galpão, e levem para Silverstone semana que vem. É só limpar com um pano molhado, talvez aplicar uma cerinha, quem sabe trocar um adesivo ou outro de lugar, passar pneu pretinho. Vão ficar ótimos. Feita a sugestão.
Vou falar do sábado, agora.
Vou dizer que a surpresa do dia foi Charlinho em quarto lugar. Aliás, surpresa para ele mesmo, inclusive. OK, ficou 1s124 atrás do tempo da pole de Hamilton. Mas só de não tomar um cacete da Aston Racing e da McLaren já está bom demais. Vettel ficou em 10º, a 2s036 de Lewis. Uma vergonha, mas disso falaremos adiante porque preciso relatar a conversa que tive com Gola Profonda, meu informante em Maranello.
Vou aproveitar para reproduzir as frases mais mentirosas do dia ditas pelos pilotos nas entrevistas com distanciamento social e nos press-releases com distanciamento da realidade após a definição do grid para o GP da Inglaterra.
- Hamilton: “Para bater o Valtteri [Bottas] tem de andar no limite o tempo todo”.
- Vettel: “Não quero acusar ninguém de estar agindo com má intenção comigo”.
- Raikkonen: “O carro está muito melhor neste fim de semana”.
Vou prosseguir este relato quase telegráfico dizendo que Hamilton deu uma dramatizada na sua pole ao dizer que por causa de uma rodada besta no Q2 teve de “respirar fundo e dar uma reviravolta” para conseguir fazer o tempo de 1min24s303 na sua segunda tentativa no Q3, enfiando uma luneta de 0s313 em Sapattos e 1s022 no terceiro colocado, Verstappinho. Exagerado, jogado aos seus pés, eu sou mesmo exagerado, poderia cantarolar. Está tudo absolutamente sob controle. O calorão de ontem foi embora e com temperaturas mais inglesas a Mercedes voltou a trucidar a concorrência.
Vou contar também que a classificação foi absolutamente normal, com os já cativos pilotos da Haas e da Alfa ficando no Q1 ao lado de Latifi, que é uma lástima, coitado. A ordem de 15º para trás foi Magnólia Arrependida, Giovanetti, Kimi Dera Ser um Peixe, Grojã e o já mencionado Lentifi. No Q2 ficaram Olha o Gás-ly, Alrruim, Incrível Hulk, Kvydadura e Jorginho. Aqui, dois destaques: Russell passou ao Q2 de novo com a plangente Williams e larga em 14º (Kvyat se classificou em 14º mas trocou o câmbio e perdeu cinco posições no grid). Ele é bom, mas em corrida tem deixado a desejar. Vamos ver amanhã. E Hülkenberg, chamado às pressas para o lugar do contaminado Pérez, até que não decepcionou. Ficou em 13º e tem a missão de pontuar com o carro rosa da Point Force. Não é fácil voltar a pilotar assim de supetão, dói o pescoço, dói a bunda, doem as costas, tenho certeza que semana que vem o alemão vai andar melhor. E no Q3 aplausos para dois pilotos, além de Leclerc, já louvado acima: Orlando Norris em quinto e Olho no Lance Stroll em sexto. Este último, como os pilotos da Mercedes, larga de pneus médios amanhã. Segundo a Pirelli, a estratégia mais recomendada para a corrida é de uma parada — entre as voltas 18 e 22 para quem largar de macios e entre a 21ª e a 24ª para quem partir de médios.
Vou relatar, para terminar, a conversa que tive há pouco com Gola Profonda, que para quem não sabe é meu informante em Maranello. Àqueles que desejarem conhecer a origem da alcunha, sugiro a leitura deste artigo aqui. Meu informante quis fazer uma homenagem ao mais célebre dos informantes traduzindo “deep throat” para o italiano. Acho o apelido meio ridículo, lembra filme pornô. Mas ele me passa informações valiosas, que procuro sempre dividir com vocês. Como os bastidores da Ferrari andam fervendo, Gola voltou à ativa neste ano. Esclareço que sua colaboração não é remunerada. Apenas tenho de pagar os telefonemas. De vez em quando, também, ele pede para eu comprar umas coisas estranhas na Amazon “à guisa de cortesia”, como ele diz — a última foi um sacarrolha com bluetooth e cabo USB. E quando vem ao Brasil, faz questão de ir a um rodízio de carnes — jamais no Fogo de Chão, que ele considera exposto demais; Gola prefere churrascarias na Marginal Tietê.
Vou reproduzir, então, nosso diálogo que começou, obviamente, com uma pergunta sobre a diferença de humores entre Leclerc, quarto no grid, e Vettel, décimo. “Charlito está feliz, ligou para a mãe, tirou uma selfie, fez um stories, tuitou e depois foi cobrar do Binotto uma recompensa pela segunda fila.” Recompensa? “É, ele sempre pede presente pro Binotto quando consegue ficar atrás só da Mercedes e do Verstappen.” Ah, entendi. E qual foi a recompensa? “Um par de tênis que pisca uma luzinha vermelha na sola quando anda.” Oxe!, reagi, isso não é infantil demais não, Gola? “O que é oxe?”, ele perguntou. Nada, nada, só uma expressão que a gente usa aqui, mas fala desse tênis, acende a luzinha, é? “Sim, é até bonitinho, ele fica andando de lá pra cá dentro do box e quando pisca ele fala: ‘Olha só, recuperando energia!’, é meio infantil, sim, você tem razão, mas ele é assim, você sabe, né? E se não dá o tal do tênis, ele liga para a mãe chorando.” Entendi. Bom, e Vettel? “Conformado. Agradeceu gentilmente a troca do pedal de freio extra por um de acelerador, nem reclamou que inverteram as posições, disse que vai se acostumar a acelerar com o esquerdo e frear com o direito, e pediu apenas para que a equipe faça algumas mudanças para domingo que vem, porque ele quer compartilhar com os amigos mais próximos as experiências que vem tendo neste ano.” E como é isso, compartilhar? “Ele mandou o desenho do carro pra próxima corrida no nosso grupo de WhatsApp com orientações explícitas sobre o que vai querer. Mando pra você?”
Vou encerrar dizendo que a imagem já chegou.
