RIO (agora sim) – Mick Schumacher parece ser um menino tímido. Deveria ter estreado num fim de semana de F-1 na sexta-feira, fazendo o primeiro treino livre pela Alfa Romeo. Não deu, por causa da neblina que cancelou as atividades de pista na abertura dos trabalhos para o GP de Eifel, em Nürburgring. Hoje, depois da corrida, Mick reapareceu. Vestindo uma uma jaqueta da Ferrari, já que é piloto da academia do time italiano. E com um capacete do pai nas mãos.
Era parecido com o que Michael Schumacher usara no GP da China de 2006, quando conquistou a última de suas 91 vitórias na categoria. Pela mesma Ferrari que, hoje, aposta nele para o futuro. Timidamente, o menino de 21 anos se aproximou de Lewis Hamilton, que acabara de igualar a marca ao vencer a prova, e entregou o capacete vermelho (que Michael usou na fase final de sua carreira, na Mercedes) ao inglês. Não sei vocês. Mas eu vi, no gesto, uma espécie de passagem simbólica do cetro. A F-1 tem um novo rei. Ele se chama Lewis Hamilton. E seu reinado não tem data para terminar.
Michael está há quase sete anos escondido pela família depois de sofrer um acidente de esqui na França, em dezembro de 2013. Não se sabe se viu pela TV Hamilton chegar às mesmas 91 vitórias que conseguiu em sua brilhante carreira. Se viu, não se sabe se entendeu o que aconteceu. Se entendeu, não se sabe se sorriu, ou se uma lágrima rolou por seu rosto, ou ainda quais lembranças vieram à sua mente.
Não se sabe nada sobre Schumacher há quase sete anos. Não se sabe como — ou se — ele acompanhou a escalada de Hamilton rumo aos seus recordes, todos eles considerados imbatíveis na medida em que eram estabelecidos graças a um talento incomum e a uma hegemonia da Ferrari que parecia ser difícil de ser repetida.
Bem, todos sabemos que o que a Mercedes vem fazendo desde 2014 não tem paralelos na história, e Hamilton desfruta como ninguém do domínio que seu time impôs à categoria. A vitória de hoje está longe de ter sido uma das mais incríveis de sua incrível trajetória. Mas entra para a história por ter sido a 91ª, uma espécie de número mágico há 14 anos. Assim como a próxima entrará mais ainda, porque aí sim ele se transformará no maior vencedor de todos os tempos, e ficará esperando apenas por mais um título para alcançar o que se julgava inalcançável: ser heptacampeão mundial como Schumacher.
Está muito perto. Lewis ganhou pela sétima vez na temporada e abriu 69 pontos na classificação sobre seu companheiro Valtteri Bottas, que viveu um domingo de enormes frustrações. Na pole, o finlandês conseguiu manter a ponta na largada e parecia perto de jogar água no chope de Hamilton até a 11ª volta, quando cometeu um erro na freada para a curva 1 e perdeu a posição para o companheiro. Logo depois, foi para os boxes trocar os pneus. Mas seu carro começou a perder potência e, depois de ser ultrapassado por Norris e Pérez, Bottas recolheu para os boxes e abandonou — o primeiro abandono da Mercedes no ano.
A corrida ficou, então, muito fácil pra Hamilton. Verstappen, que assumiu a segunda colocação, estava quase 9s atrás na metade da prova, e a atração do GP passou a ser a briga pela terceira vaga no pódio. Os postulantes ainda não tinha levado nenhum troféu no ano: Ricciardo, da Renault, e Pérez, da Force Point. Este, em quinto, ainda teve algum trabalho para superar um combativo Leclerc, que se virava do jeito que dava com uma Ferrari sabidamente horrorosa em 2020.
Na volta 44, quando Norris abandonou, o safety-car foi acionado para retirar a McLaren do inglês, estacionada em local impróprio. Todo mundo aproveitou para ir aos boxes trocar pneus e foi só na volta 50 que a prova foi retomada, com Hamilton relargando bem e Ricciardo e Pérez travando o esperado duelo pelo terceiro lugar, que acabou com o australiano.
A Renault não fazia um pódio desde o terceiro lugar de Nick Heidfeld no GP da Malásia de 2011, em Sepang. Foram longos 188 GPs de espera, e para o piloto quase dois anos e meio de jejum — o último, pela Red Bull, fora em Mônaco em 2018. “Parece que é meu primeiro”, comemorou o sorridente “aussie”, prometendo usar o tempo de voo até sua casa, de noite, para pensar num desenho para ser tatuado no chefe Cyril Abiteboul — aposta é aposta, e o dirigente do time francês, certamente, não vai se opor a nada.
Pérez terminou em quarto e a prova teve outros bons destaques entre os dez primeiros. Sainz Jr., em quinto, não fez nada de muito especial, mas Gasly, em sexto, e Leclerc, em sétimo, mereceram aplausos de suas equipes. Mais palmas ainda foram dedicadas a Hülkenberg, que mesmo largando em último conseguiu terminar em oitavo, levando a Racing India à terceira posição no Mundial com 120 pontos (seriam 135 se não fosse a punição por ter copiado os dutos de freio da Mercedes). A equipe rosa superou a McLaren, que tem 116 na quarta colocação, apenas dois a mais que a Renault. A briga está excelente nesta espécie de “F-1 dos outros” — que exclui Mercedes e Verstappen.
Nono e décimo colocados em Nürburgring também tiveram motivos de sobra para festejar. Grosjean marcou seus primeiros pontos no ano e Giovinazzi fez o seu, também, com um carro que não é exatamente o sonho de consumo de ninguém. Seu companheiro, Kimi Raikkonen, chegou em 12º. E, no dia em que se tornou o piloto com mais largadas na história da F-1 — nada menos do que 323, superando Rubens Barrichello –, o divertido homem de gelo definiu assim o fim de semana em que alcançou o recorde: “Foi uma merda”. O mesmo pode ser dito do domingo de Vettel. Depois de rodar bisonhamente na volta 11, quando atacava Giovinazzi, foi ficando para trás e terminou em 11º.
A corrida na Alemanha acabou não tendo chuva, mas foi disputada num domingo nublado sob um frio glacial de 9°C. Cerca de 25 mil pessoas foram admitidas nas tribunas do autódromo, que desde 2013 não recebia a F-1. Todas aplaudiram Hamilton, que disse que vai demorar para se acostumar com a ideia de ter igualado Schumacher. “É uma honra estar ao lado dele na história, alguém que sempre idolatrei desde criança, jogava videogame usando o nome dele”, falou. Depois, agradeceu e mandou “um beijo para o Michael”.
Lewis tem mesmo de agradecer o alemão. Ele assumiu o segundo cockpit da Mercedes em 2013 substituindo justamente o heptacampeão, que foi resgatado da aposentadoria de três anos por Ross Brawn para correr nas temporadas de 2010, 2011 e 2012. Estes três anos, com Ross e Michael transferindo todo seu conhecimento a uma equipe recém-formada a partir do espólio da Honda, foram essenciais para formatar a Mercedes que vemos hoje.
Sendo assim, pode-se dizer, sem medo de errar, que os recordes de Hamilton têm o dedo de Schumacher. Ele pode não ter feito seu sucessor diretamente quando parou pela primeira vez, em 2006, nem mesmo na segunda saída de cena, ao final de 2012. Michael e Lewis nunca correram juntos na mesma equipe. Quando o inglês estreou, em 2007, o alemão estava acendendo a lareira em casa e assistindo às corridas de pantufas pela TV. Ao voltar, em 2010, começou a desenhar, na Mercedes, o traçado da estrada que Hamilton encontrou muito bem asfaltada quando chegou.
É, olhando as coisas assim, acho que Michael pode bem ter esboçado um sorriso hoje quando viu Hamilton pela TV. Pelo legado que deixou, e por ver seu reinado passar às mãos de alguém tão bom quanto ele.
