RIO (próximo assunto) – Há meses venho dizendo: essa história de Deodoro é mentira. Esse consórcio é uma fantasia. Tem gente errada por trás desse negócio. Não tem dinheiro para autódromo. Não faz sentido uma emissora como a Globo não ter grana para comprar os direitos de TV e o tal consórcio assumir a função. Quem é esse consórcio? Quem são essas pessoas? Quem é JR? Quem está bancando essa ficção?
Bem, nesta semana, em dois dias, o consórcio ruiu e voltamos à realidade. Terça, a F-1 divulgou o calendário de 2021 com um GP no Brasil. Em Interlagos, não em Deodoro. Quarta, a F-1 informou que rompeu o contrato de cessão dos direitos de TV ao Rio Motorsports, firmado há dois meses. Amanhã, a cidade e o estado de São Paulo anunciarão a renovação de seu contrato com a F-1 por cinco anos, com opção de mais cinco. (Em junho do ano passado, lembrem-se, o trio Crivella-Bolsonaro-Witzel, numa cerimônia aqui no Rio, dava “99% de chances” de a corrida de 2020 acontecer em Deodoro. Reforço: 2020.)
Não há autódromo em Deodoro. Não há dinheiro para comprar os direitos de TV.
Não haverá autódromo em Deodoro. Não haverá dinheiro para comprar os direitos de TV.
Mas o tal consórcio Rio Motorsports seguia firme. “Comprou” os direitos da MotoGP para o Brasil — TV e sei lá quantos anos de GP em Deodoro (que não existe). “Cedeu” os direitos de transmissão à Fox Sports, de graça. Não pagou a Dorna, dona da categoria. A Disney, que comprou a Fox, teve de assumir o papagaio quando a Dorna ameaçou tirar as corridas do ar. A mesma Disney, meses antes, recusara uma proposta de compra da Fox por parte do… Rio Motorsports! Sim, o consórcio queria comprar uma emissora inteirinha de TV a cabo. Mas quando a Disney saiu atrás de informações sobre os novos e surpreendentes pretendentes, nada conseguiu apurar. Sobretudo de onde viria o dinheiro.
Há alguns meses, a F-1 — leia-se Liberty — informou que estava cedendo ao consórcio Rio Motorsports os direitos de TV para o país e a promoção e organização do GP do Brasil. Faltavam alguns detalhes, a saber: um autódromo no Rio para fazer a corrida, o dinheiro para pagar os direitos e algum canal de TV disposto a transmitir o campeonato
Bem, os prazos se esgotaram. Não apareceu autódromo. Não apareceu dinheiro. Não apareceu canal de TV. A F-1 rompeu o contrato. O GP continua em São Paulo. E a Liberty foi bater na porta da Globo para pedir desculpas e perguntar se a emissora carioca não se importaria em continuar transmitindo o Mundial. A Globo ficou de pensar no assunto.
Há uma certa família no país que deve estar aborrecida com o desfecho desse episódio estrambólico. Seu patriarca morava na Barra da Tijuca. Hoje, ocupa um palácio em Brasília. Um dos filhos, que recebe salários pagos pelo contribuinte paulista, trabalhava para que o Estado que representa perdesse o evento que é realizado em sua capital desde 1990. Outro deu uma camiseta da seleção brasileira a Lewis Hamilton em divertida viagem para Abu Dhabi no fim do ano passado. O terceiro tuitava sobre o assunto.
Há o que comemorar com o naufrágio dessa gente estranha, assumido hoje com a igualmente estranha explicação de que o consórcio “declinou” dos direitos de TV por causa da segunda onda de Covid na Europa — o comunicado informando a “desistência”, que pode ser lido aqui, é uma peça de ficção risível que parece ter sido escrito em algum universo paralelo. Devemos festejar o salvamento de uma floresta, a de Camboatá, que não será dizimada em nome de um empreendimento imobiliário dos mais suspeitos. Já a derrocada do tal consórcio como negócio ou jogada política, essa comemora quem quiser. A mim, não faz diferença.
Nós, do Grande Prêmio e deste blog, também temos o que comemorar: a vitória do jornalismo. Tratamos deste assunto com a seriedade que ele merece desde as primeiras “notícias” sobre Deodoro. Convivemos, por meses a fio, com publicações em sites e jornais que davam como certa a construção do autódromo. Ao questionar as “informações”, éramos tachados de comunistas, globalistas, petistas, esquerdistas, antipatriotas, defensores de teses estapafúrdias como “a Terra é redonda”, “usem máscaras” e “vamos torcer pela vacina”. “O GP do Brasil do ano que vem será disputado no autódromo que vai ser construído em Deodoro, no Rio…” escreveram vários veículos de imprensa nesse período — alguns vetustos, outros empolgados, atuando como verdadeiras assessorias de imprensa informais de um grupo, para dizer o mínimo, nebuloso. Alinhados com os, hum…, “empreendedores”, não usavam uma frase sequer na condicional, assumindo como fato consumado o que era, evidentemente, uma mentira. Fazendo isso, mentiam descaradamente para seus leitores, seguidores, telespectadores, ouvintes. Com qual intenção, não sei. Provavelmente em nome da glória besta de “furar” a concorrência. Ou talvez por terem algum interesse pessoal no destino da etapa brasileira da F-1 e dos direitos de transmissão por TV. Só sei que muita gente sai queimada dessa zorra toda. Queimadinha.
Geneton Moraes Neto, exemplar jornalista pernambucano que nos deixou em 2016, costumava repetir à exaustão o mandamento de um velho escriba do “The Times”: “Toda vez que estiver entrevistando alguém, anônimo ou famoso, rico ou pobre, o repórter deve sempre fazer a si mesmo, intimamente, a seguinte pergunta: ‘Por que será que estes canalhas estão mentindo para mim?'”.
Nós nunca acreditamos nas mentiras que tentaram nos contar. E, portanto, não mentimos para quem nos lê, assiste e escuta. O que aconteceu nesta semana pode ser resumido em uma frase, no original em latim: quod erat demonstrandum.
Procurem no Google.
