SÃO PAULO (inacreditável) – Durou pouco o sonho da Red Bull de derrotar Hamilton. Em quatro corridas, o inglês ganhou três. Tem 94 pontos, contra 80 de Verstappen. E em Barcelona, onde a gente mais ou menos vê quem é quem, a Mercedes mostrou que os tropeços da pré-temporada foram isso, e apenas isso: tropeços. O time reagiu bem. O carro só melhora. E a equipe tem Hamilton.
Não foi uma corrida excepcional, o GP da Espanha. Mas foi bonito ver como a Mercedes apostou numa estratégia baseada naquilo que acontecia na pista, ainda que com o inglês atrás de Verstappen a maior parte do tempo. Bancou a segunda parada de Lewis quando ele estava prestes a passar o holandês, fazendo um cálculo preciso e observando o desgaste dos pneus do jovem Max. “Uma combinação perfeita”, como definiu Toto Wolff. De planejamento e pilotagem.
Verstappen assumiu a ponta já na largada posicionando bem seu carro por dentro para fazer a primeira curva. Hamilton não se defendeu, evitando maiores problemas — a saber, um toque besta. Os dois mercêdicos, aliás, perderam posições nos primeiros metros da prova. Bottas, em terceiro no grid, também foi ultrapassado — por Leclerc.
Em sete voltas, os dois primeiros abriram 10s do segundo pelotão. Um safety-car para retirar a AlphaTauri quebrada de Tsunoda juntou todo mundo entre as voltas 8 e 10, mas na relargada a dupla Max-Lewis foi embora de novo. A corrida seria entre eles, isso estava bem claro.
Verstappen percebeu que seria muito difícil vencer a prova ao notar que Hamilton não desgrudava dele. Em geral, em Barcelona, ficar muito perto do carro da frente acarreta um desgaste de pneus preocupante. A tendência é o cara de trás começar a perder rendimento. E Lewis não tinha problema nenhum com a borracha. Estava apenas esperando para dar o bote enquanto observava o que o rival iria fazer em termos de estratégia.
Max parou de repente na volta 25, um pit stop atrapalhado porque, segundo a Red Bull, ele entrou nos boxes sem avisar. Os pneus não estavam prontos e a parada acabou levando 4s2. Naquele momento, sua vantagem para Hamilton era inferior a 1s.
“Quando vimos que a Mercedes não reagiu imediatamente chamando Lewis, era porque eles sabiam que tinham uma vantagem de performance”, explicou o chefe Christian Horner. De fato, Hamilton ficou na pista mais quatro voltas e só parou na 29ª. De início, a impressão foi de que a estratégia não era a melhor de todos os tempos, já que ele voltou à pista 5s atrás do holandês. Mas, sem dificuldades, foi se aproximando até reduzir a distância, de novo, para menos de 1s na volta 34.
O ataque, porém, não acontecia. Então, na volta 42, Hamilton parou de novo. “Fiquei na dúvida se devia ficar na pista, mas confiei na equipe”, disse o inglês. Ele sabia que tinha um carro mais rápido, mas acatou o plano inicial traçado pela Mercedes. Desde sexta-feira o time tinha decidido por duas paradas, guardando dois jogos de pneus médios para a corrida para ter um desempenho melhor nas voltas finais. “Quando ele parou de novo, sabia que não teria como ganhar. Se eu parasse logo depois, ele me passava enquanto eu estivesse no box. Se eu ficasse na pista, acabaria me alcançando. Não tinha muito o que fazer”, conformou-se Verstappen. “Eles estavam mais rápidos”, resumiu.
Hamilton voltou 23s2 atrás de Max com 24 voltas para tirar a diferença. Em três voltas com pneus novos, virando tempos quase 2s melhores que o adversário, já tinha tempo suficiente para ganhar a corrida mesmo se a Red Bull chamasse Verstappen para uma segunda troca. Max ficou na pista com seus pneus em frangalhos esperando apenas pelo inevitável. Hamilton iria chegar e passar.
Chegou na volta 60 e passou.
Como dito ontem, seria uma corrida mais de estratégia do que qualquer outra coisa. Duas paradas era o padrão — a variável na mesa era apenas o momento de fazer os pit stops, em função da posição em relação aos adversários mais diretos, do desgaste dos pneus e do tráfego na volta à pista. E quem arriscasse fazer apenas uma, como a Red Bull imaginou para Verstappen, correria riscos porque o desempenho no final despencaria dramaticamente.
Max acabou fazendo um segundo pit stop logo depois de perder a liderança, mas apenas para colocar pneus macios e garantir o ponto extra da melhor volta, o que acabou conseguindo. Hamilton venceu pela 98ª vez na carreira e sexta em Barcelona — cinco consecutivas. Se a Mercedes começou o campeonato sem saber direito se ainda tinha o melhor carro, diante da boa performance da Red Bull em treinos e da dificuldade para derrotá-la nas primeiras corridas, agora não há mais dúvidas. Tem, sim. Talvez não seja tão melhor quando nas últimas temporadas. Mas continua sendo o mais forte do grid.
Bottas fechou o pódio atrás de Hamilton e Verstappen, sem nunca ter lutado de verdade para superar o holandês e brigar por um eventual segundo lugar. Ele perdeu muito tempo atrás de Leclerc no início da prova e saiu rápido da disputa. O monegasco foi o quarto, seguido por Pérez, Ricciardo, Sainz, Norris, Ocon e Gasly na zona de pontos.
Sendo muito honesto, ninguém no segundo escalão se destacou muito no domingo nublado da Catalunha. Ricardão talvez tenha sido um dos mais satisfeitos ao final do GP, porque pelo menos chegou na frente de Norris e conseguiu segurar Sainz na fase derradeira da corrida. Lando fez uma prova discreta e perdeu o terceiro lugar na classificação para Bottas, que foi a 47 pontos, contra 41 do inglês.
Quem decepcionou foi a Alpine, com Ocon em nono e Alonso arriscando uma parada para ficar sem pneus no fim, fazer um segundo pit stop, sair da zona de pontos e zerar correndo em casa. Da Aston Martin, nem falo mais nada. Stroll e Vettel não conseguiram pontuar. Com isso, McLaren e Ferrari se desgarraram de vez na classificação entre as equipes e brigam diretamente pelo terceiro lugar. São 65 pontos para o time laranja e 60 para a escuderia italiana. A Alpine empacou nos 15. A Aston Martin tem ridículos 5.
Hamilton nem comemorou muito a vitória e, ao contrário do que acontecera em Portugal, onde se desgastou muito fisicamente, saiu do carro inteirinho da silva. Falou que, se precisasse, dava para disputar mais um GP hoje mesmo. Mas terá de esperar duas semanas. O próximo será em Mônaco, no dia 23. Pode ser que lá, pelas características do circuito, tenha mais trabalho para derrotar Verstappen. É capaz até de perder a corrida. Se acontecer, não será nada que fuja às previsões da Mercedes. Quando o time olha para o campeonato como um todo, sabe que em algumas pistas terá dificuldades, e Monte Carlo é uma dessas. Mas como até agora as coisas têm saído melhor que a encomenda para a equipe alemã, os outros que se preocupem.
Hoje às 19h tem “Fórmula Gomes” no YouTube para falar do GP da Espanha. Apareçam.
