SÃO PAULO (triste, muito triste) – Foi uma corrida ruim com um resultado bom. Eu diria ótimo, pensando num campeonato de dois pilotos. Um deles correu hoje, em Mônaco. E venceu. E, pela primeira vez na carreira, lidera o Mundial. O outro passeou. De positivo, fez a melhor volta. Mas sua equipe já não aparece mais na ponta da classificação ao final de um GP. Não é algo inédito desde o início da era híbrida da F-1. Mas é raro.
Os dramas de Mônaco hoje aconteceram com pilotos que não são exatamente protagonistas na temporada: Leclerc e Bottas. O primeiro, depois de fazer a pole ontem, não sabia ainda se a Ferrari teria de trocar seu câmbio depois da batida no fim da classificação. A equipe resolveu não mexer em nada para não perder posições no grid. Perdeu todas. Ao levar seu carro para alinhar para a largada, Charlinho quebrou o câmbio. A posição da pole, assim, ficou vaga. Já o segundo, que poderia redimir a Mercedes num fim de semana ruim, está até agora esperando a equipe trocar o pneu dianteiro direito de seu carro. Abandonou.
Desta forma, sem Leclerc para atrapalhar e sem Bottas para ameaçar, foi muito fácil para Max Verstappen vencer nas ruas de Monte Carlo. Com Hamilton em sétimo, numas das provas mais apagadas de sua brilhante trajetória, o holandês da Red Bull saltou para o topo da tabela com 105 pontos, contra 101 do inglês. OK, a Mercedes não esperava muita coisa em Mônaco, uma pista tradicionalmente ruim para seus carros. Mas sair atrás nos dois campeonatos, de pilotos e construtores, foi um pouco além da conta.
A prova começou com Verstappen fazendo o que tinha de fazer: a primeira curva na frente de Bottas, que tinha um corredor à frente com a ausência de Leclerc. Conseguiu, e foi embora. Valtteri até que acompanhou o rival durante um tempo, apostando em algo na parada única para troca de pneus. Mas nem deu tempo de saber se a estratégia do time alemão, de chamá-lo primeiro para os boxes, daria certo.
Enquanto a Mercedes tentava tirar o pneu, Bottas saiu do carro e avisou que iria esperar do lado de fora. “Se precisarem de mim, estou lá em cima vendo TV”, avisou. Um desastre total. As causas para a roda emperrada? Uma porca que não saía nem com reza braba. Verstappen parou quatro voltas depois de Bottas, na 35ª. Na janela dos pit stops aconteceram as alterações mais significativas na procissão monegasca, uma prova aborrecida e sem nenhuma emoção: Vettel ganhou duas posições, subindo para quinto, e Pérez saltou de sétimo para quarto. E acabou.
Para não dizer que não houve nada de interessante, na parte final da prova o mexicano se aproximou de Norris, terceiro colocado, e ensaiou uma briga pelo último degrau do pódio – lá na frente, além da vitória garantida de Verstappen, Sainz também navegava tranquilo em segundo lugar. Mas o ensaio durou apenas algumas voltas. Ele chegou, mas nem tentou passar. Lando sequer precisou se defender.
O pódio de Mônaco foi o terceiro mais jovem da história, média de 23 anos, 11 meses e 18 dias de idade com Max, Carlos e Lando. Só para registrar, o mais jovem de todos foi o do GP do Brasil de 2019 que teve Verstappen em primeiro, Gasly em segundo e Sainz em terceiro: média de 23 anos, 8 meses e 13 dias. Nesse ranking, o segundo mais jovem foi o do GP da Itália de 2008, que teve Vettel, Kovalainen e Kubica: média de 23 anos, 11 meses e 16 dias (apenas dois menos que o de hoje).
Todos estavam sorridentes e felizes com o resultado. Sainz, que ganhou seu primeiro troféu vestindo vermelho, ainda recebeu um abraço de Leclerc na pista – o monegasco expressou sua decepção pelo abandono antes da largada, claro, mas não se derreteu em lágrimas, nem se atirou no Mediterrâneo com uma pedra amarrada nas pernas. Pérez recebeu a bandeirada em quarto, 20s490 depois de seu companheiro de equipe, que venceu pela segunda vez no ano e 12ª na carreira. O quinto foi Vettel, em sua melhor corrida na temporada – com 23% dos votos do amigo internauta, foi eleito o “Piloto do Dia”. Estava feliz da vida.
Gasly, Hamilton, Stroll, Ocon e Giovinazzi fecharam a zona de pontos. Nenhum deles precisou suar o macacão no domingo ensolarado de Monte Carlo. Alguns festejaram o desfecho do GP, como Gasly – à frente de uma Mercedes, ora bolas! – e Giovinazzi – que fez o primeiro ponto da Alfa Romeo no ano. Outros fizeram o feijão com arroz necessário para pontuar, como Stroll e Ocon. E Hamilton amargou uma posição rara e opaca. Foi apenas a décima vez que terminou uma corrida em sétimo. Recebeu a quadriculada agitada pela tenista Serena Williams 1min08s231 depois de Verstappen. Para os padrões mercêdicos aos quais nos acostumamos nos últimos anos, um belo de um vexame, apesar do pontinho extra da volta mais rápida da corrida – obtida graças a um segundo pit stop para colocar pneu macio no fim da prova para minimizar o prejuízo dominical. A primeira parada, no entanto, foi prematura. Pelo rádio Lewis reclamou. Acabou que perdeu posições. “Não podemos tolerar mais um fim de semana como esse”, resumiu.
Depois de cinco etapas, a Red Bull tem 149 pontos, contra 148 da Mercedes. McLaren, com 80, e Ferrari, com 78, se descolaram de vez das demais e farão até o fim seu campeonato particular em busca da terceir colocação. A sorte da Ferrari foi que a equipe inglesa, como ela, pontuou com apenas um carro. Ricciardo terminou apenas em 12º e foi outro que, neste fim de semana, decepcionou com D maiúsculo. Não deu desculpa alguma. Simplesmente foi mal.
Pela primeira vez no ano, os problemas que a Mercedes apresentou na pré-temporada saltaram aos olhos e ficaram expressos em números. Até a última corrida, a “má fase” da equipe era desmentida por uma estatística de simples compreensão: três vitórias em quatro etapas. Agora o placar está em 3 a 2 no duelo com a Red Bull de Verstappen.
Continua sendo difícil e perigoso afirmar com todas as letras que o time alemão desandou em 2021. Ainda tem muita coisa pela frente, 18 corridas, e hoje, como já dito, os caras sabiam que teriam problemas.
Só não imaginavam que seriam tantos.
