SÃO PAULO (fim de papo) – Depois do GP do Azerbaijão eu tinha dito, ou escrito, ou pensado, sei lá, que as três provas seguidas na França e na Áustria iriam nos dizer o que aconteceria neste Mundial. Pois bem. Verstappen ganhou as três — a última delas hoje, com enorme facilidade. Nessas três corridas, o holandês da Red Bull somou 77 pontos. Hamilton, vice-líder do Mundial, fez 49. A Red Bull acumulou 112. A Mercedes, 94.
Acabou.
Isso significa que o campeonato será chato, ainda com 14 etapas pela frente? Claro que não. Primeiro, porque meu prognóstico pode estar errado, é óbvio. Segundo, porque a gente está falando de Mercedes e Hamilton, e não de Minardi e Fisichella.
Tem muita coisa pela frente, argumento irrespondível. Mas tudo indica que reverter o quadro, neste momento, é tarefa hercúlea que, se for cumprida pela Mercedes, representará uma virada das mais épicas da história. A hora é da Red Bull e de Max. Cinco sapatadas seguidas — o time austríaco venceu as últimas cinco provas — abalam qualquer um. E tem 2022 pela frente. A Mercedes promete levar algumas novidades para Silverstone, próxima corrida do campeonato. Talvez seja sua última cartada. Se não der certo, melhor será pensar no ano que vem, com carros muito diferentes — oito pneus, dois lugares e periscópio.
(Piadinha, antes que alguém pergunte se é verdade.)
Sem chuva, com temperatura amena e sol nas montanhas da Estíria, Verstappen ganhou o GP da Áustria com tranquilidade, como se previa. Deu-se ao luxo de fazer duas paradas, inclusive. Por isso a diferença para Bottas, o segundo colocado, foi de “apenas” 18 segundos. Coloquem mais uns 20 aí para ter uma noção mais clara de como foi fácil. Max fez o segundo pit stop apenas para garantir a volta mais rápida e seu ponto extra, que nunca se sabe quando será preciso. E também para evitar riscos de um furo maluco, como em Baku.
Foi a 15ª vitória da carreira do holandês e quinta neste ano. Pela primeira vez ele fez o que se chama de Grand Chelem: pole, vitória, melhor volta e todas elas na primeira colocação. Um domínio absoluto. “Foi delicioso”, resumiu o piloto, diante de uma massa de torcedores pintados de laranja que levaram de volta o público aos autódromos definitivamente: 132 mil pessoas nos três dias de evento. Maravilha. Todos vacinados e testados. O mundo civilizado é bem legal.
Foi também o 50º pódio de Verstappen, o que o coloca em 16º nas estatísticas da F-1 ao lado de Jenson Button. Ele tem agora 182 pontos na classificação, contra 150 de Hamilton. Lewis disse que perdeu um segundo lugar “fácil” por conta de uma quebra no assoalho lá pela 29ª volta, quando passou numa zebra alta na curva 10. Seu carro começou a perder rendimento, quase meio segundo por volta, e ele acabou sendo ultrapassado por Bottas na 52ª e por Norris na 54ª. Fez uma segunda parada para garantir — os pneus estavam acabando — e terminou em quarto.
O inglês ainda não jogou a toalha. “Eles trouxeram coisas novas para essas corridas e a gente, não. Mas vamos ter alguns ‘upgrades’ para Silverstone. Vamos ver o que vai acontecer, porque precisamos de mais performance.” A Mercedes promete investir alguns trocos ainda no carro de 2021. “Vamos voltar fortes na próxima, vocês vão ver. Vamos fazer 1-2 e explodir todo mundo”, prometeu Pebolim Wolff, tentando dar uma animada na equipe. Como disse acima, se der certo na Inglaterra, quem sabe… Mas se não der, tchau, 2021.
Bottas e Norris fecharam o pódio no Red Bull Ring, com histórias ligeiramente diferentes na corrida. O finlandês ficou na dele em quarto desde o início da prova, que teve um breve safety-car por conta do abandono de Ocon, atingido por Giovinazzi na primeira volta. Na quarta, na relargada, Pérez foi para cima de Norris, que lhe deu um chega-pra-lá e acabou sendo punido. Checo caiu para décimo. Achei exagerada a punição. Christian Buziner, chefe da Red Bull, disse o mesmo — ainda que a vítima tenha sido seu piloto.
O pênalti de 5 segundos para Lando foi informado na 20ª volta e na mesma hora ele foi ultrapassado por Hamilton, que assumiu o segundo lugar. Norris pagou a infração no pit stop, na 31ª volta. Bottas parou junto com ele e, assim, ganhou a posição. Hamilton parou na 32ª. Verstappen, que já tinha 10 segundos de vantagem, na seguinte.
O pau comia de verdade lá atrás. Pérez, tentando se recuperar do prejuízo do início, se engalfinhou com Leclerc duas vezes e fez com o ferrarista o mesmo que Norris havia feito com ele. Tomou duas punições de 5 segundos e, no fim da prova, pediu desculpas ao monegasco. “Não me sinto bem em estragar a corrida de ninguém”, falou.
O mexicano acabaria cruzando a linha de chegada em quinto, mas com os 10 segundos de multa caiu para sexto, com diferença no cronômetro de 0s771 para Carlos Sainz. O espanhol fez uma boa prova: largou em décimo com pneus duros, só fez o pit stop na volta 49 e conseguiu pontos importantes para a Ferrari com paciência e determinação.
Hamilton ia se segurando em segundo com o carro todo estropiado quando a Mercedes, na volta 48, avisou Bottas que o parceiro tinha problemas e pediu para que ele não fosse atacado. Precisando do emprego, Valtteri acatou. Mas, na volta 52, acabou sendo liberado para ser feliz. E Norris, que também havia superado o #44 logo depois, ameaçou um ataque à Mercedes #77, que acabou não acontecendo. Ficou em terceiro.
Com tudo mais ou menos resolvido lá na frente, as atenções se voltaram para o duelo entre Russell e Alonso pelo décimo lugar. O inglês da Williams, que largou em oitavo (era nono no grid, mas Vettel foi punido e perdeu três posições), teve um começo de prova complicado, perdeu terreno, mas se recuperou bem.
Quando o espanhol da Alpine chegou nele, na volta 61, foi difícil resistir. Na 68ª, a três do final, Fernandinho passou. E foi muito gentil com o garoto. “Me senti mal quando vi que era com ele a briga pelo ponto da décima posição. Na hora, pensei: puxa, podia ser qualquer um, menos George”, disse. No fim da corrida, deu um carinhoso abraço no piloto, que continua lutando para fazer seu primeiro pontinho pela Williams. Não foi desta vez. “Quando você está brigando por um ponto, o último cara que quer ver atrás é alguém como Alonso”, devolveu a gentileza.
Na última volta, um acidente besta entre Raikkonen e Vettel (“acontece”, disseram ambos) na briga inglória pelo 12º lugar levou a direção de prova a convocar oito pilotos à torre, por terem ignorado bandeiras amarelas. Os dois que motivaram a batida foram chamados também, assim como Pérez. Tinha senha para ser atendido. Até a hora em que escrevo este brilhante relato, ninguém tinha sido punido.
Verstappen, Bottas, Norris, Hamilton, Sainz, Pérez, Ricciardo, Leclerc, Gasly e Alonso ficaram nos pontos. Destes, o único que largou com pneus macios — e por isso teve obrigatoriamente de fazer duas paradas — foi Gasly. As paradas extras de Hamilton e Verstappen não faziam parte das estratégias iniciais de ambos. A história de mudar os pneus em relação aos usados na semana passada acabou não alterando muito a configuração da prova em relação ao que aconteceu no GP da Estíria, na mesma pista.
Depois de Verstappen e Hamilton na classificação, Pérez aparece em terceiro com 104 pontos, seguido de perto por Norris, com 101. Entre as equipes, a Red Bull abriu bem em relação à Mercedes: 286 x 242. A McLaren também se desgarrou da Ferrari na briga pelo terceiro lugar: 141 x 122. AlphaTauri e Aston Martin lutam pelo quinto, 48 x 44 para os italianos. Aliás, foi com o uniforme da AlphaTauri que o japonês Toyoharu Tanabe, da Honda, subiu ao pódio para receber o troféu reservado à equipe vencedora, a matriz Red Bull.
Explica-se: a Honda alcançou sua quinta vitória seguida, melhor sequência desde a série de 11 consecutivas na temporada de 1988, com a McLaren de Senna e Prost. Naquele ano, a equipe só perdeu uma das 16 corridas do Mundial. Foi na 12ª etapa, para a Ferrari em Monza. Depois ganhou as últimas quatro. E poderia ter vencido na Itália, se Senna não sido atingido pelo retardatário Jean-Louis Schlesser, que correu pela Williams no lugar de Nigel Mansell.
Hoje às 19h estarei ao vivo no meu canal do YouTube para falar da corrida no “Fórmula Gomes”. Apareçam lá!
