Blog do Flavio Gomes
F-1

TEA FOR TWO (1)

SÃO PAULO (não é mole, não…) – Vai ser uma ginástica para escolher os termos que teremos de usar a partir de agora nos finais de semana com corridinha de sábado. Mas vamos tentar. Começando pelo que aconteceu agora há pouco em Silverstone. Hamilton fez a pole? Sim e não. Sim porque a corridinha de […]

Hamilton, pole para a corridinha classificatória: Mercedes respira

SÃO PAULO (não é mole, não…) – Vai ser uma ginástica para escolher os termos que teremos de usar a partir de agora nos finais de semana com corridinha de sábado. Mas vamos tentar. Começando pelo que aconteceu agora há pouco em Silverstone. Hamilton fez a pole? Sim e não. Sim porque a corridinha de 100 km terá um grid, larga todo mundo parado, e na posição de honra estará Hamilton. Por definição, quem larga na frente para uma corrida, longa ou curta, é o pole-position. Mas a corridinha não é o GP da Inglaterra. Nem corrida é, oficialmente falando, e sendo assim é pole na Inglaterra, mas não é pole para o GP da Inglaterra. Não entra na conta.

Seria uma… pole provisória? Não, não é bem isso, tampouco. A pole para o GP de verdade será definida pelo resultado da corridinha, que por sua vez está sendo tratada como “classificação” acrescida do termo em inglês “sprint”, o que no vocabulário automobilístico é algo como “tiro curto”.

Sendo assim, o que Hamilton fez hoje? Uma pole que não é pole. Ou, pelo menos, que não é considerada estatisticamente como pole. Está tudo muito confuso, né? Mas nem é tanto, apenas as palavras terão de ser bem empregadas. Porque se ele ganhar a corridinha amanhã, não será uma vitória, mas sim uma… pole-position. Com o adicional de três pontinhos, que seriam bem-vindos neste momento do campeonato.

Mesmo algumas equipes, em suas redes sociais, têm chamado o que teremos amanhã à tarde de “sprint race”. A Liberty e a FIA chamam de “sprint qualifying”. Quando terminar a corridinha amanhã, com bandeira quadriculada e tudo, o que dirão os locutores? “Fulano vence” ou “Fulano faz a pole”?

Bom, que se virem. Não sou narrador. Vou usar os dois. “Fulano vence a corridinha e garante a pole para a corridona”. Pronto. Quem gostar, gostou. Quem não gostar, paciência.

O que interessa mesmo, ao final desta sexta-feira diferente em Silverstone, é que a Mercedes deu sinal de vida. Que Hamilton, apesar de todos os prognósticos em contrário, não jogou a toalha. Se já estivesse conformado com o destino traçado depois das últimas três corridas, a da França e as duas da Áustria, não teria ido na terça-feira trabalhar no simulador da Mercedes da fábrica. Muito menos hoje pela manhã, período reservado ao ócio no circuito inglês porque o primeiro treino do dia começou ás 14h30, horário local.

Verstappen passando pelas arquibancadas cheias: lindo cenário

Lewis passou algumas horas na sede do time, que fica perto do autódromo, quebrando a cabeça com seus engenheiros no equipamento que ele mesmo já chamou de chato mais de uma vez. O piloto não é fã de joguinhos de videogame. OK, um simulador de equipe de F-1 não é exatamente um PlayStation e tem muita utilidade. Time rico contrata até piloto de verdade, que nem senta no carro, para passar horas no simulador e ajudar a descobrir uma coisinha aqui e outra ali para melhorar os carros de verdade. São máquinas muito sofisticadas e realistas. Dizem que ajudam bastante. Por isso, hoje, Hamilton tomou café da manhã e foi cedinho para a fábrica, para aproveitar o tempo livre.

Deu resultado. Mas depois de ver Verstappen liderar o primeiro treino livre com um tempo 0s780 melhor que o seu (ficou em terceiro, 0s001 atrás de Lando Norris), talvez tenha tenha se arrependido, imaginando que melhor teria sido ficar algumas horinhas a mais na cama sobre seus lençóis de 500 fios de algodão egípcio. Onde é que ele iria arrumar quase oito décimos de segundo?

Hamilton acena para a torcida: volta à normalidade no mundo civilizado

Quando chegou à pista pouco antes do almoço, Hamilton e todos os outros se depararam com um cenário lindo. Um dia gostoso, solzinho de verão inglês, e dezenas de milhares de torcedores nas arquibancadas, finalmente. Todo mundo imunizado, pandemia controlada, milico nenhum tentando comprar vacina de atravessador por três vezes o valor oferecido por um instituto local, nenhum presidente cheio de merda fingindo estar doente com padre do lado da cama.

Legal esse país, a Inglaterra. Teve até um piloto, Norris, expressando sua gratidão aos serviços públicos e gratuitos de saúde no capacete. Deve ser bacana viver em lugares civilizados assim, onde autoridades se preocupam com sua população. Dizem até que lá não tem live toda quinta-feira no Facebook com o primeiro-ministro nem com a rainha. Parece que eles também não vão todos os dias regurgitar para um bando de velhos broxas e velhas pelancudas de cabelo pintado num chiqueirinho, onde em resposta mugem e relincham.

Norris e a homenagem ao NHS: saúde pública, população vacinada

Sem um segundo treino livre para chamar de seu, as equipes tiveram de usar bem a única hora de prática para experimentar o que fosse possível visando a corrida e a classificação. Meia hora para andar de pneu médio, que deve ser usado no GP, e meia hora para arregaçar os macios, que seriam usados na classificação e possivelmente estarão calçando todo mundo na corridinha de amanhã para definir o grid de domingo. A atividade foi intensa.

Na classificação, que definiu o grid da corridinha, todos usaram apenas os pneus macios. A escolha do pneu que será usado para largar no GP de verdade é livre. O Q1 viu Verstappen entrar na casa de 1min26s pela primeira vez no dia, enfiando 0s409 no tempo obtido por Hamilton em sua primeira volta rápida. Mas o inglês, no finalzinho, baixou bem e ficou a apenas 0s035 do holandês.

Ali a Red Bull deve ter coçado a cabeça. O que esse cara tá aprontando?

Os últimos instantes do Q1 foram interessantes, com muita gente melhorando bastante em suas voltas — como Pérez, Leclerc, Vettel, Ocon e Russell, este levantando a torcida nas tribunas. Foram eliminados do Q2 Tsunoda, Raikkonen, Latifi, Schumacher e Mazepin. Kimi, cada vez mais apagado, levou de novo uma surra de seu parceiro Giovinazzi no cronômetro. Não anda bem, o campeão mundial de 2007.

Se Hamilton colocou o pescocinho para fora do engradado no Q1, no Q2 arrebentou a gaiola e resolveu cantar mais forte no galinheiro. Primeiro, fez 1min26s602, tempo melhor que o de Verstappen no Q1. Max respondeu com 1min26s504, 0s098 mais rápido, mas tendo de suar o macacão. Lewis, na sequência, foi para uma segunda volta rápida e virou um temporal: 1min26s023, nada menos do que meio segundo mais rápido que o rival — 0s481, para os anais.

A Red Bull soltou seu piloto de novo e, embora sua volta mal tenha sido notada, ele melhorou um pouco. Fez 1min26s315, mas fechou o Q2 0s292 atrás de Hamilton. Opa, tem alguma coisa acontecendo aqui, notaram todos no autódromo. Os oito décimos a favor de Verstappen no treino livre se transformaram em três décimos contra na classificação. Por aí se tem uma noção de quanto a Mercedes evoluiu em algumas horas. Lewis estava de volta. A pole de Max, que parecia tão fácil quanto cortar um tablete de manteiga com faca quente, de repente estava ameaçada.

Russell, oitavo no grid da corridinha: delírio do público

O Q2 limou da contenda Alonso, Gasly, Ocon, Giovinazzi e Stroll. Nas arquibancadas, a torcida inglesa urrava e sorria. Seus três pilotos estavam no Q3, com Hamilton podendo brigar pela primeira posição, Norris no bolo com a McLaren e Russell tendo fechado o Q2 numa espetacular sétima colocação com a carroça da Williams. O clima era totalmente favorável para o heptacampeão mundial.

Lewis virou 1min26s134 em sua primeira saída no Q3, 0s172 mais rápido que Verstappen, que pelo rádio começou a reclamar do carro, que saía muito de frente e estava “esquisito”. Para fazer seu tempo, Hamilton ainda contou com a camaradagem do companheiro Bottas, que puxou a fila oferecendo um vácuo acolhedor para o parceiro. Na segunda volta rápida, Lewis registrou os dois melhores tempos nos dois primeiros setores da pista e errou no finalzinho, ficando com os mesmos 1min26s134. Mas Verstappen, mesmo melhorando um pouco, fechou a volta em 1min26s209, e por 0s075 não conseguiu superar o inglês.

Foi um delírio na torcida, que ainda vibrou muito com o excepcional oitavo lugar de Russell, se classificando à frente da Ferrari de Sainz e do Aston Martin de Vettel. Atrás de Hamilton e Verstappen ficaram Bottas, em terceiro, seguido por Leclerc, Pérez, Norris e Ricciardo, o sétimo.

Hamilton voltou a sorrir: motivo de preocupação para a Red Bull

Os torcedores mereceram de Hamilton as palavras mais carinhosas do fim de tarde e o sorriso mais franco. “Eu estava sentindo muito a falta, essa é deles!”, vibrou. Depois, contou sobre sua saga nos simuladores da Mercedes e rasgou elogios à equipe.

Por enquanto, o resultado não representa grande coisa. É a pole-que-não-é-pole, mas ele larga na frente amanhã às 12h30 (de Brasília) para uma corrida curta de 100 km que pode lhe dar não só a primeira posição no grid para o GP de domingo, como alguns pontos valiosos — tem gente chamando esse “sprint qualifying” de Q4, até…

Mais do que isso, porém, foi um alerta de que é mais prudente ainda não dar a Mercedes como morta e enterrada em 2021. Falaremos disso mais tarde, às 19h, no “Fórmula Gomes” ao vivo no meu canal no YouTube. Agora, vamos esperar ansiosos pela corridinha. Que seja divertida, pelo menos.

O grid da corrida que define o grid: Hamilton na ponta de novo