TEA FOR TWO (1)

Hamilton, pole para a corridinha classificatória: Mercedes respira

SÃO PAULO(não é mole, não…) – Vai ser uma ginástica para escolher os termos que teremos de usar a partir de agora nos finais de semana com corridinha de sábado. Mas vamos tentar. Começando pelo que aconteceu agora há pouco em Silverstone. Hamilton fez a pole? Sim e não. Sim porque a corridinha de 100 km terá um grid, larga todo mundo parado, e na posição de honra estará Hamilton. Por definição, quem larga na frente para uma corrida, longa ou curta, é o pole-position. Mas a corridinha não é o GP da Inglaterra. Nem corrida é, oficialmente falando, e sendo assim é pole na Inglaterra, mas não é pole para o GP da Inglaterra. Não entra na conta.

Seria uma… pole provisória? Não, não é bem isso, tampouco. A pole para o GP de verdade será definida pelo resultado da corridinha, que por sua vez está sendo tratada como “classificação” acrescida do termo em inglês “sprint”, o que no vocabulário automobilístico é algo como “tiro curto”.

Sendo assim, o que Hamilton fez hoje? Uma pole que não é pole. Ou, pelo menos, que não é considerada estatisticamente como pole. Está tudo muito confuso, né? Mas nem é tanto, apenas as palavras terão de ser bem empregadas. Porque se ele ganhar a corridinha amanhã, não será uma vitória, mas sim uma… pole-position. Com o adicional de três pontinhos, que seriam bem-vindos neste momento do campeonato.

Mesmo algumas equipes, em suas redes sociais, têm chamado o que teremos amanhã à tarde de “sprint race”. A Liberty e a FIA chamam de “sprint qualifying”. Quando terminar a corridinha amanhã, com bandeira quadriculada e tudo, o que dirão os locutores? “Fulano vence” ou “Fulano faz a pole”?

Bom, que se virem. Não sou narrador. Vou usar os dois. “Fulano vence a corridinha e garante a pole para a corridona”. Pronto. Quem gostar, gostou. Quem não gostar, paciência.

O que interessa mesmo, ao final desta sexta-feira diferente em Silverstone, é que a Mercedes deu sinal de vida. Que Hamilton, apesar de todos os prognósticos em contrário, não jogou a toalha. Se já estivesse conformado com o destino traçado depois das últimas três corridas, a da França e as duas da Áustria, não teria ido na terça-feira trabalhar no simulador da Mercedes da fábrica. Muito menos hoje pela manhã, período reservado ao ócio no circuito inglês porque o primeiro treino do dia começou ás 14h30, horário local.

Verstappen passando pelas arquibancadas cheias: lindo cenário

Lewis passou algumas horas na sede do time, que fica perto do autódromo, quebrando a cabeça com seus engenheiros no equipamento que ele mesmo já chamou de chato mais de uma vez. O piloto não é fã de joguinhos de videogame. OK, um simulador de equipe de F-1 não é exatamente um PlayStation e tem muita utilidade. Time rico contrata até piloto de verdade, que nem senta no carro, para passar horas no simulador e ajudar a descobrir uma coisinha aqui e outra ali para melhorar os carros de verdade. São máquinas muito sofisticadas e realistas. Dizem que ajudam bastante. Por isso, hoje, Hamilton tomou café da manhã e foi cedinho para a fábrica, para aproveitar o tempo livre.

Deu resultado. Mas depois de ver Verstappen liderar o primeiro treino livre com um tempo 0s780 melhor que o seu (ficou em terceiro, 0s001 atrás de Lando Norris), talvez tenha tenha se arrependido, imaginando que melhor teria sido ficar algumas horinhas a mais na cama sobre seus lençóis de 500 fios de algodão egípcio. Onde é que ele iria arrumar quase oito décimos de segundo?

Hamilton acena para a torcida: volta à normalidade no mundo civilizado

Quando chegou à pista pouco antes do almoço, Hamilton e todos os outros se depararam com um cenário lindo. Um dia gostoso, solzinho de verão inglês, e dezenas de milhares de torcedores nas arquibancadas, finalmente. Todo mundo imunizado, pandemia controlada, milico nenhum tentando comprar vacina de atravessador por três vezes o valor oferecido por um instituto local, nenhum presidente cheio de merda fingindo estar doente com padre do lado da cama.

Legal esse país, a Inglaterra. Teve até um piloto, Norris, expressando sua gratidão aos serviços públicos e gratuitos de saúde no capacete. Deve ser bacana viver em lugares civilizados assim, onde autoridades se preocupam com sua população. Dizem até que lá não tem live toda quinta-feira no Facebook com o primeiro-ministro nem com a rainha. Parece que eles também não vão todos os dias regurgitar para um bando de velhos broxas e velhas pelancudas de cabelo pintado num chiqueirinho, onde em resposta mugem e relincham.

Norris e a homenagem ao NHS: saúde pública, população vacinada

Sem um segundo treino livre para chamar de seu, as equipes tiveram de usar bem a única hora de prática para experimentar o que fosse possível visando a corrida e a classificação. Meia hora para andar de pneu médio, que deve ser usado no GP, e meia hora para arregaçar os macios, que seriam usados na classificação e possivelmente estarão calçando todo mundo na corridinha de amanhã para definir o grid de domingo. A atividade foi intensa.

Na classificação, que definiu o grid da corridinha, todos usaram apenas os pneus macios. A escolha do pneu que será usado para largar no GP de verdade é livre. O Q1 viu Verstappen entrar na casa de 1min26s pela primeira vez no dia, enfiando 0s409 no tempo obtido por Hamilton em sua primeira volta rápida. Mas o inglês, no finalzinho, baixou bem e ficou a apenas 0s035 do holandês.

Ali a Red Bull deve ter coçado a cabeça. O que esse cara tá aprontando?

Os últimos instantes do Q1 foram interessantes, com muita gente melhorando bastante em suas voltas — como Pérez, Leclerc, Vettel, Ocon e Russell, este levantando a torcida nas tribunas. Foram eliminados do Q2 Tsunoda, Raikkonen, Latifi, Schumacher e Mazepin. Kimi, cada vez mais apagado, levou de novo uma surra de seu parceiro Giovinazzi no cronômetro. Não anda bem, o campeão mundial de 2007.

Se Hamilton colocou o pescocinho para fora do engradado no Q1, no Q2 arrebentou a gaiola e resolveu cantar mais forte no galinheiro. Primeiro, fez 1min26s602, tempo melhor que o de Verstappen no Q1. Max respondeu com 1min26s504, 0s098 mais rápido, mas tendo de suar o macacão. Lewis, na sequência, foi para uma segunda volta rápida e virou um temporal: 1min26s023, nada menos do que meio segundo mais rápido que o rival — 0s481, para os anais.

A Red Bull soltou seu piloto de novo e, embora sua volta mal tenha sido notada, ele melhorou um pouco. Fez 1min26s315, mas fechou o Q2 0s292 atrás de Hamilton. Opa, tem alguma coisa acontecendo aqui, notaram todos no autódromo. Os oito décimos a favor de Verstappen no treino livre se transformaram em três décimos contra na classificação. Por aí se tem uma noção de quanto a Mercedes evoluiu em algumas horas. Lewis estava de volta. A pole de Max, que parecia tão fácil quanto cortar um tablete de manteiga com faca quente, de repente estava ameaçada.

Russell, oitavo no grid da corridinha: delírio do público

O Q2 limou da contenda Alonso, Gasly, Ocon, Giovinazzi e Stroll. Nas arquibancadas, a torcida inglesa urrava e sorria. Seus três pilotos estavam no Q3, com Hamilton podendo brigar pela primeira posição, Norris no bolo com a McLaren e Russell tendo fechado o Q2 numa espetacular sétima colocação com a carroça da Williams. O clima era totalmente favorável para o heptacampeão mundial.

Lewis virou 1min26s134 em sua primeira saída no Q3, 0s172 mais rápido que Verstappen, que pelo rádio começou a reclamar do carro, que saía muito de frente e estava “esquisito”. Para fazer seu tempo, Hamilton ainda contou com a camaradagem do companheiro Bottas, que puxou a fila oferecendo um vácuo acolhedor para o parceiro. Na segunda volta rápida, Lewis registrou os dois melhores tempos nos dois primeiros setores da pista e errou no finalzinho, ficando com os mesmos 1min26s134. Mas Verstappen, mesmo melhorando um pouco, fechou a volta em 1min26s209, e por 0s075 não conseguiu superar o inglês.

Foi um delírio na torcida, que ainda vibrou muito com o excepcional oitavo lugar de Russell, se classificando à frente da Ferrari de Sainz e do Aston Martin de Vettel. Atrás de Hamilton e Verstappen ficaram Bottas, em terceiro, seguido por Leclerc, Pérez, Norris e Ricciardo, o sétimo.

Hamilton voltou a sorrir: motivo de preocupação para a Red Bull

Os torcedores mereceram de Hamilton as palavras mais carinhosas do fim de tarde e o sorriso mais franco. “Eu estava sentindo muito a falta, essa é deles!”, vibrou. Depois, contou sobre sua saga nos simuladores da Mercedes e rasgou elogios à equipe.

Por enquanto, o resultado não representa grande coisa. É a pole-que-não-é-pole, mas ele larga na frente amanhã às 12h30 (de Brasília) para uma corrida curta de 100 km que pode lhe dar não só a primeira posição no grid para o GP de domingo, como alguns pontos valiosos — tem gente chamando esse “sprint qualifying” de Q4, até…

Mais do que isso, porém, foi um alerta de que é mais prudente ainda não dar a Mercedes como morta e enterrada em 2021. Falaremos disso mais tarde, às 19h, no “Fórmula Gomes” ao vivo no meu canal no YouTube. Agora, vamos esperar ansiosos pela corridinha. Que seja divertida, pelo menos.

O grid da corrida que define o grid: Hamilton na ponta de novo

Comentários

  • “Todo mundo imunizado, pandemia controlada, milico nenhum tentando comprar vacina de atravessador por três vezes o valor oferecido por um instituto local, nenhum presidente cheio de merda fingindo estar doente com padre do lado da cama.” Humilhou!

    “Dizem até que lá não tem live toda quinta-feira no Facebook com o primeiro-ministro nem com a rainha. Parece que eles também não vão todos os dias regurgitar para um bando de velhos broxas e velhas pelancudas de cabelo pintado num chiqueirinho, onde em resposta mugem e relincham.” Só não foi completo porque esqueceu de um bando de marginais de moto com placas escondidas andando, nos finais de semana, atrás de marmanjo.

    Mas, mesmo com esta “falha”, você foi preciso como sempre!

  • O autódromo lotado evoca – ao mesmo tempo – a alegria esperançosa e a tristeza profunda. Enquanto a civilização avança a barbárie campeia desembestada na terra brasilis. Podíamos já estar noutro estágio sanitário, tendo poupado inúmeras vidas, evitado infinitas dores. Vivas ao SUS (que querem acabar junto com o que resta dos serviços públicos no Brasil)!

  • Pra mim é simples de entender. Hamilton fez hoje a tradicional pole. O GP terá excepcionais 405 km de duração, sendo 100km disputados no sábado e valendo aqueles pontinhos extras e 305 no domingo, distância tradicional de um GP. Ou seja, é um GP de 405km dividido em dois dias.

  • O pessoal da Pirelli vive no mundo da lua, e entendeu que o Hamilton fez a pole para a corrida de domingo.Isso ficou bem claro quando vimos o Hamilton recebendo – e autografando – o troféu do “pneuzinho”, o troféu da pole.

    Suponho que alguém da Liberty vai avisar a Pirelli que nesse sábado é preciso dar o troféu do pneuzinho para quem realmente fizer a pole. Se for o Hamilton, talvez não precise: hoje ele já ganhou esse troféu.

  • “… não dar a Mercedes como morta e enterrada em 2021”
    Pode me xingar, mas quem faz isso são os próprios jornalistas, pra chamar atenção nas manchetes. Mas não vejo essa comoção toda dos reles mortais dizendo que a Mercedes acabou.

  • Prezado Flavinho Gomes, Saudações!!!
    Sempre lembrando que a Alemanha comandada por um austríaco (louco), só perdeu a 2a.guerra por conta desse maluco, mas não podemos esquecer os maiores engenheiros da história.
    Fritz Todt, Von Braun, Ferdinand Porsche, Heinkel (motores rotativos) , Messerschimidt, entre dezenas de engenheiros que fizeram da Alemanhã a maior em tecnologia (judeus)…

    Hoje, a Mercedes teve a vergonha na cara de dar a Lewis Hamilton um carro que proporcionasse a volta do melhor de todos, em sua terra e dar aos que acham que o vexame passou da conta, está reestabelecido.

    Grande abraço…