
SÃO PAULO (inesquecível) – É muito legal quando a F-1 tem um novo vencedor. Aconteceu com Gasly e Pérez no ano passado, e hoje foi a vez de Esteban Ocon, da Alpine, na Hungria. Num GP fantástico, que virou de cabeça para baixo por causa da pista molhada no início graças a uma chuvinha marota que caiu na região do autódromo, e por conta de uma barbeiragem histórica de Valtteri Bottas que vitimou, vejam só, dois carros da Red Bull.
Este é, disparado, o melhor campeonato da era híbrida da F-1, inaugurada em 2014 e desde então dominada pela Mercedes. Que, incrivelmente, vai para as férias de verão de novo na liderança tanto entre os pilotos quanto entre as equipes, num ano em que a Red Bull tem um carro melhor. Não muito, mas melhor.
Tem muita coisa para falar deste GP em Hungaroring. Então, vamos começar do começo. Aliás, antes do começo. Com esta imagem aqui:
Hora do hino da Hungria, Vettel se ajoelha e não tira a camiseta LGBTQIA+. Sainz, Stroll e Bottas também não tiram as suas pedindo o fim do racismo. Os quatro, depois da corrida, foram chamados à direção de prova e levaram reprimendas por “não respeitar os procedimentos pré-largada”. Seb: “Que me desclassifiquem. Queria enviar uma mensagem ao governo, um governo que em vez de proteger as pessoas, as ameaça. Farei de novo. Estou pronto para enfrentar as consequências”.
Pausa para bater palmas. Além de tudo, Vettel chegou em segundo! Mas, cinco horas depois de terminada a corrida, foi desclassificado. Não por causa da camiseta. A Aston Martin não conseguiu tirar um litro de gasolina de seu tanque para as análises de praxe da FIA. É o mínimo exigido pelo regulamento. Apenas 0,3 l. Assim, o alemão perdeu aquele que seria seu segundo pódio pelo time verde. É possível que o equipe soubesse que tinha alguma coisa errada. Assim que recebeu a bandeirada, Sebastian parou o carro no meio da pista, por ordem de seu engenheiro. O consumo deve ter ficado acima do calculado. Um pecado.
Pena para Vettel, que acabou sendo protagonista do final de semana por conta de suas posições assumidas contra o governo do fascista homofóbico Jair Bols… digo, Viktor Orbán. Mas voltemos à corrida.
Protestos feitos, veio a largada. Todos com pneus intermediários, asfalto molhado, possibilidade de confusão na primeira curva. Batata. Bottas largou mal, foi ultrapassado por Norris, errou a freada, travou as rodas, encheu a traseira do inglês da McLaren e, junto, levou na batida Verstappen e Pérez, a dupla da Red Bull.
A prova foi interrompida no final da segunda volta. Hamilton, o pole, tinha largado bem e se livrou da confusão. Pérez e Norris abandonaram. Max ficou com o carro todo arrebentado e caiu para 13º. Um pouco mais atrás, Stroll fez algo parecido com Bottas na freada e tirou Leclerc da corrida. Também abandonou. Cinco carros fora da prova, todo mundo no box aguardando a limpeza da pista. Com Ocon em segundo e Vettel em terceiro. Eles, assim como outros que vinham do fundão, conseguiram evitar os destroços dos acidentados e ganharam muitas posições. Na bandeira vermelha, a ordem era Hamilton, Ocon, Vettel, Sainz (que ganhou 11 posições), Tsunoda (também 11), Latifi (12!), Alonso, Russell, Raikkonen e Schumacher nas dez primeiras colocações. O GP já tinha virado uma deliciosa maluquice.
Enquanto a prova não era reiniciada, os mecânicos da Red Bull remendavam o carro de Verstappen do jeito que dava, gastando rolos de fita adesiva, arame, cola Tenaz e pregadores de roupa. Ele tinha uma lateral completamente destruída e o assoalho quebrado. Bottas, antes mesmo da relargada, já dava entrevistas pedindo desculpas e dizendo mea culpa, mea maxima culpa: “Nao larguei bem, julguei mal a freada, travei as rodas e tirei um monte de gente da corrida”.
Registre-se: por terem causado os acidentes, Bottas e Stroll perderão cinco posições no grid da próxima etapa do Mundial, em Spa. As punições já foram anunciadas pela FIA.
Meia hora depois, os pilotos são orientados a alinhar para uma nova largada, e aí acontece o inusitado. Enquanto se dirigiam ao grid, eles perceberam que a pista estava praticamente seca. Como todos estavam de pneus intermediários, resolveram trocar para slicks antes mesmo de se posicionarem para a segunda partida. Só um não fez isso: Hamilton, o líder da prova. E, então, o que se viu foi, pela primeira vez na história da F-1, um grid de um carro só!
Lewis estacionou na posição da pole, olhou pelos retrovisores e deve ter se perguntado: cadê todo mundo? Será que estou no autódromo errado?
O procedimento de largada aconteceu normalmente, Lewis partiu sozinho com pneus intermediários e todos os outros, com pneus para pista seca, saíram em disparada dos boxes assim que o inglês passou e a luz verde de saída do pitlane foi acesa. Russell apareceu em segundo, mas imediatamente devolveu as posições que ganhara alinhando irregularmente. Ocon, Vettel e Latifi, vejam vocês, vinham atrás do piloto da Mercedes. Que, no fim da volta, foi para os boxes colocar os pneus apropriados e voltou à pista em 14º. Como Mazepin abandonou também, após bater em Raikkonen no box, Hamilton era o último colocado, com Verstappen em 11º. E a corrida mal tinha começado…
Os dois, claro, concentravam as atenções de todos porque, afinal, lutam pelo título. E ambos tinham enormes dificuldades para escalar o grid porque em Budapeste, como se sabe, ultrapassar é tarefa para contorcionistas experimentados. Max, para piorar, estava com o carro todo torto. Levou um ano para passar Schumacher. Lewis, atrás de Giovinazzi, também sofria como um condenado. E, lá na frente, Ocon e Vettel sumiam, com Latifi em terceiro puxando um trenzinho de pilotos desesperados por uma brecha que o canadense da Williams não iria oferecer sem luta.
Cada um com seus problemas, é o que se podia dizer naquele momento. Depois de passar Giovinazzi, Hamilton empacou atrás de Gasly e então a Mercedes deu o pulo do gato para salvar a corrida de seu piloto. Na volta 20, chamou Lewis para os boxes e colocou pneus duros em seu carro. Todo mundo teria de fazer o mesmo, e ele conseguiria escalar algumas posições se enfiasse o pé com a borracha nova. Deu muito certo. Na volta seguinte, Ricciardo e Verstappen também pararam, mas voltaram atrás do britânico. Lewis, assim, partiu para buscar um objetivo difícil, mas que dava para alcançar: um pódio, pelo menos.
Com Max preso atrás de Ricciardo e fora de combate com um carro “impossível de guiar”, como disse, Hamilton foi abrindo caminho e, na medida em que os carros à sua frente iam parando para trocar pneus, subia degrau por degrau. Na volta 24, passou Schumacher. Na 28, deixou Latifi para trás. Na 32ª, já estava em quinto lugar, com Verstappen ainda atrás da McLaren, em 12º.
Vettel, o segundo, parou na volta 37. Ocon, na 38. Foi quando Fernando Alonso assumiu a ponta, deixando a Alpine temporariamente em primeiro e segundo. O espanhol não liderava um GP desde 2014 lá mesmo, na Hungria, com a Ferrari. Fez seu pit stop na volta 40 e voltou em quinto, partindo feito um louco para cima de Hamilton, então quarto colocado.
Lewis não conseguia passar Sainz e a Mercedes o chamou para uma nova troca buscando o sprint final que poderia lhe render um terceiro lugar redentor. Colocou pneus médios em seu carro na volta 48 e ordenou: acelera e vamos ver no que dá. E ele acelerou. Seus tempos eram quase 4s por volta melhores que os do líder Ocon, por exemplo. Não demorou muito e Hamilton já estava no cangote de Alonso. Foi quando começou a mais bela disputa da corrida, na volta 54.
Hamilton x Alonso, Alonso x Hamilton. Os dois que brigaram tanto em 2007 na McLaren se reencontraram na mesma pista onde a guerra entre eles fora declarada 14 anos atrás. Foram cerca de dez voltas de um duelo de altíssimo nível e beleza incomparável. Com pneus mais desgastados e duros, o espanhol se defendia com maestria, permitindo, inclusive, que lá na frente Ocon e Vettel, se distanciassem o bastante para não serem atacados por um Lewis ensandecido na parte decisiva da prova.
Foi só na volta 65, cinco antes do final, que finalmente Hamilton conseguiu passar Alonso. O asturiano retardou a freada na curva 1 e não resistiu. Mas seu trabalho estava feito. Lewis passou Sainz logo depois, na volta 67, e assumiu o terceiro lugar. Só que não havia mais tempo suficiente para buscar Sebastian e Esteban. Estes, por sua vez, seguiam colados, com diferenças nunca superiores a 2s, mas sem que o alemão da Aston Martin atacasse o francês da Alpine, embora com o carro um pouco mais rápido. “Ele não cometeu um erro sequer”, elogiou Vettel.
E, assim, quando Ocon recebeu a quadriculada em primeiro já vendo Hamilton no retrovisor logo atrás de Sebastian, todos puderam respirar aliviados com o final daquele thriller eletrizante em que se transformou o GP húngaro depois da confusão da largada e das idas e vindas nos boxes, com pneus sendo trocados a granel.
Com a desclassificação de Vettel, assim ficaram os dez primeiros: Ocon, Hamilton, Sainz (quarto pódio na carreira, segundo sem que tivesse participado da cerimônia), Alonso, Gasly, Tsunoda, Latifi, Russell, Verstappen e Raikkonen. Gasly fez o ponto extra da melhor volta. E Max salvou um pontinho ao ultrapassar Ricciardo a dez voltas do final, para ganhar mais um após a punição ao alemão da Aston Martin, fechando o GP da Hungria em nono.
Claro que Ocon não se aguentava de alegria. “Nem sei o que dizer. Tivemos momentos difíceis neste ano, e agora isso…”, falou o francês, que fez questão de agradecer a Alonso. “Se não fosse ele segurar Lewis, não sei se eu ganharia.” Vettel, por sua vez, festejou o segundo lugar, mas ficou com a sensação de que poderia ter vencido. “Eu tentei, tentei, tentei… Mas não deu. Poderia ter arriscado algo uma hora em que Esteban deu um pequeno espaço, mas seria uma tentativa meio no estilo de Maldonado, que poderia acabar mal para os dois”, contou. Disse isso tudo, claro, antes de saber da desclassificação.
Hamilton comemorou também, disse que estava exausto, que a equipe “tornou as coisas mais difíceis” ao não chamá-lo para trocar pneus antes da segunda largada, e depois quase desmaiou no pódio. Teve tonturas e mal-estar, e precisou ser atendido pelos médicos assim que recebeu seu troféu. Falou que ainda sente sequelas da Covid-19, que contraiu no ano passado. “Tem sido difícil me manter 100% saudável depois do que passei.”
Teve muito abraço e choro depois da corrida. As lágrimas, tocantes, de Russell — que, finalmente, fez seus primeiros pontos pela Williams depois de três anos no time. George chegou atrás de Latifi, ironia do destino, mas teve um gesto de grandeza na corrida. Em determinado momento, pediu ao time para priorizar Nicholas na estratégia de paradas, já que o canadense estava mais bem posicionado na prova.
Alonso, que esperou Ocon chegar no Parque Fechado para levantá-lo pela cintura, contou que sabia exatamente o que fazia enquanto segurava Hamilton. “Cada volta que ele ficasse atrás de mim era ouro para a nossa vitória”, disse. “Estou muito, muito feliz por Esteban!” “Alonso ganhou a corrida para ele”, concordou Toto Wolff. O chefe da Mercedes falou também que a decisão de não trocar os pneus de Hamilton foi dele, e que se responsabilizava 100% por ela. “Nossa garagem era a primeira dos boxes. Se a gente parasse com todo mundo entrando junto atrás, não conseguiríamos sair na liderança”, justificou. Depois, relatou que foi pedir desculpas a Christian Horner, da Red Bull, pela trapalhada de Bottas. O dirigente rubro-taurino não aceitou e saiu emburrado do autódromo. “São duas corridas em que nossos carros são tirados da disputa, e nas duas vezes por carros da Mercedes”, queixou-se.
O resultado do GP da Hungria, 11º da temporada, reconduziu Hamilton à liderança do campeonato, agora com 195 pontos. Verstappen foi a 187. Os números já estão atualizados após a eliminação de Vettel. Norris (113), Bottas (108) e Pérez (104) ficaram onde estavam. Foi a primeira vez no ano em que Lando não pontuou. No Mundial de Construtores, a Mercedes também voltou à ponta com 303 pontos, 12 à frente da Red Bull.
Foi a primeira vitória da Alpine na F-1, marca escolhida pela Renault para assumir os trabalhos na categoria. A montadora francesa tinha vencido pela última vez em 2008, no Japão, com Alonso. Ocon se tornou o 111º piloto a ganhar uma corrida na história.
Silverstone e Hungaroring promoveram uma reviravolta inesperada no campeonato. A F-1, agora, tira algumas semanas de férias e volta na Bélgica no final do mês. Logo depois, Holanda. São duas corridas onde Hamilton terá uma torcida francamente hostil, como se viu hoje com as vaias e os insultos que o inglês recebeu do público tingido de laranja em Budapeste.
Claro que torcida não ganha corrida, mas colabora para criar um climão que já vem sendo alimentado também pela Red Bull com suas queixas sobre o comportamento de Hamilton nas corridas e reforçado pelo acidente de hoje envolvendo o outro piloto da Mercedes.
Está divertido e emocionante. Então, apareçam às 19h no meu canal no YouTube para conversarmos ao vivo sobre tudo isso!