ITACARÉ (que campeonato…) – Empatou. Hamilton venceu o GP da Arábia Saudita, fez a melhor volta, e Verstappen chegou em segundo. O placar aponta 369,5 x 369,5. Empate de verdade, não é força de expressão. Ficou tudo para Abu Dhabi, domingo que vem. Quem chegar na frente leva — exceto em uma situação: Hamilton nono, Verstappen décimo com melhor volta. Se nenhum dos dois aparecer para correr — digamos que sejam abduzidos –, Max é campeão porque, em vitórias, está 9 x 8 para o holandês. Isso é importante, e tocaremos no assunto adiante.
A menção fria e desapaixonada do resultado da corrida, Hamilton em primeiro e Verstappen em segundo, sugere que foi tudo normal e corriqueiro na agradável noite saudita, às margens do Mar Vermelho. Afinal, tal resultado já tinha acontecido outras seis vezes nesta temporada, nas mesmíssimas posições.
Ledo e ivo engano. A história da primeira prova de F-1 em Jeddah é longa, cheia de toques, atritos, penalidades, discussões radiofônicas. Além disso tudo, três largadas e os dois protagonistas da temporada se batendo loucamente. Um final de campeonato à altura de ambos.
Preparem-se, pois, porque aconteceu muita coisa.
A começar pelas homenagens feitas a Frank Williams antes da corrida, inclusive com Damon Hill pilotando o carro campeão de 1980 com Alan Jones. Era para Emerson Fittipaldi estar ao volante, mas o bicampeão foi para o hospital acompanhar seu neto Enzo, que sofreu um acidente na largada da Fórmula 2 e quebrou o tornozelo.
E vamos ao GP.
A largada foi muito limpa e Bottas, segundo no grid, fez o que dele se esperava: ficou à frente de Verstappen, dando chance ao pole Hamilton de abrir um pouco para ditar o ritmo da noite nas arábias. As cinco primeiras posições na primeira volta foram as mesmas do grid: Hamilton, Bottas, Verstappen, Leclerc e Pérez.
Era importante para os dois pilotos da Mercedes manterem diferenças superiores a 1s entre eles e, principalmente, de Valtteri para Max. Hamilton não podia abrir a asa móvel porque não tinha ninguém à frente, e por isso não seria legal ter o #77 atrás dele fazendo uso do equipamento para se defender do holandês, caso ele estivesse menos de 1s atrás.
Já na sétima volta a equipe passou a administrar o ritmo dos dois pelo rádio. “Quer mais um pouquinho de velocidade, caro Valtteri?”, perguntou o engenheiro. “Se for possível, querido, gostaria sim”, respondeu. “Vamos falar com seu colega Lewis, então.” Tudo muito calmo e tranquilo. Hamilton deu uma aceleradinha, fez uma sequência de voltas rápidas e abriu 2s7 em cima de Bottas na volta 10.
Mas aí Mick Schumacher bateu e o safety-car foi para a pista. Começava a mudar tudo em Jeddah.
Diante da perspectiva de demora para arrumar o muro de espuma e retirar a Haas da pista, alguns pilotos foram para os boxes trocar pneus. Hamilton e Bottas pararam. Max ficou na pista e assumiu a liderança. Mas não foi sem polêmica. Como o finlandês ia parar junto com Hamilton, tirou o pé do acelerador deliberadamente para não perder tempo estacionado atrás do companheiro nos boxes e a posição, caso Max parasse junto. Verstappen reclamou pelo rádio. Mal sabia que ali as coisas iriam virar para ele na corrida.
Isso porque na volta 13 a direção de prova resolveu suspender a corrida com bandeira vermelha. Era o melhor cenário do mundo para Max, que poderia trocar os pneus como todos os outros e, de quebra, partiria da primeira posição na relargada. Ao não chamar seu piloto para os boxes, a Red Bull apostou que uma interrupção poderia acontecer. Uma aposta arriscada, mas que deu certo. Muito certo. Max ganhou de presente a pole para uma nova corrida de 35 voltas, sem troca obrigatória de pneus. A tarefa de ultrapassar alguém pela liderança passou a ser de Hamilton.
(O outro carro da Red Bull, porém, perdeu posições. Pérez foi chamado para os boxes e caiu para oitavo. A convicção do time de que a prova seria interrompida não era tão grande assim, afinal. Na dúvida, pararam o mexicano. Azar dele. Os olhos estavam todos em Max.)
A paralisação acabou não sendo muito longa, menos de meia hora para o grid ser formado de novo. Quase todos com pneus duros, que aguentariam tranquilamente até o final da corrida. Ricciardo, Pérez, Sainz, Vettel e Latifi optaram pelos médios.
O caminho dos boxes para a formação do novo grid foi uma guerra psicológica, com Hamilton dando muito espaço para Verstappen chegar à sua posição e ficar lá esperando, com seus pneus esfriando. Max ficou pistola. E a segunda largada foi punk. Punk mesmo. Lewis largou melhor, pulou na frente, Mas Max não deu moleza. Cortou caminho pela chicane, se colocou à frente, Lewis recuou, perdeu a posição para Ocon, e lá atrás, pimba! Pérez rodou, tocado por Leclerc, e bateu. Mazepin, na sequência, encheu a traseira de Russell, que também abandonou. A volta nem tinha chegado à metade e a bandeira vermelha foi acionada mais uma vez. Parou tudo de novo.
Enquanto os carros batidos eram retirados e a pista submetida a uma faxina geral, ninguém sabia direito o que fazer com o grid. Michael Masi, o diretor de prova, desandou a negociar com Red Bull e Mercedes. Como Verstappen passou Hamilton por fora da pista, Masi decidiu que ele teria de devolver a posição ao inglês e “ofereceu” um terceiro lugar no grid para ele. Ocon, que não tinha nada com isso, ficaria com a pole da terceira largada, seguido por Lewis em segundo, à frente de Max. Ricciardo largaria em quarto, com Bottas em quinto. Aparentemente, todos concordaram.
A Red Bull ousou mais uma vez. Colocou pneus médios no carro do holandês para a terceira largada, enquanto a Mercedes manteve os duros no de Hamilton. A prova foi reiniciada na volta 17 das 50 previstas, 19 minutos depois da segunda interrupção. E Max largou espetacularmente com seus pneus mais aderentes, pulando para a ponta. Ocon chegou a ficar em primeiro, mas passou por fora da chicane. Imediatamente entregou a primeira posição ao holandês da Red Bull e tentou se defender de Hamilton. Na abertura da volta 18, Lewis passou o francês da Alpine sem muita dificuldade e saiu à caça do #33. Não podia, de jeito nenhum, deixar Verstappen escapar.
Os dois desapareceram dos demais. Se deixassem apenas Verstappen e Hamilton na pista, já estaria bom. Os outros 14 carros eram apenas coadjuvantes assistindo, de camarote, a uma disputa alucinante entre as estrelas do Mundial.
Na volta 23, Tsunoda tocou em Vettel e bateu. Deixou um pedaço de sua asa dianteira numa pequena área de escape, mas só o safety-car virtual foi acionado, com a prova sendo retomada logo depois.
Na metade da corrida, com Max em primeiro e Hamilton em segundo, o placar parcial do campeonato dava 14 pontos de vantagem para o piloto da Red Bull. Lewis tentava reduzir a distância para o rival para menos de 1s, para usar a asa móvel em um dos três trechos de Jeddah em que isso é permitido. Mas Verstappen não deixava. Bem atrás deles, Ocon, Ricciardo, Bottas, Gasly, Giovinazzi, Sainz, Leclerc e Stroll preenchiam a zona de pontos.
Com muitos pedaços de carro espalhados pela pista, o safety-car virtual foi acionado mais duas vezes. A segunda, muito demorada. Pelo rádio, Fernando Alonso pedia para que o asfalto fosse devidamente limpo, diante do enorme risco de um pneu furar e causar algum acidente sério a mais de 300 km/h. Essas aliviadas na velocidade sob intervenção virtual eram ótimas para Verstappen, que tinha um pneu, em tese, que se desgastaria mais rapidamente que os de Hamilton.
A prova não ganhava ritmo. Na volta 36, mais um safety-car virtual foi acionado, para remover outro pedaço de carro no meio do asfalto. A ação desta vez foi rápida, e Hamilton partiu para o ataque. Pela primeira vez na corrida, abriu a asa móvel. Na abertura da volta 37, colocou de lado e passou. Max jogou duro. Os dois foram para fora da pista, mas Lewis voltou ao traçado e contornou a segunda perna da chicane. De novo atrás do rival. “Esse cara é louco!”, reclamou.
A Red Bull percebeu que seu piloto tinha ganhado a posição graças a uma manobra ilegal, cortando a chicane, e quando ele chegava à curva 21 pediu que entregasse a ponta a Hamilton. “Estrategicamente”, segundo apuraram os comissários horas depois da prova.
A estratégia em questão era deixar Hamilton passar antes da faixa de ativação da asa móvel, de forma que Verstappen pudesse embutir de novo atrás do inglês para tentar recuperar a ponta abrindo a sua asa. Max tirou o pé na aproximação da curva 26, deu o lado esquerdo para Lewis, mas o inglês estranhamente bateu na sua traseira. Uma maluquice completa. “Minha asa quebrou!”, gritou. A equipe avisou que estava tudo bem. “Isso é direção perigosa, cara!” Os comissários entenderam assim, depois de ouvir os dois na torre, após a cerimônia de pódio. Concluíram que o rubro-taurino brecou de repente e “de forma significativa”. Concluíram também que Lewis poderia ter passado, mas que era compreensível o desejo de ambos de não cruzar a linha do DRS antes que o adversário. O que determinou uma nova punição, de 10s acrescidos ao tempo de Verstappen, foi a freada repentina. O pênalti não alterou sua posição final, o segundo lugar.
Mas isso tudo só soubemos bem depois de terminada a corrida. Na hora, ali, com a asa estropiada, Lewis seguiu em frente, diante da perplexidade geral do mundo árabe e de Alá. Max acelerou de novo, ainda em primeiro, e na volta 40 abriu 2s2 de vantagem para o Mercedão #44.
Não era tanto tempo assim. A Mercedes, pelo rádio, reclamou com Masi que não sabia que Verstappen teria de entregar a posição a Hamilton. O diretor retrucou: “Nós avisamos!”. “Mas a gente não sabia!”. Hamilton, de fato, contou depois que foi tudo muito confuso e que não entendeu por que Verstappen tirou o pé e brecou de repente.
Na volta 42, mesmo com o carro meio capenga, Lewis emparelhou e passou. Max deu o troco. Na mesma hora, a mensagem surgiu na tela: pênalti de 5s para o holandês porque “cortou a pista e levou vantagem”. No fim das contas, a posição não fora devolvida, e por isso ele estava sendo punido. Hamilton poderia ficar onde estava, bastaria não deixar Verstappen mais de 5s à frente que venceria a prova. Mas na 43ª volta, para não deixar dúvidas, Lewis passou de vez para ganhar um GP pela oitava vez no ano, 103ª na carreira. Tinha também o ponto extra da melhor volta.
E assim o campeonato ficou empatado.
Hamilton abriu uma boa diferença para Max, que a quatro voltas do final avisou pelo rádio que seus pneus tinham acabado de vez. Mesmo com as duas punições — 5s por não devolver a posição, mais 10s pela freada esquisita que causou a colisão com Hamilton –, Max estava longe o bastante do terceiro colocado para não perder a segunda posição.
E aí a corrida acabou. O Mundial, porém, só daqui a uma semana. Com aquele detalhe: se nenhum dos dois aparecer para disputar o último GP da temporada, Max leva o título porque tem uma vitória a mais. Uma batida entre os dois é vantajosa para o rubro-taurino. A julgar pelos choques entre ambos nesta temporada, ninguém deve descartar um final assim. Tomara que não. Mas é prudente lembrar o que já aconteceu até agora, especialmente nos GPs da Inglaterra, Itália, Brasil e hoje. Quando os dois se encontraram, saiu faísca.
Bottas foi o terceiro colocado, passando Ocon na linha de chegada para ficar com a última posição do pódio em seu centésimo GP pela Mercedes. O francês da Alpine terminou em quarto 0s102 atrás, praguejando contra o destino. Depois dele vieram Ricciardo, Gasly, Leclerc, Sainz, Giovinazzi e Norris na zona de pontos.
“Foi a corrida mais louca que já vi”, disse o engenheiro Bono ao seu piloto quando ele voltava aos boxes. A festa da Mercedes foi uma das maiores dos últimos tempos. A virada que parecia impossível agora está ao alcance das mãos. Verstappen, pelo rádio, aparentava tranquilidade apesar de todos os percalços. “Fiz o possível”, falou. “É o que é.” O time respondeu que estava tudo OK. “Vamos para a próxima.”
Depois da corrida, acusações partiram dos dois lados da trincheira. Hamilton disse que “não entendeu” por que Verstappen brecou tão forte no momento em que se tocaram. Max respondeu que apenas obedeceu a ordem de entregar a posição e demonstrou algum fastio para discutir o assunto. “Não concordo com a maioria das decisões sobre minhas punições. A F-1 de hoje é mais sobre pênaltis do que sobre corrida. Mas não quero perder meu tempo falando disso”, resmungou. Christian Horner acusou Lewis de não passar Max de propósito para não ser presa fácil na reta seguinte, com o holandês armado da asa móvel. Helmut Marko saiu berrando que não iria aceitar aquele resultado.
Foi um GP de mil e uma noites, e a última delas ainda não terminou, como se vê. Vai se arrastar por toda a semana, com intenso bate-boca de dirigentes e manifestações eloquentes de analistas e torcedores. Fogo no parquinho, como diria Tiago Leifert — que está fazendo falta na TV, com o perdão do comentário aleatório.
Empate nos pontos, uma corrida para o final, dois pilotos excepcionais de gerações distintas correndo por duas equipes diferentes, tensão que se sente no ar. Se no começo do ano alguém escrevesse um roteiro como esse para rodar um filme sobre um Campeonato Mundial de F-1, eu pediria para o autor não exagerar tanto. Essas coisas não acontecem assim, diria. Afinal, a única vez em que dois pilotos chegaram empatados nos pontos à última corrida do ano foi em 1974, com Emerson Fittipaldi, da McLaren, e Clay Regazzoni, da Ferrari — deu Emerson. É pouco verossímil, seria meu argumento.
Mas está sendo exatamente desse jeito. Não é o máximo?
