Blog do Flavio Gomes
F-1

EM DILMUM (3)

SÃO PAULO (o mundo dá voltas…) – A Ferrari começou a temporada 2022 com dobradinha. A Red Bull, com dois abandonos. Hamilton, com um pódio. Zhou, com um pontinho na estreia. Magnussen, com um quinto lugar. Foi interessante a primeira corrida da Fórmula 1 da nova era, como diria com muita propriedade Galvão Bueno. No […]

Leclerc recebe o abraço de Sainz: dobradinha que não vinha desde 2019 em Singapura

SÃO PAULO (o mundo dá voltas…) – A Ferrari começou a temporada 2022 com dobradinha. A Red Bull, com dois abandonos. Hamilton, com um pódio. Zhou, com um pontinho na estreia. Magnussen, com um quinto lugar. Foi interessante a primeira corrida da Fórmula 1 da nova era, como diria com muita propriedade Galvão Bueno. No Bahrein, o time italiano confirmou a força que mostrou na pré-temporada. Charles Leclerc venceu, com Carlos Sainz em segundo. O campeão Max Verstappen, que perseguiu Leclerc a corrida toda, teve um monte de problemas, que serão descritos adiante, e abandonou a três voltas do final quando estava em segundo. Sergio Pérez, seu companheiro, rodou na última volta — por motivo que igualmente será esclarecido mais para a frente neste texto, forçando o leitor a ir até o final — e deixou o pódio de presente para Lewis. Um terceiro lugar inesperado para um piloto que foi combativo e perseverante, mas que tem um carro claramente pouco competitivo.

Para a Mercedes, foi um alívio. George Russell ficou em quarto e o time fez 27 pontos. Sua principal rival deixou o deserto de Sakhir zerada. Na linha “vamos limitar os danos”, o time alemão saiu no lucro absoluto. Em compensação, tem de admitir que surgiu uma adversária que pode ser difícil de bater neste ano, a Ferrari. Ao menos nas primeiras provas da temporada. “Espero que a gente consiga chegar neles rápido. Não vai ser fácil, mas sabemos que temos como conseguir isso. E é com muito trabalho”, disse Hamilton.

Mas deixemos a falação dos personagens para o fim nas nossas janelas policromáticas que tanto sucesso fazem na internet planetária. Antes, o relato da corrida para entender tudo que a turma disse depois.

Leclerc seguido por Verstappen: início de prova tranquilo para o monegasco

A prova começou com Bottas, sexto no grid, largando muito mal e caindo para 14º. Hamilton foi bem, pulando de quinto para quarto. Leclerc se sustentou com segurança em primeiro, seguido por Max e Sainz. Magnussen, sensação do fim de semana com a renovada Haas, partiu para cima de Lewis depois de passar Pérez, que caiu para sexto.

Norris e Ricciardo, da McLaren, foram os únicos que largaram de pneus médios no Bahrein. Iriam se arrastar por toda a prova, um vexame completo. Os demais, com pneus macios. No comecinho, um registro apenas para os anais: Ocon tocou em Schumacher, que deu um 360° e seguiu em frente. O francês foi apenado com 5s a cumprir no pit stop, considerado responsável pelo incidente. Foi a primeira punição da nova direção de prova da F-1 depois da demissão da Michael Masi. Feito o registro.

Na terceira volta, Magnussen errou uma freada e Pérez conseguiu se aproximar para passar. Na quinta volta, novo erro e a sexta posição perdida para Russell, que vinha muito perto. Mas ele iria buscar tudo isso de volta até o fim, com tenacidade e empenho. Deu gosto, a Haas.

Festa da Haas: Magnussen terminou em quinto

Hamilton percebeu que podia atacar Sainz na altura da sexta volta. Mas faltava motor, na verdade. Ele abria a asa, mas não se aproximava o suficiente. Ao contrário, quem ia chegando era Pérez. Sainz conseguiu abrir um pouco. Checo chegou. E na volta 10, passou por Lewis sem nenhuma dificuldade. A falta de velocidade da Mercedes em retas era visível a olho nu.

Leclerc seguia firme na frente, com 3s de vantagem para Verstappen. Max, pelo rádio, reclamava de falta de tração. Era apenas a primeira queixa da noite. Lewis foi o primeiro a parar para trocar pneus, na volta 12. Tirou os macios e colocou duros. Voltou em 11º na frente de Zhou, mas após alguns metros perdeu a posição para o chinês, que fazia boa estreia. Os pneus pareciam estar frios. O carro sambava sem nenhum aderência. Mas ele conseguiu superar Guanyu na volta seguinte, quando a borracha começou a atingir a temperatura ideal de funcionamento. Mesmo assim, questionou: “Não paramos cedo demais, não?”.

Max veio para os boxes na 15ª volta. Diferentemente de Hamilton, colocou outro jogo de pneus macios. Sainz parou na sequência. Muita gente queria saber quanto tempo os mecânicos levariam para fazer um pit stop agora, com rodas de 18 polegadas e calotas tornando o conjunto mais pesado. A Ferrari levou 2s3 no carro do espanhol. Não mudou muita coisa.

Leclerc x Max: melhor momento da prova

O líder Leclerc parou na volta 16 para não tomar um passão de Verstappen no pit stop, estratégia mais do que manjada sempre que alguém está atrás com bom ritmo. Macios, como os do holandês. Pérez, segundo colocado àquela altura, fez o mesmo, mas os médios foram a escolha da Red Bull para seu carro. Charlinho voltou à pista com Max no seu cangote. Teria uma vida difícil nos primeiros metros, com pneus frios. Precisaria se defender até a borracha esquentar. A diferença que era superior a 3s antes das paradas caiu para menos de 1s. Max foi para cima e a volta 17 foi fantástica. O holandês passou na freada para a curva 1. Charles não se intimidou, foi para cima e retomou a ponta metros depois.

Na volta seguinte, as manobras se repetiram: Max passa na reta dos boxes, Leclerc vai buscar e reassume a ponta após algumas curvas, aproveitando as três zonas de asa móvel do circuito barenita. Mais uma volta, a 19, e repeteco: Verstappen deixa para frear no deus-me-livre na curva 1, Leclerc desenha melhor o traçado e, inteligente, recupera a liderança um pouco mais à frente. Um espetáculo de tirar o fôlego, o melhor momento da corrida, deixando o diretor-técnico da F-1, Ross Brawn, em êxtase. “Estou encantado com o que vimos hoje, pilotos mostrando novas habilidades, deu tudo certo”, falou o engenheiro que elaborou o novo regulamento da categoria.

Após a primeira bateria de pit stops, só a Mercedes, em seus dois carros, e a McLaren, no de Norris, optaram pelos pneus duros. Compostos médios e macios foram as escolhas das demais equipes. Na volta 21, Leclerc conseguiu respirar um pouco e abriu mais de 1s para Verstappen, impedindo o uso da asa móvel pelo campeão mundial. Lá no fundo, o desempenho que mais chamava a atenção era o da McLaren: uma tragédia papaia, com Norris em 15º e Ricciardo em 19º. Ambos sendo ultrapassados por quem chegasse, independente de cor, credo ou motor.

McLaren se arrastando: vexame na primeira corrida da temporada

A diferença pré-pit stops entre Charlinho e Max, que era de 3s, se recompôs na volta 24. A Ferrari mostrava força e consistência diante do ímpeto do holandês. A Mercedes, em quinto e sexto com Hamilton e Russell, se acomodou na condição que já imaginava ostentar neste início de campeonato: de terceira força, e olha lá. À frente dos prateados estavam, também como previsto, as duplas de Ferrari e Red Bull muito à frente.

Hamilton parou de novo na volta 28, colocou pneus médios e voltou em oitavo. Na volta 31, nova tentativa de Verstappen de meter um truco na Ferrari: segundo pit stop, agora para pneus médios. O time italiano, claro, chamou Leclerc imediatamente. Faria isso quantas vezes fosse necessário para não se deixar surpreender pela Red Bull. Pneus? Médios também, claro. Se Max colocasse pneus de chuva ou com correntes para neve, o monegasco faria o mesmo.

O pesadelo vivido por Charlinho depois da primeira parada não se repetiu após a segunda. Max não conseguiu atacar com a mesma volúpia e ficou xingando a equipe que o havia orientado a sair dos boxes com calma para não detonar os pneus. “Nunca mais faço isso!”, berrou. Um pouco mais atrás, Sainz e Pérez faziam jogo parecido: um parava, o outro vinha atrás. O espanhol, assim, conseguia se manter na frente do mexicano.

As posições se acomodaram nas voltas seguintes com todo mundo parecendo compreender qual seu lugar na fila do pão. Tirando uma ou outra ultrapassagem no meio do pelotão, quase todas definidas pelas diferenças de pneus, a corrida perdeu um pouco do viço. Mas na volta 44 Verstappen parou de novo para colocar pneus macios. Uma última tentativa de fazer algo diferente, já que Leclerc tinha quase 5s de vantagem sobre ele.

Fogo em Gasly: safety-car na reta final da corrida

Faltavam 13 voltas para o fim e Max voltou em terceiro, 28s atrás do líder e 11s atrás de Sainz, o segundo. O espanhol parou e colocou pneus macios, também. Voltou em terceiro, onde estava. Hamilton foi para um terceiro pit stop e também optou pela borracha mais macia. Então, um incidente: na volta 46, Gasly parou com um princípio de incêndio em seu carro. E o safety-car foi acionado.

A Ferrari, óbvio, chamou Leclerc imediatamente para os boxes. Ele trocou seus pneus e voltou em primeiro, já que tinha uma vantagem muito grande para Verstappen. Mas o pelotão iria se agrupar para uma relargada que poderia mudar os rumos da corrida. Max, porém, reclamava bastante com a equipe pelo rádio, reportando algum problema no volante de seu carro. “A buzina não funciona. O controle do som travou. O pisca-pisca não volta depois das curvas”, choramingava. “Depois falaremos sobre isso, querido”, respondia o engenheiro. A Red Bull explicou depois que o problema aconteceu num pit stop, quando o carro foi colocado no chão. Quebrou alguma coisa no mecanismo de direção.

Sintonizada na Red Bull FM e em sua parada radiofônica de sucessos, imediatamente a Ferrari avisou Sainz: “O cara tá lascado, vai pra cima”, informou a chefia na mureta do box. O safety-car saiu na volta 51. Todos os retardatários ultrapassaram os líderes e se colocaram no fim do pelotão — viu, Masi? Leclerc administrou bem a liderança e Sainz não conseguiu passar Max logo de cara. Mas, sabendo dos problemas de Verstappen, foi para cima na volta 54 e passou. O holandês, desesperado, perguntou: “O que eu faço agora?”. Nada, não havia nada a fazer. E, na volta 55, ele abandonou. Além da direção pesada, surgiu uma pane no sistema de alimentação de combustível. Esse foi o motivo oficial do abandono.

Verstappen com problemas: segundo lugar perdido no fim

E, assim, o time de Maranello montou sua dobradinha, a primeira desde o GP de Singapura de 2019. Hamilton, em quarto, percebeu que a Red Bull tinha lá suas questões. Partiu para o ataque a Pérez, terceiro. Para quem já se conformava com um quinto lugar opaco e irrelevante, a chance de um pódio, sem Max na pista, era tentadora demais. “Defenda-se!”, determinou a Red Bull. Mas Checo não conseguiu. Na freada da curva 1, rodou sozinho. Mais tarde, contou que o motor já estava “cortando” algumas voltas antes e travou de vez. A Red Bull informou que o problema foi idêntico ao de Verstappen: falta de gasolina no motor por conta de um defeito, provavelmente, na bomba de combustível. Lewis abriu um sorriso: mais um trofeuzinho na estante.

Leclerc venceu pela terceira vez na carreira, com seu companheiro em segundo para júbilo da Itália, do Vaticano, das cantinas e das pizzarias de todo o planeta. Hamilton fechou em terceiro seguido por Russell, Magnussen, Bottas, Ocon, Tsunoda, Alonso e Zhou. Haas em quinto, Alfa em sexto e décimo. Alpine com dois carros nos pontos. Bottas se recuperando bem para terminar em sexto, Zhou estreando na zona de pontos. E saiu todo mundo falando alguma coisa:

Lewis festeja com a equipe: pódio inesperado

Hamilton, 3º – “Lamento pelos outros pilotos [estava falando da Red Bull, claro], mas o terceiro lugar é melhor do que poderíamos esperar hoje. E parabéns à Ferrari, é uma equipe histórica, épica, eles mereceram o resultado. A gente vai ter de trabalhar muito, nosso carro tem problemas de equilíbrio, pula muito e falta velocidade na reta. Mas acredito na minha equipe e vamos conseguir resolver tudo.”

Leclerc, 1º – “Na última volta até fiz piada com a equipe e disse pelo rádio que tinha um problema no motor para assustar eles. Na corrida, não me senti ameaçado por Max em nenhum momento. Quando ele me passou, eu sempre deixei que freasse mais tarde porque sabia que conseguiria recuperar depois na próxima zona de DRS [a asa móvel].”

Pontos duplos para a Alfa Romeo: surpresa boa no Bahrein

Zhou, 10º – “Estou muito emocionado. Esta corrida foi muito especial para mim. Estava mais nervoso na classificação, hoje na largada eu até que estava tranquilo. Valtteri é incrível. Ele não esconde nada de ninguém, passa todas as informações, ajuda muito. Cinco minutos antes de a gente ir para o grid estava me explicando o melhor jeito de aquecer os pneus.”

Bottas, 6º – “Eu larguei mal [caiu de sexto no grid para 14º], mas o ritmo era muito bom, fiz boas ultrapassagens e o resultado nos traz muitas esperanças. Vai ser uma temporada divertida.”

Verstappen, abandono – “A gente teve muitos problemas. O carro foi um na sexta-feira e depois foi perdendo equilíbrio e rendimento. Não sabemos direito o que aconteceu, mas começar o campeonato assim é preocupante, não podemos perder tantos pontos como hoje.”

Steiner e a comemoração da Haas: inacreditável, após dois anos horríveis

Magnussen, 5º – “É inacreditável, uma loucura. Depois de dois anos com carros ruins, essa equipe merecia algo assim. Cometi dois erros, perdi posições, mas depois encontrei meu ritmo. Tenho de agradecer ao Günther [Steiner] e ao Gene [Haas] pela oportunidade de voltar.”

Steiner, chefe da Haas – “É um sonho. Esta equipe passou dois anos muito difíceis e nunca abaixou a cabeça. Dá para acreditar que esse cara [Magnussen] estava há quase dois anos sem guiar um carro de F-1?”

Horner, chefe da Red Bull – “De negativo, é que saímos daqui com zero ponto. De positivo, saber que temos um carro competitivo capaz de lutar por poles e vitórias com a Ferrari. Os dois carros tiveram, aparentemente, o mesmo problema. Vamos investigar para saber o que aconteceu, exatamente.”

Leclerc e Sainz com seus troféus: Ferrari impecável

Binotto, chefe da Ferrari – “É o resultado ideal, mas eu tenho certeza que eles [Mercedes e Red Bull] vão melhorar.”

Sainz, 2º – “A Ferrari voltou.”

Final da primeira prova do ano: Haas em terceiro no Mundial

A Ferrari sai do Bahrein com 44 pontos graças ao hat-trick de Leclerc, seu primeiro na carreira — pole, vitória e melhor volta, que dá ponto extra. A Mercedes é a segunda com 27 e a Haas, quem diria, terceira com dez. Não vai dar tempo de pensar muito nas glórias e desgraças, porque domingo que vem tem corrida de novo na Arábia Saudita, no perigoso e veloz circuito de Jedá.

Às 19h a gente chega com o “Fórmula Gomes” para analisar a primeira prova do ano em vídeo. Apareçam, cabras da peste!