SÃO PAULO (uia) – Foi um fim de semana perfeito para Max Verstappen em Ímola. No sábado, o holandês ganhou a Sprint. No dia seguinte, venceu o GP da Emilia-Romagna fazendo a melhor volta e faturando um ponto extra. Como largou na pole e liderou todas as voltas da corrida, anotou mais um Grand Chelem no currículo — o segundo de sua carreira.
Melhor de tudo, estatísticas à parte: pulou de sexto na tabela para a vice-liderança do campeonato e ainda contou com os infortúnios da Ferrari. Carlos Sainz se envolveu num toque com Daniel Ricciardo na primeira volta e abandonou. Charles Leclerc, líder do Mundial, terminou apenas em sexto, depois de andar em terceiro a prova toda. Errou no fim, rodou e perdeu pontos muito importantes.
O monegasco chegou a Ímola 46 pontos à frente de Max. Saiu com 27 de vantagem. No placar, 86 x 59 para o ferrarista. A Red Bull não fazia uma dobradinha desde 2016 na Malásia, com Ricciardo em primeiro e Verstappen em segundo. Max chegou a 22 vitórias na carreira, passando Kimi Raikkonen nas lista dos maiores vencedores da categoria e empatando com Damon Hill.
E está vivo. Vivíssimo, numa temporada que começou tingida de vermelho, mas pode ter visto hoje os ventos mudarem de direção.
O GP da Emilia-Romagna, quarto da temporada, não foi emocionante como o desfile da Grande Rio, mas seu enredo não faria feio na Sapucaí. Teve lá seus bons momentos, se a gente tiver alguma boa vontade para analisar.
(A referência carnavalesca tem o único objetivo de demonstrar que assisti aos desfiles de madrugada e que entendo do riscado. Se a Grande Rio não ganhar, pode parar tudo. Os de São Paulo não vi, mas parece que a Rosas e a Águia de Ouro foram bem, assim como deve ser saudada a volta da Vai-Vai.)
Choveu pela manhã dando um banho na pista, o que sempre traz alguma incerteza para todo mundo. O tempo até firmou no início da tarde, mas não o bastante para que o asfalto de Ímola secasse completamente antes da largada. Por isso todos foram para o grid com pneus intermediários, já que havia uma ameaça de mais chuva a qualquer momento. Cenário ideal para uma corrida confusa, que é o que o povo gosta — pilotos, nem tanto.
Na largada, Verstappen pulou bem a partir da pole e Leclerc, mal. Pérez aproveitou e se colocou em segundo, a escolta mais luxuosa que Max poderia desejar. Lando Norris foi na cola do mexicano e assumiu o terceiro lugar. Charles caiu para quarto. Na chicane da Tamburello, Sainz e Ricciardo se enroscaram e, claro, quem se deu mal foi o infeliz espanhol. Atolou na brita e o safety-car foi acionado. Primeiro abandono do dia, incidente considerado normal pelos comissários — e foi mesmo. O australiano da McLaren foi para os boxes e caiu para último. Depois se desculparia com o desafortunado segundo piloto da Ferrari.
Magnussen, quinto, Russell, sexto, e Vettel, nono, foram alguns dos que se saíram muito bem nos primeiros metros da corrida, escalando o pelotão e se livrando de confusões. Hamilton, 14º no grid, ganhou apenas duas posições. Pista limpa, Ferrari de Sainz removida, a relargada foi autorizada no final da quarta volta. Na sexta, Alonso abandonou com um rombo na lateral de seu carro. Tinha sido acertado por Schumacher na primeira volta e a carenagem acabou se desprendendo. Mais um abandono para o espanhol, que segue com míseros dois pontinhos no campeonato. “Foi só um ‘beijinho’ do Mick. Esses carros parecem indestrutíveis, menos o nosso, que sempre acaba despedaçado”, choramingou o espanhol.
Ímola nunca foi um circuito fácil para ultrapassagens. Mas com carro bom, dá. Na volta 8, Leclerc foi para cima de Norris e ganhou a terceira posição na freada para a Tamburello. Sua diferença para o líder Verstappen era de 6s. Um trilho de asfalto seco começava a se formar e alguns já cogitavam colocar pneus slick em algum momento. Mas as equipes, pelo rádio, reforçavam a previsão com os pilotos: a chuva poderia voltar a qualquer momento. “Fiquem aí e não encham!”, diziam todos os engenheiros em coro.
O primeiro bom duelo da corrida aconteceu entre Russell e Magnussen a partir da 11ª volta, pelo quinto lugar. Jorginho chegou a passar na Tamburello, mas saltou na zebra e K-Mag recuperou o posto. Poucos metros adiante, porém, o inglês da Mercedes passou de novo. Bottas se juntou à festa e foi para cima do dinamarquês, também. Passou na volta 14, deixando o piloto da Haas em sétimo.
Enquanto Russell abria caminho para se estabelecer na zona de pontos, Hamilton seguia empacado atrás de Stroll em 11º. Na liderança, Verstappen abria 6s para Pérez, que servia como escudo à aproximação de Leclerc. O mexicano não conseguia acompanhar o ritmo do companheiro. E começava a ver Charlinho pelo retrovisor. Lá na rabeira, Ricciardo parou, na volta 17, para colocar slicks. Composto médio foi o escolhido. Seria a cobaia do dia. Se não derrapasse na pista úmida nem terminasse estampado no muro imediatamente, todo mundo começaria a fazer o mesmo.
Alguns nem esperaram o destino do australiano para tomar uma decisão. Vettel, Gasly e Albon pararam logo depois e também colocaram pneus para pista seca. Pérez fez o mesmo na volta 19, quando Leclerc já ensaiava uma tentativa de ultrapassagem. Na sequência vieram Russell, Hamilton, Magnussen, Bottas… Só os três primeiros ficaram na pista com pneus intermediários: Verstappen, Leclerc e Norris. Não demorou muito para se convencerem de que já dava para usar pneus lisos. Foram todos para os boxes na volta 20 e colocaram os médios. Quem mais perdeu nas paradas foi Hamilton, que caiu de 11º para 14º, atrapalhado na saída dos boxes por Ocon — liberado de seu pit stop de forma perigosa, levando uma punição.
Na volta da boiada à pista, Pérez, com borracha mais quente porque tinha parado antes, mergulhou para cima de Leclerc e recuperou a segunda colocação. De novo se colocou à frente da Ferrari como anteparo para o parceiro. Verstappen seguia tranquilo na ponta. Mas foi só o pneu de Leclerc esquentar para voltar a cobiçar a posição de Checo. O monegasco, como fizera no início, passou a fustigar o #11 da Red Bull aqui e ali, tentando forçar um erro do adversário. Pérez, porém, aprumou-se e seguiu firme na frente.
Na volta 35 a direção de prova liberou o uso da asa móvel, vetada em condição de pista molhada por motivos de segurança. Foi a senha para quem estava encaixotado atrás de alguém tentar alguma coisa, já que a corrida não era grande coisa até ali. Mas nada de muito emocionante resultou do artifício aerodinâmico.
O momento mais emblemático do domingo aconteceu no final da volta 40. Hamilton, em 14º, viu nos painéis luminosos uma esquisita luz azul. Depois, bandeiras da mesma cor. “São do Chelsea?”, teria perguntado pelo rádio segundo fontes internas que tenho na Mercedes — mas não consegui confirmar se ele falou isso mesmo, pode ser apenas maledicência De qualquer maneira não, não eram do Chelsea. Eram para avisar que o líder se aproximava. Verstappen, com quem bateu roda o ano passado inteiro num dos campeonatos mais espetaculares de todos os tempos, chegava para colocar uma volta sobre ele. Passou na reta dos boxes, na abertura da 41ª volta. Cena inimaginável antes de começar a temporada. E que pode ser frequente até o fim do ano, pelo andar da carruagem. “Não teve nada de especial”, disse Max depois. “Eles estão lentos desde o início do ano e essas coisas acontecem.”
Lewis ficou séculos atrás de Gasly, que por sua vez não conseguia passar Albon no purgatório da segunda metade do pelotão, onde o filho chora, a mãe não ouve, todo mundo abre a asa móvel e ninguém ganha ponto algum. Bem à frente deles, Tsunoda conseguiu passar Magnussen na 47ª volta para assumir o oitavo lugar. Depois passaria Vettel, também. Bela prova, a do japonês. Terminou em sétimo em sua melhor corrida na F-1 e está na frente do companheiro na classificação, 10 a 6.
Na volta 50ª, sem conseguir se aproximar de Pérez, Leclerc foi chamado pela Ferrari para colocar pneus macios e, pelo menos, buscar o pontinho extra da melhor volta. Quando saiu dos boxes, perdeu a terceira posição para Norris. Mas tinha borracha em melhores condições e passou o inglês da McLaren na volta seguinte. Pérez fez o mesmo, convocado pela Red Bull. E na 52ª volta, um ano à frente de todo mundo, Max também parou e colocou pneus macios novos. Não queria deixar nenhuma migalha para a concorrência. E não deixou mesmo. Fez a melhor volta e somou todos os pontos possíveis para um fim de semana de Sprint: 34, contando a vitória na minicorrida de ontem.
(O recorde de pontos em um GP pertence a Hamilton, que fez 50 em Abu Dhabi/2014. Isso porque inventaram, naquele ano, uma esdrúxula pontuação em dobro na última etapa do campeonato. Lewis venceu e teve seus 25 pontos multiplicados por dois. Felizmente aquela anomalia não interferiu no resultado final do campeonato. Massa, o segundo colocado, fez 36.)
A segunda bateria de pit stops recolocou Leclerc no cangote de Pérez, mas de novo o mexicano ajeitou o sombreiro e sustentou o segundo lugar. Aí, o drama do dia: Leclerc rodou e bateu. Sozinho, na Variante Alta. Conseguiu retornar à pista e a Ferrari o chamou para os boxes para verificar se havia algum dano em seu carro. Voltou em nono. A torcida italiana murchou de vez. Era tudo que Verstappen queria.
Charlinho ainda conseguiria passar Magnussen para assumir o oitavo lugar. Depois, atropelou Vettel sem dificuldade e subiu para sétimo. Na penúltima volta, passou Tsunoda e salvou um sexto lugar — frustrante, sem dúvida. “Devo desculpas à equipe e à torcida”, disse o monegasco. “Fui ganancioso demais e passei do limite.” No segundo escalão, Bottas fazia uma corrida digna de aplausos, partindo para cima de Russell para buscar um quarto lugar que seria mais do que honroso para a Alfa Romeo. Tentou, mas não deu. Terminou em quinto e, ainda assim, feliz da vida.
Verstappen, Pérez, Norris (primeiro pódio da McLaren no ano), Russell, Bottas, Leclerc, Tsunoda, Vettel, Magnussen e Stroll terminaram nas dez primeiras posições. A Aston Martin fez seus primeiros pontos no ano e comemorou bastante. Jorginho tirou leite de pedra de um carro horrendo e é o único piloto, neste ano, a terminar as quatro provas do campeonato entre os cinco primeiros colocados.
Hamilton recebeu a quadriculada em 13º, uma volta atrás do vencedor. Enquanto recolhia para a garagem, Toto Wolff entrou no rádio e lhe disse: “Lewis, desculpe pelo carro que você teve de pilotar hoje. Estava inguiável”. O inglês demorou um pouco e respondeu: “Sem problemas, Toto, vamos continuar trabalhando”. “Sim, vamos sair dessa”, prometeu o chefe. Logo em seguida, o heptacampeão jogou a toalha de vez nas entrevistas: “Estou fora do campeonato, sem dúvida. Só nos resta trabalhar para melhorar”.
Alguém pode argumentar que é cedo para desistir. Faltam 19 corridas ainda, tudo pode acontecer, diriam os torcedores mais otimistas da equipe alemã. Mas a realidade se impõe. Na F-1, carro nenhum que nasce tão ruim se torna competitivo de uma hora para outra. O W13 foi mal projetado. A Mercedes errou a mão. O carro não aquece os pneus e bate no chão o tempo todo, fazendo com que os pilotos tenham de tirar o pé do acelerador nas retas. Não tem remendo. O negócio agora é tentar melhorar alguma coisa para não passar muito vexame e pensar em 2023.
O pódio de Norris, a bela colocação de Bottas e a presença de Magnussen e da dupla da Aston Martin nos pontos, além do sétimo lugar de Tsunoda, foram alguns dos destaques da prova, a primeira europeia da temporada. Apesar do quarto lugar quase milagroso, Russell não estava entre os mais sorridentes de Ímola após o GP. O inglês, assim como seu companheiro, sabe que terá de passar o ano amassando barro, como se diz, da mesma forma que fazia em seus tempos de Williams. “Nosso carro não é competitivo, não é exatamente o que podemos chamar de um carro de corrida propriamente dito”, diagnosticou. Será longa, a temporada da Mercedes…
A próxima etapa do campeonato acontece dia 8 de maio em Miami, corrida nova no calendário. A pista está sendo montada em volta de um estádio de futebol americano. Aconteça o que acontecer, Leclerc ainda sairá dos EUA na liderança do campeonato. Mas a gordura que acumulou depois dos dois abandonos de Verstappen no Bahrein e na Austrália começou a derreter. Max venceu todas as corridas que terminou neste ano — a da Arábia Saudita, em Jedá, e as duas do fim de semana de Ímola, contando a Sprint de ontem.
É para se preocupar.
No Mundial de Construtores, a Red Bull somou 58 dos 59 pontos possíveis no final de semana e encostou na Ferrari, que segue liderando com 124. O time de Christian Horner tem 113. A Mercedes, com 77, agora está em terceiro. A McLaren começa a crescer e tem 46.
Como sempre fazemos em finais de semana de GP, às 19h estaremos ao vivo no “Fórmula Gomes” para analisar tudo que aconteceu em Ímola. Apareçam!
