SÃO PAULO (cqd) – Max Verstappen é o novo líder do Mundial. Venceu na Espanha e Leclerc abandonou. Foi sua quarta vitória no ano, 24ª na carreira – igualando, nas estatísticas, o pentacampeão Juan Manuel Fangio. O holandês da Red Bull foi a 110 pontos, contra 104 do monegasco da Ferrari. Sergio Pérez ficou em segundo, com George Russell em terceiro.
Foi um GP dos mais interessantes, como se previa: muitas paradas para trocas de pneus, estratégias que foram sendo alteradas com o andamento da corrida, alguns dramas, belas ultrapassagens. O forte calor acabou sendo decisivo e quem soube administrar bem a borracha se deu bem. Mas o mais importante: com a terceira vitória seguida no campeonato, Max anulou o favoritismo que a Ferrari construíra nas primeiras etapas da temporada. Agora, os outros que corram atrás.
A primeira surpresa do dia foi ver quase todo mundo de pneu macio no grid, apesar dos alertas sobre um desgaste excessivo da borracha com 49°C no asfalto e 37°C na cachola. “Quase” porque Hamilton escolheu os médios.
Não deu tempo de saber se a estratégia daria certo para o heptacampeão. Já na primeira volta, no esfrega-esfrega da largada, Magnussen acertou o inglês numa tentativa de ultrapassagem. Seu pneu dianteiro esquerdo furou, ele caiu para penúltimo e foi para os boxes. A direção de prova não viu culpados, os dois seguiram na prova, assunto encerrado.
Mas um detalhe logo depois deve ser registrado. Pelo rádio, Lewis pediu desculpas pelo toque logo de cara e sugeriu à equipe abandonar a prova. “Eu, se fosse vocês, ‘salvaria’ este motor”, falou. Como se sabe, há uma limitação séria de uso de motores na F-1 e não convém arregaçar um deles sem chances nem de pontuar. O time não achou uma boa ideia. “Fica aí e não enche”, disseram todos em coro no pitwall. Não foi bem assim, mas quase. Bono, o engenheiro, cravou: dá para chegar em oitavo. “Achei superotimista e não entendi nada”, contaria Hamilton depois da corrida. E ele ficou. Ainda bem. Porque fez um corridão e terminou em quinto. O suficiente para o amigo internauta elegê-lo “Piloto do dia”.
Quem largou mal, de novo, foi Sainz, que caiu de terceiro para quinto. Alonso, lá no fundão, foi é muito bem: de último para 15º, escalando o pelotão para alegria da torcida espanhola – trocou o motor e, por isso, largou atrás de todo mundo. Torcida que só tinha o que comemorar no início com Fernandinho, mesmo, porque o ferrarista, na sétima volta, rodou sozinho na curva 4, caindo para 11º.
Na ponta, Leclerc se virava. Largou bem e se sustentou em primeiro com Verstappen perto dele. Mas Max, na volta 9, errou no mesmíssimo ponto que Sainz, foi para a brita e conseguiu voltar em quarto. A escapada foi atribuída aos ventos da Catalunha, que desestabilizaram o carro do holandês – e o do espanhol, pouco antes.
Russell assumiu a segunda posição, com Pérez na cola. O mexicano teve de abrir mão da briga na volta 11, deixando Verstappen passar para atacar o inglês da Mercedes – que começou a ter problemas de temperatura no motor. Na volta 12, a asa móvel de Max começou a dar problemas como no sábado. Funcionava e parava, abria e fechava sozinha. Mais um perrengue para o campeão mundial administrar. Se já é difícil ultrapassar em Barcelona, sem o DRS as coisas se complicam bem. Mas ele persistiu e foi em frente.
Na 14ª volta, Russell e Verstappen foram para os boxes para suas primeiras paradas e colocaram pneus médios. Charlinho, lá na frente, aproveitava para se distanciar do resto. O segundo colocado, Pérez, estava mais de 15s atrás. George e Max voltaram à pista separados por poucos metros. Com a asa móvel muito louca, o holandês tinha dificuldades enormes na briga com o mercêdico.
Pérez parou na volta 18 e caiu para quarto outra vez. O novo segundo colocado, Jorginho, estava 30s atrás do líder Leclerc. Max, embutido nele, vociferava pelo rádio por causa “dessa merda de asa móvel que não funciona”. Com um terço de corrida, alguns pilotos mais para o meio do pelotão se destacavam: Bottas em quinto, Ocon em sexto, Vettel em oitavo… Foi quando a Ferrari chamou Leclerc, na volta 22, para seu primeiro pit stop. Voltou em primeiro com tranquilidade, mais de 5s à frente de Russell. Hamilton? Meio desanimado, se arrastava em 16º. Fez um segundo pit stop e caiu para 19º. Não tinha acordado ainda.
Na abertura da 24ª volta, a asa de Max se escancarou e ele mergulhou para cima de Russell na curva 1. A disputa nos metros seguintes foi belíssima, Max chegou a passar, mas o britânico resistiu e se manteve à frente.
A briga entre os dois permitiu a Leclerc desaparecer na frente. A diferença para George subiu para mais de 12s. Foi quando Pérez chegou nos dois, na volta 27, com pneus mais novos. E começou a pedir pelo rádio – oh, que petulância! – para a Red Bull mandar Verstappen sair de sua frente. “Eu tenho pneus mais novos, passo ele fácil!”, garantiu o mexicano. A equipe ignorou.
E, aí, o drama de Charlinho… Líder tranquilo, ficou sem potência. Do nada, o motor zumbiu, fez um barulho esquisito e tchau. “Oh, não!”, choramingou pelo rádio. Foi para os boxes. O problema, explicaria a Ferrari depois, foi no turbo. Russell assumiu a liderança, colocando a Mercedes em P1 num GP pela primeira vez no ano. Leclerc, desolado, abandonou.
Aí a prova ficou para Verstappen. Na volta 29, Max parou e colocou pneus macios. Voltou em quarto, atrás de Russell, Pérez e, vejam só, Bottas! A ideia, muito clara, era ganhar a posição de Jorginho quando a Mercedes o chamasse para o segundo pit stop. Checo, que pedira pouco antes para atacar Russell, teve a chance. Era uma forma, também, de ajudar o companheiro de equipe que vinha mais atrás com borracha novinha em folha.
E o mexicano não decepcionou. Na volta 31, fez com George o que Verstappen não tinha conseguido. Mergulhou e passou na curva 1. Max ganhou o terceiro lugar de Bottas na volta 32, sem nenhuma dificuldade. Sua diferença para Russell, em segundo, era de 12s. Pérez liderava, mas sem grandes esperanças. Uma hora veria seu companheiro no retrovisor. Com o abandono de Leclerc, uma vitória levaria o #1 à primeira posição no campeonato.
Depois de pouco mais de metade da corrida, todo mundo já tinha visitado os boxes uma ou duas vezes. Hamilton, com as muitas paradas dos carros à frente, já aparecia em sétimo e começava a se animar. Sainz, em quinto, Norris e Alonso, nono e décimo, respectivamente, lutavam com bravura, assim como Ocon – que chegou a andar em quarto.
Com os pneus em petição de miséria e Verstappen se aproximando, Russell parou na volta 37 e colocou pneus médios. Voltou em terceiro, mais de 20s atrás do holandês. A Red Bull, então, se viu às portas do paraíso: Pérez em primeiro, Max em segundo. O time chamou Checo para mais uma parada. Verstappen também teria de fazer um terceiro pit stop, porque tinha pneus macios que não chegariam ao fim impunemente.
Mas seria preciso monitorar Russell, que não precisaria parar mais, se não quisesse. Todo mundo começou a fazer contas. Max carecia de um punhado de voltas rápidas para construir uma vantagem que lhe permitisse parar e voltar à frente da Mercedes #63.
A terceira parada de Verstappen veio na volta 44. Colocou médios e voltou à frente de Russell, como queria. O trabalho da Red Bull foi preciso. Pérez assumiu a liderança, mas sabia que, em algum momento, teria de ceder a ponta para o companheiro – na pista ou no box. A diferença dele para o #1 era de pouco mais de 3s. Pelo rádio, veio a ordem: “Max está em estratégia diferente…”. Para bom entendedor, meia palavra basta. “É injusto, mas OK”, protestou timidamente o mexicano. “Depois da corrida a gente conversa”.
Aqui vale fazer uma conta. Se vencesse a corrida, Pérez iria a 92 pontos no campeonato — tem 85. Max, em vez de 110, teria sete a menos, 103. É justo dizer que Checo estaria na briga pelo título, como não? Mas a gente sabe como são as coisas. A aposta óbvia da Red Bull é no holandês — qualquer um apostaria nele contra Pérez. Mas fica o registro.
Verstappen passou na volta 49 sem dificuldades. “Obrigado, companheiro”, agradeceu, voltando à liderança. As coisas, então, se acomodaram. Russell fez uma terceira parada na volta 51 para fechar a corrida com pneus macios fresquinhos. Perdeu a terceira posição para Bottas, mas recuperá-la era questão de pouco tempo porque o finlandês da Alfa Romeo já tinha borracha bem desgastada. Passou fácil na 53ª. Por via das dúvidas, a Red Bull chamou Pérez para colocar pneus macios, também, para se proteger de alguma eventual ameaça do inglês.
Nas últimas voltas, a diversão ficou por conta de Bottas, Sainz e Hamilton – quarto, quinto e sexto. Valtteri, sem pneus, foi ultrapassado pelos dois na volta 58. Lewis, que queria desistir da corrida depois de cair para penúltimo na primeira volta, fazia uma prova admirável. Mais do que isso, mostrava que a melhora da Mercedes com as atualizações de Barcelona não era brincadeira. Na volta 60, ultrapassou Sainz e assumiu a quarta posição.
Mas as coisas não foram tão tranquilas para ele nas duas últimas voltas. A equipe, pelo rádio, avisou que detectou um vazamento de água e pediu para o inglês tirar o pé porque a temperatura do motor estava indo às alturas. Russell vivia drama parecido. Sainz encostou e passou de novo, retomando o quarto lugar.
Verstappen recebeu a quadriculada com 13s072 de vantagem para Pérez na segunda dobradinha da Red Bull no ano – a outra foi em Ímola. Russell fechou o pódio, com Sainz em quarto e Hamilton em quinto. Bottas, Ocon, Norris, Alonso e Tsunoda fecharam a zona de pontos. Aplausos para George: é o único piloto no ano que pontuou em todas as corridas. E em todas chegou entre os cinco primeiros.
Depois de Miami, a sensação era de que Verstappen assumir a liderança do campeonato seria uma questão de tempo. Foi antes do que se imaginava, graças à quebra de Leclerc, que zerou pela primeira vez no ano. Max ganhou todas as provas que terminou — incluindo a Sprint de Ímola. A diferença para Charlinho, que fora de 46 pontos a favor do ferrarista depois da terceira corrida do ano, evaporou em pouco mais de um mês.
Tirar o bi do moço vai ser muito difícil.
