Blog do Flavio Gomes
F-1

EM BUDA OU PESTE? (3)

SÃO PAULO (aplausos) – Numa atuação de gala, Max Verstappen venceu o GP da Hungria depois de largar na décima posição. Ele nunca tinha vencido uma corrida partindo tão atrás no grid. Foi uma aula de pilotagem dele e de estratégia da Red Bull, que escolheu os pneus certos desde a primeira volta e acertou […]

Max com Horner e Marko: vitória largando em décimo, um show

SÃO PAULO (aplausos) – Numa atuação de gala, Max Verstappen venceu o GP da Hungria depois de largar na décima posição. Ele nunca tinha vencido uma corrida partindo tão atrás no grid. Foi uma aula de pilotagem dele e de estratégia da Red Bull, que escolheu os pneus certos desde a primeira volta e acertou o momento de chamar o piloto em seus dois pit stops. Verstappen ganhou pela oitava vez no ano, 28ª na carreira. Ele é, agora, o oitavo maior vencedor da história, isolado. Deixou para trás nas estatísticas, o tricampeão Jackie Stewart.

O pódio foi fechado pelos dois carros da Mercedes: Lewis Hamilton em segundo e George Russell em terceiro. O heptacampeão, a exemplo de Max, fez uma corrida exemplar e conquistou seu quinto pódio seguido. Largou em sétimo e disse que se não fosse o problema de sábado, quando perdeu a asa móvel em sua volta rápida de classificação, poderia ter lutado pela vitória — isso se conseguisse, pelo menos, um lugar na primeira fila. Seu companheiro, que largara na pole, se esforçou muito, mas acabou atrás do #44. Carlos Sainz ficou em quarto, seguido por Sergio Pérez e Charles Leclerc. Max, que tinha 63 pontos de vantagem sobre o monegasco na classificação, foi a 258 pontos no campeonato. Leclerc tem 178. A diferença subiu para 80.

Leclerc e Sainz inconformados: Ferrari erra de novo e, pior, não tem bom ritmo

A Ferrari, de novo, se embananou na estratégia. Escolheu os pneus errados para sua dupla na largada, os médios, o que determinou o restante do andamento da prova. E ainda colocou um jogo de duros no carro de Leclerc na segunda parada, o que fez dele uma presa facílima.

Nem Leclerc entendeu o que quis a equipe. Por conta da ineficiência dos pneus duros, teve ainda de fazer um terceiro pit stop. Chegou a liderar, terminou em sexto. “Foi um desastre”, reclamou. “Eu disse que podia ficar mais tempo com os médios. Me chamaram para trocar. Até agora não entendi qual foi a lógica.”

O time se defendeu, com o chefe Mattia Binotto tentando explicar o que aconteceu: “O problema hoje foi que o carro não funcionou como a gente imaginava. Com nenhum pneu. A gente achava que os duros seriam um pouco mais lentos no começo, mas depois melhorariam. Não foi o que aconteceu”.

Início de prova sem confusões: no meio do pelotão, os carros da Red Bull

Não houve unanimidade pneumática para a largada, com macios e médios se alternando no grid. Na pole, Russell optou pelos macios. A dupla da Ferrari foi de médios. Mais para trás, Hamilton também estava com os médios e Verstappen e Pérez, de macios. Depois da corrida Max disse que a opção da Red Bull foi feita em cima da hora. “A ideia inicial era largar com pneus duros. Decidimos mudar quando estávamos indo para o grid.”

George pulou muito bem na frente e na terceira volta já tinha mais de 2s sobre Sainz, o segundo colocado. Lewis e Max ganharam duas posições cada na partida – um foi para quinto, o outro para oitavo. Como se verá adiante, as boas largadas foram decisivas para o desfecho da corrida de ambos.

A temperatura era baixa, 18,5°C, e a possibilidade de chuva pairava sobre o autódromo, rodeado de nuvens. Já na volta 6 Verstappen se livrou de Alonso e foi para cima de Ocon. Pérez partiu para o ataque sobre Fernando. Red Bull x Alpine virou a briga do momento. Na 7ª, os dois rubro-taurinos passaram os carros azuis sem perder muito tempo, colocando-se, respectivamente, em sexto e oitavo. Na volta 9, Checo passou por Ocon sem dificuldades e foi para sétimo. Era um começo de prova alvissareiro para o time austríaco.

Verstappen chegou em Hamilton rapidinho, na volta 10. Travou atrás do heptacampeão, que por sua vez estava encaixotado atrás de Norris. Lewis conseguiu passar Lando na 12ª volta. Max veio na balada e jantou o carro papaia para seguir à caça do Mercedes #44. Pérez fez o mesmo e continuou na escolta do companheiro. Com 13 voltas, os dois Red Bulls já apareciam em quinto e sexto.

Russell, líder até as paradas: no final, mais um pódio

Lá na frente, Russell, Sainz e Leclerc se distanciavam de todos. Charlinho, polidamente, pediu pelo rádio para que a equipe solicitasse ao espanhol para ir um pouquinho mais rápido. “Dá pra ser? Se não incomodar, claro”, disse. Carlos atendeu e começou a descontar tempo em cima de Russell. Reduziu a diferença rapidamente para 1s na volta 16. Chaleclé vinha colado no companheiro, quase piscando farol.

O líder parou na volta 17, percebendo a aproximação dos dois carros vermelhos. Colocou pneus médios. Verstappen, que não tinha conseguido alcançar Hamilton, fez o mesmo. George voltou em sexto. Max, em oitavo. A Ferrari reagiu na hora e chamou Sainz na volta seguinte, deixando Leclerc na pista. O espanhol também vestiu pneus médios e voltou à pista atrás de Ocon e à frente de Alonso, uma espécie de recheio de sanduíche alpino.

Hamilton, então segundo, parou na 20ª e voltou em sétimo. Leclerc seguiu na pista e Russell assumiu o segundo lugar com o pit stop do companheiro. O monegasco precisava abrir uma boa vantagem sobre o inglês para tentar ganhar a posição nos boxes. Mas não teve jeito. Na 21ª, a Ferrari convocou seu piloto para trocar pneus, ele colocou médios, voltou à pista à frente de Sainz e atrás de Jorginho de novo – coisa de 2s.

Verstappen para cima de Hamilton: levou nos boxes

O panorama geral da prova não mudou muito, exceto pela inversão de posições entre Sainz e Leclerc em relação ao início da corrida. E, também, pelo sucesso da manobra da Red Bull parando Verstappen antes que Hamilton – o holandês voltou à frente, no seu primeiro “undercut” do domingo.

Quase todo mundo estava para dois pit stops, mas a Alpine tentou algo diferente. Quando parou, Alonso colocou pneus duros para ir até o fim da corrida. Ocon também. Era uma aposta. Ao final da primeira bateria de pit stops, Russell, Leclerc, Sainz, Verstappen, Hamilton, Pérez e Norris ocupavam as sete primeiras posições.

Leclerc acordou para a vida na volta 27, quando encurtou sua diferença para Russell para menos de 1s, o que permitiria a abertura da asa móvel. Sainz ficou para trás, assistindo de camarote e torcendo para que os dois se enrolassem e saíssem abraçados para uma área de escape qualquer.

A dança dos pneus: Ferrari bobeou na segunda parada de Leclerc

Na Hungria, é preciso paciência para passar. Na 28, não deu. Na 29, também não. Nem na 30. Charles tinha pneus um pouco mais novos que Russell, mas não muito. George se defendia do jeito que dava. Em outra pista, já teria sido engolido. Mas na abertura da 31, Leclerc foi decidido por fora na freada para a curva 1 e conseguiu passar. Uma ultrapassagem muito bonita, embora sem grandes pirotecnias.

Uma vez superado pela Ferrari, Russell se viu de volta à realidade da Mercedes, que ainda não é a de vencer corridas em 2022. Quem sabe mais para a frente. Leclerc foi embora e Sainz chegou. Mas, diferentemente do colega dos morros de Monte Carlo, deixou para fustigar o adversário mais tarde, talvez – quando começassem os novos pit stops.

Sainz, segundo no começo: “Não foi problema de estratégia, foi carro, mesmo”.

A passividade do espanhol, porém, cobraria um preço. Quem acabou se aproximando dele foi Verstappen. A corrida havia entrado num daqueles períodos modorrentos em que nada acontecia. Então a Red Bull convocou Verstappen para sua segunda parada na volta 39 para dar mais um “undercut” — desta vez, sobre Sainz. Na 40ª, Ferrari e Mercedes chamaram seus pilotos, também. Leclerc, então, colocou pneus duros. Ninguém entendeu. Parecia cedo demais. Russell foi de médios. E quem se deu bem nessa brincadeira?

Verstappen, o líder do campeonato. E aí a coisa animou. Quando voltou à pista, Leclerc viu o holandês colado em sua caixa de câmbio. A chamada prematura da Red Bull funcionou, e como… Na volta seguinte, a 41, Max passou Leclerc lindamente por dentro na curva 1 e assumiu o terceiro lugar do monegasco — uma liderança virtual porque Sainz e Hamilton, em primeiro e segundo, não tinham parado pela segunda vez, ainda.

Mas Verstappen, quem diria, cometeu um erro no final da mesma volta, na última curva. Rodou sozinho, deu um 360°, quase fritou a embreagem, e Leclerc retomou a posição. Max praguejou pelo rádio e foi de novo à caça. Tinha pneus médios, contra os duros de Leclerc, lembremo-nos. Na volta 45, o campeão não hesitou. Na saída da curva 1, recuperou-se da rodada de pouco antes e passou Charlinho outra vez.

A parada de Leclerc: pneus duros não funcionaram

Sainz, então líder, parou na volta 48. Colocou pneus macios. Teriam de durar 22 voltas. Hamilton assumiu a liderança, com Verstappen a 5s7 dele em segundo, Leclerc já apartado da briga com seus pneus de pau e Russell em quarto atrás dele com borracha muito mais apropriada para o momento – pneus médios com pouco tempo de uso.

Hamilton finalmente foi para o box na volta 52 e fez sua segunda parada. Verstappen, então, assumiu a ponta. O inglês colocou pneus macios para as últimas 18 voltas da corrida e retornou em quinto, num ritmo alucinante. Russell sofria para passar Leclerc, que se atracava à segunda posição do jeito que dava. Na 54ª, conseguiu. Mais uma ultrapassagem bonita de uma corrida cheia de bons momentos, mas poucos dramas.

E a Ferrari se rendeu às evidências. Com pneus duros, Leclerc não tinha muito o que fazer na pista. Foi chamado para um terceiro pit stop e colocou macios. Voltou em sexto, faltando 15 voltas para o final. Inês já era morta. Verstappen, Russell, Sainz, Hamilton e Pérez estavam à frente dele. Oh, dia, oh céus.

Lewis e George se abraçam: Mercedes renasce com mais um pódio duplo

A fase final da prova foi de Hamilton, que esfarelou a diferença que Sainz tinha à sua frente e foi buscar um troféu. Com seus pneus macios, imprimiu um ritmo fortíssimo sabendo que tinha chances, inclusive, de ganhar o segundo lugar de Russell, um pouco mais à frente. Havia, porém, uma certa tensão no ar: ameaça de chuva. Seria um último capítulo deslumbrante para uma prova repleta de idas e vindas. Mas as gotas só eram vistas nas lentes das câmeras de TV; molhar a pista que é bom, nada.

Lewis colou em Sainz na volta 62. Na 63, passou e entrou na zona de pódio. E com pneus mais velozes que os de Russell, não teve muito pudor de partir para cima do companheiro. Na volta 65, fez a ultrapassagem, limpa e precisa, assumindo o segundo lugar.

Verstappen comemora: liderança com 80 pontos de vantagem

Faltando duas voltas para o fim, ela, a chuva, apareceu – junto com um safety-car virtual após quebra de Bottas. Mas foi tão fraquinha que não chegou nem a molhar o asfalto. Mas sabe como é… Água em fim de corrida deixa todo mundo meio tenso. Com todo cuidado do mundo, Max levou seu carro até a quadriculada. E ganhou de forma espetacular a 13ª etapa do campeonato. Depois de Hamilton e Russell, vieram Sainz, Pérez, Leclerc, Norris, Alonso, Ocon e Vettel na zona de pontos.

O menino-enxaqueca da Red Bull já é campeão, sabemos. Anda fazendo até piada. “Ontem eu disse que ia ganhar a corrida, mas estava brincando. Mas agora não estou!”, gargalhou ao fim da prova. Max está a fim de ser bi com requintes de crueldade. Hoje foi assim, com direito a pirueta no meio da corrida. Quem podia incomodar, a Ferrari do começo do ano, mergulhou num buraco sem fundo. A Mercedes, que reage a olhos vistos, ainda está longe e só se preocupa, neste momento, em resolver seus problemas e aprumar a proa para 2023.

Ficou tudo muito fácil para a Red Bull e seu prodígio holandês.

Agora, férias da F-1. Tudo volta em Spa, no dia 28 de agosto. E às 19h vejo vocês no “Fórmula Gomes” em nosso canal particular de TV no VocêTubo.