A IMAGEM DA CORRIDA
SÃO PAULO (prepare-se, tá longo!) – E dá para ser outra? A foto que mostra Zhou enfiado no que restou de sua Alfa Romeo é uma das mais impressionantes da história recente da F-1. O carro se encaixou exatamente entre os fundos do guard-rail (com perigosas lâminas verticais para fixação no solo) e a tela do alambrado que separa a pista de um lance de arquibancadas.
Mas o acidente produziu outras imagens marcantes, que seguem na galeria abaixo. Destaque para a agonia de Russell, que saiu correndo de seu carro para ver se poderia ajudar Zhou, o santantônio que absorveu o primeiro impacto no asfalto mas, depois, cedeu, e o papel fundamental do Halo na proteção da cabeça do piloto. Zhou nasceu de novo. E aproveitou para gravar um vídeo.
A contragosto, porque vocês sabem que sou chegado num texto todo encadeado, cheio de referências literárias e da cultura pop, um tema chamando o outro e tal, vou abusar das caixinhas policromáticas hoje. É a pressa. Daqui a pouco tem o “Bem, merdinhas!” no YouTube e não quero atrasar. E também quero ver “Pantanal”. Enfim, não reclamem.
Mas vou caprichar. Tudo com fotos, cores chamativas, piadas sem graça, um verdadeiro show de rescaldo. Antes, porém…
A FRASE DE SILVERSTONE
“Parem de inventar!”
Carlos Sainz
Quando a Ferrari pediu a Sainz pelo rádio, antes da relargada a poucas voltas do final, para deixar entre ele e Leclerc, o líder, uma distância de dez carros, de modo a proteger a liderança do monegasco dos ataques de Hamilton e Pérez, que tinham colocado pneus macios, o espanhol gritou: “Dá para vocês pararem de inventar? Eu estou sob pressão! Acreditem em mim, temos muito mais a perder!”
O parágrafo acima ficou horrendo, cheio de vírgulas, embora impecável do ponto de vista gramatical. Mas não vou mexer, leiam devagar que dá para entender.
A Ferrari pareceu ignorar o fato de que Sainz também tinha pneus macios novos. E que seria uma questão de tempo todo mundo passar Leclerc. Pedir a ele para ficar longe de Charlinho era suicídio. Carlos perderia o vácuo natural do companheiro e seria atacado por Hamilton e Pérez como Levi o foi pelas piranhas depois de tentar pegar a Muda a força. Não deu para o Tibério salvá-lo.
Mattia Binotto disse que não chamou Leclerc para um pit stop quando o safety-car foi acionado porque o time avaliou que os pneus macios de seus adversários iriam se desgastar rápido, e que quando o monegasco tivesse chegado novamente à temperatura ideal de seus pneus duros usados conseguiria segurar o rojão. Errou feio, óbvio. Mas teve mais, no rosário de desculpas ferraristas. Caixinha 1:
CASCATA – Binotto também se defendeu por não ter parado Leclerc alegando que seria difícil fazer dois pit stops com a devida agilidade, já que Sainz entraria nos boxes junto com ele. O espanhol teria de esperar e perderia posições. Conversa. Leclerc tinha 4s7 de vantagem para Carlos naquele momento. Quando o safety-car foi acionado, todo mundo tirou o pé e essa diferença aumentou ainda mais. Dava para Leclerc entrar, fazer uma parada tranquila, verificar água e óleo, jogar uma água no para-brisa, sair, e só então Sainz chegaria esbaforido para seu pit stop. Sem perder tempo nenhum.
DESOLADO – Leclerc, que já desperdiçou pontos importantes no campeonato por bobeadas da Ferrari (como em Mônaco, pedindo para ele ficar na pista quando já tinha entrado nos boxes), reclamou que perdeu muito tempo na corrida, insinuando que a equipe talvez tenha demorado para tirar Sainz de sua frente quando tinha um ritmo bem melhor. Pode ser. De qualquer maneira, procurou ser gentil nas declarações. “Não vou ficar reclamando aqui, não seria justo no dia em que Carlos ganhou sua primeira corrida.” Muito educado. Falando em Sainz, não lembro se mencionei o número ontem, mas lá vai: ele é o segundo espanhol a vencer um GP na história. O outro é Alonso, que ganhou 32 corridas. A última tinha sido em Barcelona em 2013, pela mesma Ferrari.
FOGO AMIGO – Verstappen passou por cima de pedaços da AlphaTauri logo depois de assumir a liderança da corrida, quando a dupla da filial de Faenza se enroscou e ambos rodaram. Tsunoda foi considerado culpado pelo incidente e pediu desculpas a todos na equipe, no Japão, na Itália e nas lojas de roupa da marca. Gasly acabaria abandonando a prova. Max perdeu, segundo cálculos da Red Bull, 20% da eficiência aerodinâmica de seu carro, já que os detritos quebraram o assoalho. Hoje apareceu uma foto dele com o pedaço de carro que arruinou sua corrida na mão. Não parecia muito preocupado. A imagem está logo abaixo das próximas caixinhas.
SCHUMACHER, DEZ ANOS DEPOIS – O oitavo lugar de Mick Schumacher não foi só sua estreia na zona de pontos. Representou também a volta do sobrenome às estatísticas da categoria depois de quase dez anos. Os últimos pontos de seu pai foram marcados com uma sétima posição em Interlagos em 2012, em sua despedida da F-1.
TORCEDOR ILUSTRE – Na dura batalha com Verstappen pelo sétimo lugar, nas voltas finais da corrida, Mick teve um torcedor muito querido e famoso bem perto. Atrás do carro da Haas vinha Sebastian Vettel, guru do menino, que o trata como filho. “Tudo que fiz naquelas voltas foi gritar dentro do capacete: ‘Vai, Mick!'”, contou o tetracampeão da Aston Martin com um enorme sorriso no rosto. Depois da corrida, deu um abraço caloroso no filho de Michael. Foi bem legal.
ZEROU – George Russell não teve como alinhar seu carro no grid para a nova largada porque deixou o cockpit correndo para acudir Zhou, como vimos acima. Daria para correr, tinha apenas furado um pneu. Chegou a voltar ao carro para tentar ligá-lo, mas não conseguiu. Precisaria voltar aos boxes sem auxílios externos para ser autorizado a correr. Enquanto quebrava a cabeça para saber como fazer, chegou uma plataforma e levou seu Mercedão embora. Foi a primeira prova do ano em que Russell não pontuou.
MARATONOU – Ao completar o GP da Inglaterra, Fernando Alonso tornou-se o piloto com a maior distância já percorrida em provas de F-1: 92.643 km, superando Kimi Raikkonen. Ainda perde para o finlandês no número de voltas: 18.621 para Kimi, 18.549 para o espanhol. Em breve será recordista nesse item das estatísticas, também. A F-1 fez a conta. O que Alonso já andou em corridas equivale a 2.195 maratonas e 2,3 voltas na Terra. Que é redonda.
CANA – Pouca gente viu, mas a ameaça de invasão de pista por manifestantes do grupo “Just Stop Oil” prometida na semana da corrida se concretizou. E só não deu uma merda federal porque a prova foi interrompida na primeira volta. Os caras entraram mesmo logo depois da largada e se sentaram no asfalto. Mas naquela altura os pilotos já estavam lentos por causa da bandeira vermelha. Muitos deles reportaram a presença dos amalucados a suas equipes, aflitos, pelo rádio. Alguns acharam que a prova havia sido interrompida por causa deles. Outros não entenderam direito do que se tratava. A polícia informou que prendeu sete invasores. Hamilton, depois da corrida, disse que todo mundo tem o direito de se manifestar. Mas que a forma escolhida pelo grupo não é aceitável. Afinal, coloca em risco a vida de um monte de gente.
O NÚMERO DA INGLATERRA
13
…pódios em Silverstone alcançou Hamilton, recorde de troféus num mesmo circuito. Mas não no mesmo GP. Um desses pódios foi obtido na prova batizada como GP do 70º Aniversário, em 2020 — temporada em que Silverstone sediou duas etapas do Mundial, por causa da pandemia. Deixou Schumacher para trás nas estatísticas. O também heptacampeão subiu ao pódio 12 vezes em três circuitos: Ímola, Barcelona e Montreal. O recorde de pódios para um mesmo GP, disputado sempre com o mesmo nome, pertence ao alemão (San Marino, Espanha e Canadá) e a Hamilton (com 12 taças no GP da Inglaterra). Ficou claro, isso?
JEJUM – E no mesmo dia em que estabeleceu um recorde altamente positivo e impressionante, Lewis amargou uma marca indigesta: sua maior sequência sem vitórias na carreira. Completou 11 provas sem subir ao degrau mais alto do pódio. São as dez deste ano mais a última da temporada passada, em Abu Dhabi.
SUDERJ INFORMA – A organização do GP da Inglaterra contabilizou 400 mil ingressos vendidos para os quatro dias do evento. No domingo, as arquibancadas e gramados de Silverstone receberam 142 mil almas.
PORSCHE JÁ? – A informação é de João Carlos Costa, colega da Sport TV portuguesa: neste fim de semana, na Áustria, Red Bull e Porsche anunciarão oficialmente parceria válida a partir de 2026, quando entra em vigor o novo regulamento de motores da F-1. Aguardemos.
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS muito de ver Vettel dando umas voltas com o Williams FW14B antes da corrida. O carro, campeão de 1992 com Nigel Mansell, pertence a sua coleção particular. Nigel estava lá e, claro, foi matar as saudades da máquina e tietar o piloto. Mansell, durante todo o fim de semana, demonstrou enorme carinho e respeito por todos os pilotos no grid. Aprenda, Nelson.
NÃO GOSTAMOS de Ricciardo. Não há mais o que dizer. Norris foi o sexto colocado. O australiano, 13º. Chegou atrás de Latifi. Já não tem defesa. Nem foto merece mais.
SEMANA DE SILVERSTONE BY MASILI
E para fechar, nosso genial Marcelo Masili resume a semana. Acho que nem precisa de legenda.
