SÃO PAULO (mezzo…) – Ninguém segura o rapaz. Max Verstappen ganhou o GP da Itália mesmo largando da sétima posição e com milhares de fanáticos torcedores empurrando uma Ferrari que partia da pole. A corrida de Monza terminou sob regime de safety-car, com bandeira amarela, após um abandono de Daniel Ricciardo no fim da prova. A remoção do carro foi demorada e as voltas se esgotaram.
Foi a 11ª vitória de Verstappen no ano, quinta seguida, 31ª na carreira – empatou com Nigel Mansell em sétimo lugar nas estatísticas dos maiores vencedores da história. Charles Leclerc, da Ferrari, e George Russell, da Mercedes, fecharam o pódio.
Não foi, exatamente, uma prova inesquecível. Max construiu sua vitória baseado no bom ritmo de corrida da Red Bull frente a uma Ferrari que fez um pit stop precoce e teve de parar uma segunda vez com Leclerc, dando adeus de vez à chance de lutar pela vitória. Mas não seria muito diferente se o time vermelho fizesse apenas uma parada. O holandês e a Red Bull são imbatíveis neste momento da F-1. O safety-car no fim deu alguma esperança à enorme torcida nas arquibancadas. Mas não houve relargada. Regras são regras. Ninguém queria uma repetição das polêmicas do ano passado em Abu Dhabi.
O destaque do dia acabou sendo o Nyck de Vries, em nono com a Williams. O holandês fez sua estreia na categoria, chamado às pressas para o lugar de Alexander Albon. Ontem, o tailandês teve uma crise de apendicite e precisou ser hospitalizado. Campeão da F-2 em 2019 e da F-E em 2021, De Vries marcou pontos já em seu primeiro GP, com um carro ruim e numa circunstância bem complicada. O menino deve, em breve, ser confirmado pela Williams para 2023. É uma escolha fácil.
Cinco pilotos escolheram os pneus macios para a largada: Leclerc, Russell, Verstappen, De Vries e Ocon. Os demais foram de médios para o grid. Max fez uma ótima partida e na segunda volta já estava em terceiro, colocando-se imediatamente na briga pela vitória. Charlinho e Jorginho se mantiveram nas duas primeiras posições. Incrivelmente, nenhuma intercorrência se verificou nos primeiros metros da prova, até a chegada na chicane. Ninguém bateu em ninguém.
Leclerc, Russell e Verstappen se descolaram rapidamente do resto do pelotão. Depois deles, apenas carros com pneus médios: Ricciardo, Gasly, Norris e Alonso. Max jantou – ou lanchou, pelo horário – Russell na quinta volta. À frente dele, o monegasco. A diferença, pouco mais de 2s.
Do povo que foi obrigado a largar do fundão, Sainz era o mais ativo e performático. Saiu de 18º e na sétima volta já estava em décimo. Hamilton seguia lá atrás escutando alguma playlist em seu iPod. Ainda existem os iPods? Não sei, mas eram simpáticos. Vou procurar algum usado para comprar.
O primeiro pit stop do dia aconteceu na oitava volta. Pérez, que estava encaixotado lá no meio do pelotão, parou para colocar pneus duros e saiu dos boxes com o disco de freio da roda dianteira direita em brasa. Seguiu na corrida. Sainz, enquanto isso, continuava dando seu showzinho particular diante da torcida ferrarista – 337 mil ingressos vendidos para os três dias do GP. Na 12ª volta, o espanhol já aparecia em quinto. Aí todo mundo teve de tirar o pé porque Vettel quebrou e o safety-car virtual foi acionado.
Foi a senha para Leclerc parar. Colocou pneus médios. Antes mesmo de sair dos boxes, a bandeira verde foi mostrada. Verstappen não parou e assumiu a ponta. Charlinho voltou em terceiro, 13s atrás do holandês. O problema para ele seria levar o carro até o fim com a mesma borracha. Seu pit stop, originalmente, estava previsto para um pouco mais adiante.
Max e Russell seguiam com seus pneus macios sem perder ritmo. O inglês parou na volta 24 e calçou duros, deixando Verstappen como o único na pista vestindo a borracha mais aderente do fim de semana ofertada pela Pirelli. O chamado para os boxes foi feito na volta 26. Pneus médios foram a escolha da Red Bull.
Na volta à pista, o líder do campeonato tinha 10s de déficit em relação a Leclerc, que reassumiu a ponta. A diferença estava na vida útil de seus pneus. Os de Verstappen eram 13 voltas mais novos que os do ferrarista. Que, pouco antes, havia combinado com a equipe pelo rádio colocar em prática o “plano C”. Qual era o C, ainda não se sabia. Duas paradas, talvez…
De grão em grão, o tourinho do holandês ia tirando a vantagem de Leclerc. Na volta 30, entrava na casa dos 7s. Sainz, terceiro, parou na volta 31 para colocar pneus macios. Voltou em oitavo, ainda sonhando com um pódio. Max continuava firme em sua jornada contra o cronômetro, fazendo melhor volta da corrida uma em cima da outra. Na 33ª, a vantagem de Leclerc mal passava dos 5s. E Charlinho, então, parou na 34. Era o plano C. Colocou pneus macios. Agora ele seria o caçador e Max, a caça.
As últimas 20 voltas do GP italiano apresentavam o seguinte quadro: Verstappen com pneus médios usados contra Leclerc de macios novos. A diferença entre eles era de 19s. Num cálculo simples, o #16 da Ferrari precisaria, até o fim da prova, virar tempos 1s melhores por volta do que o #1 da Red Bull. Conseguiria?
As primeiras voltas não foram muito alvissareiras para os torcedores italianos. Max manteve a diferença na casa dos 20s, e por mais que se esforçasse Leclerc não conseguia reduzir a desvantagem. Atrás deles vinham Russell, Sainz, Pérez, Hamilton, Norris, Ricciardo, Gasly e De Vries, nas dez primeiras posições.
As esperanças de uma reação leclerquiana esvaneceram a dez voltas do fim quando a tabela de tempos, implacável, mostrou que a diferença seria intransponível. Verstappen continuava sólido como uma rocha, 17s à frente. Mais atrás, Sainz se via a 10s de Russell, pneus macios versus pneus duros. Mas também estava difícil. Arrancar um trofeuzinho seria uma vitória para ele, que tinha largado em 18º.
Mas, como sempre, o Inesperado da Silva apareceu. Na volta 48, Ricciardo quebrou e estacionou no acostamento. Um safety-car era inevitável. Russell foi o primeiro a parar e colocou pneus macios, para proteger seu terceiro lugar. Sainz veio em seguida. Verstappen e Leclerc já tinham passado da entrada dos boxes quando o carro de segurança foi chamado, mas não tinham o que fazer. Pararam, também, na volta seguinte.
Nada mudou em termos de posições, mas o pelotão seria agrupado para uma possível minicorrida de duas ou três voltas. Isso se conseguissem tirar o carro de Ricciardo da pista a tempo para fechar a corrida com bandeira verde. Quem estaria mais ameaçado, nas voltas finais, seria Russell, que poderia sofrer um ataque insano de Sainz – com um carro bem melhor. Leclerc, claro, também sonhava em partir para cima de Verstappen para ganhar em casa.
Mas não deu tempo de acontecer nada disso. Até removerem o carro de Ricciardo e reorganizarem o pelotão – o que deveria ter sido feito em Abu Dhabi no ano passado –, a prova chegou ao fim. O problema, explicou a FIA, foi que a McLaren do australiano não entrou em ponto morto e não deu para empurrar o carro. Um trator fez a função, demorada. A última volta foi percorrida atrás do safety-car, com bandeira amarela. Verstappen, Leclerc, Russell, Sainz, Hamilton, Pérez, Norris, Gasly, De Vries e Zhou ficaram com as dez primeiras posições. Um final anticlimático, meio broxante, sem dúvida. Mas que pelo menos seguiu o regulamento.
No pódio, Verstappen foi vaiado pelos torcedores que invadiram a pista. Não deu a mínima. Imbroxável, festejou como de hábito, acostumado que está com vitórias. “Isso não vai estragar meu dia”, disse. “Vou aproveitar o momento.” Com o resultado, o Mundial pode acabar matematicamente na próxima etapa, dia 2 de outubro em Singapura. Verstappen foi a 335 pontos, contra 219 de Leclerc. Pérez, com 210, é o terceiro colocado. São várias combinações possíveis para o título, mas deixemos as contas para depois. Agora, com seis provas para o fim do campeonato, a única dúvida cabível é saber se Max vai bater o histórico recorde de vitórias na mesma temporada — as 13 de Schumacher em 2004 e Vettel em 2013.
Provavelmente, sim.
