SÃO PAULO (é só ler) – Max Verstappen é bicampeão do mundo. Aos 25 anos de idade, o holandês da Red Bull levantou sua segunda taça consecutiva ao vencer o confuso (e curto) GP do Japão na madrugada de hoje em Suzuka. Por causa das condições ruins de pista, muito molhada, a prova teve apenas 28 das 53 voltas previstas.
Depois de uma interrupção de quase duas horas após a largada, a corrida foi retomada quando faltavam 45 minutos para terminar o limite de três horas estabelecido para a conclusão de um GP, contados a partir do horário marcado para seu início. No caso do GP do Japão, pelos horários locais, largada às 14h e fim de conversa às 17h — com um máximo de duas horas de carros na pista dentro desse intervalo. E a corrida foi encerrada quando esse tempo expirou.
As regras da categoria preveem que a pontuação de um GP é integral se for concluído com bandeira quadriculada, mesmo se o número de voltas não atingir o mínimo de 75% da distância original. No caso de uma prova suspensa, aí sim os pontos são distribuídos de forma fracionada, proporcionalmente ao número de voltas completadas. Mas não foi o caso do GP do Japão. Houve uma interrupção e a sequência depois, até estourar o tempo máximo.
Por conta dessas novas regras, percebeu-se alguma confusão assim que Verstappen recebeu a bandeira quadriculada, com Charles Leclerc em segundo e Sergio Pérez em terceiro. Se o resultado final fosse aquele, Max ainda precisaria de um ponto para garantir o título matematicamente. Mas na última volta Leclerc cortou a chicane que leva à reta dos boxes quando se defendia do mexicano e foi punido com 5s em seu tempo total de prova. Caiu para terceiro.
A punição foi decidida rapidamente e anunciada quando Verstappen já dava sua primeira entrevista antes de subir ao pódio. Ficou surpreso com a informação de que era campeão, dada a ele pelo ex-piloto Johnny Herbert, mestre de cerimônias da vez. Assim como muita gente no paddock e nas transmissões de TV, o piloto também achava que não faria todos os pontos da vitória, porque a corrida teve pouco mais da metade das voltas originais. Faltou ler o regulamento novo — que é bastante claro, embora possa ser discutido em sua essência. Não importa. Boas ou ruins, as regras foram cumpridas.
Foi a 12ª vitória de Verstappen na temporada, 32ª na carreira. Nas estatísticas da categoria, ele agora está empatado com Fernando Alonso na sexta posição entre os maiores vencedores da história. Perde apenas para Lewis Hamilton (103), Michael Schumacher (91), Sebastian Vettel (53), Alain Prost (51) e Ayrton Senna (41). Faltando quatro etapas para o fim do campeonato, sua próxima meta será bater o recorde de vitórias na mesma temporada. Essa marca pertence a Schumacher (2004) e Vettel (2013), com 13.
A meteorologia acertou na mosca e a prova de Suzuka começou mesmo com pista bem molhada e chuva intermitente. Não foi a tempestade esperada por muita gente, mas havia água o bastante no asfalto para levantar um spray desgraçado assim que os carros saíram para a volta de apresentação. Aquilo não ia dar certo. Os pneus escolhidos por todos foram os intermediários. E um piloto partiu dos boxes, Pierre Gasly – a AlphaTauri mexeu em tudo que podia para adequar seu carro à condição de piso encharcado.
A largada foi bonita no duelo entre Verstappen e Leclerc — o que se passou atrás dos dois, não deu para ver. A Ferrari #16 patinou menos, mas Max não quis nem saber. Não deixou o monegasco entrar na primeira curva na frente, fez um traçado quase exótico, por fora, e segurou a ponta.
Parecia que a primeira volta seria milagrosamente completada sem incidentes, mas que nada… Vettel e Alonso se tocaram, Albon furou o radiador num toque de Magnussen e abandonou, Zhou rodou, Sainz bateu forte e Gasly arrastou com o bico uma enorme placa publicitária da Rolex — que foi parar no meio da pista com o acidente da Ferrari #55.
O safety-car foi imediatamente acionado e no fim da segunda volta a direção de prova achou melhor parar tudo para recolher mortos e feridos ao longo dos 5.807 m do circuito. Bandeira vermelha e todos orientados a voltar para os boxes.
Verstappen, Leclerc, Pérez, Ocon, Hamilton, Alonso, Russell, Ricciardo, Tsunoda e Schumacher ocupavam as dez primeiras posições quando a corrida foi suspensa. E a chuva começou a apertar. Seria uma longa tarde no Japão, uma interminável madrugada para quem acompanhava a prova pelo horário brasileiro.
Na parada, um piloto em particular estava indignado. Gasly percebeu que com os carros ainda em movimento, embora a bandeira vermelha já tivesse sido mostrada, um caminhão-grua e um trator entraram na pista para resgatar os que tinham ficado pelo meio do caminho. E o caminhão veio trafegando na contramão! As imagens foram aterrorizantes.
Foi inevitável a lembrança do acidente de 2014 com Jules Bianchi, no mesmo circuito. O piloto bateu num trator que resgatava a Sauber de Adrian Sutil e acabou morrendo nove meses depois. “É inaceitável!”, berrou o francês pelo rádio. Os comissários, porém, disseram que o piloto da AlphaTauri é que estava mais rápido do que deveria, a 250 km/h, porque parou no box com o safety-car ainda na pista para trocar o bico danificado pela placa publicitária e saiu em disparada para se juntar ao pelotão. Gasly seria punido por isso — 20s acrescidos ao seu tempo final de prova. Um absurdo do tamanho do mundo. Porque as câmeras on-board de todos os carros, a partir do líder Verstappen, mostraram que o caminhão e o trator entraram na pista antes que eles parassem nos boxes. Todos correram riscos enormes. “Estive a dois metros de perder minha vida!”, protestou Gasly, com toda razão.
A direção de prova chegou a ensaiar um reinício atrás do safety-car 40 minutos após a paralisação, mas logo voltou atrás e suspendeu a relargada, deixando o autódromo num vácuo de informações. Ninguém sabia exatamente o que iria acontecer. A única certeza: se a corrida fosse retomada, todos teriam de usar pneus para chuva forte, por determinação da torre de controle.
Aqui cabe um longo esclarecimento para compreender tudo que se passaria nas horas seguintes. Em 2022, o regulamento mudou para evitar que situações como a do ano passado na Bélgica se repetissem. Em Spa/2021, para quem não se lembra, a corrida não aconteceu, na prática. Mas teve metade dos pontos atribuídos aos dez primeiros porque o diretor de prova, depois de vários adiamentos, autorizou duas voltas atrás do safety-car – suficientes, pelas regras de então, para que o GP fosse considerado formalmente realizado — e suspendeu o evento. O motivo foi o mesmo: excesso de chuva, condições precárias de segurança. Verstappen ganhou, Russell foi o segundo de Williams, Hamilton ficou em terceiro.
As críticas generalizadas do público e da imprensa — além de integrantes das equipes, pilotos, camareiros, mecânicos, cozinheiros, sapateiros, bispos evangélicos, rabinos e padres ortodoxos — levaram a uma revisão das regras. Agora, os pontos distribuídos passaram a ser proporcionais ao percentual de voltas concluídas em relação à distância original. Mas apenas em caso de suspensão da prova e impossibilidade de um reinício. E se o líder não completar pelo menos duas voltas com bandeira verde até a suspensão definitiva, ninguém pontua. Se a corrida não tivesse sido reiniciada até se esgotarem as tais três horas do evento, seria exatamente esse o desfecho do GP japonês.
Ocorre que o GP não foi suspenso, e sim interrompido e retomado mais tarde. Quando o cronômetro regressivo apareceu na tela da TV, ficou claro que a corrida não seria disputada integralmente por causa do limite de três horas para encerrar o evento. Às 17h locais, acontecesse o que acontecesse, todo mundo iria para casa. No caso de um reinício antes disso, a bandeira quadriculada seria mostrada quando se chegasse nesse horário, independentemente do número de voltas percorridas — tipo bar que tem de fechar à meia-noite, esteja você com o copo cheio ou quase vazio. E a pontuação seria integral.
Só que a chuva não dava trégua.
Enquanto esperavam por uma decisão da direção de prova, pilotos como Norris, Pérez, Ocon e Sainz manifestaram, pelas redes sociais, seu inconformismo com as aparições fantasmagóricas do caminhão e do trator na pista. “Inaceitável” foi a palavra mais usada. “Não respeitam a vida dos pilotos nem a memória de Jules”, escreveu Philippe Bianchi, pai do desafortunado francês que era uma das apostas da Ferrari para o futuro quando sofreu o acidente de 2014, correndo pela extinta Marussia. Fãs também disparavam impropérios contra os dirigentes. “Um brinco ou um piercing são perigosos. Um caminhão na pista, não! Tá certo, FIA…”, escreveu um deles no Twitter.
Quando faltavam 58 minutos para zerar o cronômetro, veio a mensagem da direção de prova: o reinício seria autorizado às 16h15 locais, 4h15 pelo horário de Brasília, com largada atrás do safety-car. Seriam, no máximo, 45 minutos de carros andando. Mas se a prova chegasse ao fim das três horas sem nenhum incidente que levasse a uma suspensão, ainda que com muito menos voltas do que as 53 originais, a pontuação seria integral. Os pontos fracionados, é bom reforçar, só são aplicados quando a corrida é suspensa sem possibilidade de retomada — um terremoto que engole os boxes, um disco voador pousando no paddock pilotado por Jean Marie Balestre trazendo Max Mosley vestido de Carmem Miranda, coisas assim.
Como o GP terminou no limite de tempo, não se configurou suspensão alguma. Foram 28 voltas no total. Poderiam ser quatro ou cinco e os pontos seriam concedidos integralmente da mesma forma.
Assim que voltaram à pista, logo nos primeiros metros os pilotos começaram a informar, pelo rádio, que as condições estavam melhores do que antes. Depois de três voltas puxando a fila que ajudava a drenar a água, o safety-car apagou as luzes. A largada, com todos em movimento, seria dada. Na regressiva do relógio, seriam cerca de 40 minutos de corrida de verdade. Um pouco mais que uma Sprint.
E assim foi. Vettel e Latifi nem esperaram a bandeira verde e já foram para os boxes colocar pneus intermediários. Estavam no fim do pelotão. Uma boa sacada, sem dúvida, baseada na sensibilidade de ambos naquele pouco tempo atrás do safety-car. Na volta seguinte, Norris e Bottas fizeram o mesmo. Verstappen e Leclerc, em primeiro e segundo, correram para os boxes na volta seguinte. Quase todo mundo fez a mesma coisa na mesma hora. Os pneus de chuva forte já não eram mais necessários. Os últimos a parar foram Alonso, Ricciardo, Zhou e, bem mais tarde, Schumacher — que apostou, e perdeu, na eventualidade de a chuva voltar forte nas últimas voltas.
Após os pit stops, o holandês disparou na frente de forma assombrosa e rapidamente abriu mais de 5s sobre Leclerc, o segundo. Vettel e Latifi, os primeiros que colocaram intermediários, se deram bem e jogaram âncora em sexto e oitavo — queriam que o mundo acabasse em barranco para morrerem encostados onde estavam. Seria um prêmio pela ousadia. E valeu a pena, como se vê pela classificação final da corrida aí embaixo. O alemão da Aston Martin terminaria em sexto. O canadense da Williams, que largou em último, acabou em nono. E fez seus primeiros pontos no ano, com enorme mérito — era o último do grid.
Mais para trás, Russell era o único que conseguia ganhar posições. Passou Tsunoda e Norris em duas voltas e subiu para nono. Ainda superaria Latifi, para terminar em oitavo. Hamilton, em quinto, perseguia Ocon, mas não conseguia passar o francês da Alpine de jeito nenhum. Dificuldade semelhante tinha Alonso fustigando Vettel. Faltando 15 minutos para o final, Max já corria sozinho, mais de 13s à frente de Charlinho.
Pérez, em terceiro, era quem se aproximava do monegasco. Colou na Ferrari quando o cronômetro zerou. Na última chicane, Leclerc passou direto e voltou ao leito da pista na frente do mexicano. Recebeu a quadriculada 26s atrás de Verstappen, mas acabaria sendo punido com 5s por ter levado vantagem no atalho da chicane — aquela mesma do quiproquó entre Senna e Prost em 1989. Caiu para terceiro, e foi essa punição que deu o título ao holandês. Com o resultado, Max passou a ostentar uma diferença de 113 pontos para Pérez, o novo vice-líder do campeonato. Há 112 em jogo até o fim da temporada.
Ocon terminou em quarto, seguido por Hamilton, Vettel, Alonso, Russell, Latifi e Norris nas dez primeiras posições. A Alpine passou novamente a McLaren e reassumiu o quarto lugar na tabela de classificação. A Red Bull, após mais uma dobradinha, é virtual campeã de construtores. Com 191 pontos em disputa até Abu Dhabi, tem 165 de frente para a Ferrari. Será o quinto título rubro-taurino entre as equipes, o primeiro desde 2013.
Por conta do desconhecimento generalizado e das dúvidas sobre as regras de pontuação adotadas neste ano, a comemoração de Verstappen e de seu time foi, digamos, hesitante. Demorou um pouco para a turma entender que a fatura estava liquidada. Quando teve certeza da conquista, Max abriu um largo sorriso e saiu abraçando seus companheiros. No pódio, foi felicitado pelos colegas. “O primeiro título é mais emocionante, mas o segundo foi mais bonito”, tentou resumir o holandês.
Sim, foi bonito. E fácil. Porque para Verstappen as coisas parecem mais simples do que realmente são. Neste ano, ele ganhou corridas no seco e no molhado, em pistas rápidas e nas mais travadas, largando na frente e partindo de trás, dominando os adversários implacavelmente ou subjugando-os com manobras desconcertantes. Mostrou um repertório vastíssimo, errou pouco, exibiu sua técnica em plenitude, esbanjou talento e maturidade.
Se no ano passado muita gente torceu o nariz para seu primeiro título, pela forma como se deu o desfecho em Abu Dhabi, nesta temporada não há muito mais a fazer além de aplaudir o rapaz. É um desses gênios que só aparecem de vez em quando.
