Blog do Flavio Gomes
F-1

DESÉRTICAS (1)

SÃO PAULO (não se precipitem, mas…) – Seria muito, muito legal se Alonso pudesse lutar por vitórias e títulos neste ano. Desde o primeiro dia da pré-temporada todo mundo diz que a Aston Martin foi a equipe que mais cresceu em relação a 2022. O primeiro dia de treinos para o GP do Bahrein, abrindo […]

Alonso na ponta: será?

SÃO PAULO (não se precipitem, mas…) – Seria muito, muito legal se Alonso pudesse lutar por vitórias e títulos neste ano. Desde o primeiro dia da pré-temporada todo mundo diz que a Aston Martin foi a equipe que mais cresceu em relação a 2022. O primeiro dia de treinos para o GP do Bahrein, abrindo hoje oficialmente o Mundial de 2023, comprovou isso.

Significa que Alonso lutará por vitórias e pelo título? Não. Mas pode-se afirmar, sem muito medo de errar, que ele será um dos protagonistas do ano. O carro da Aston Martin é bom, aparenta ser o segundo melhor do lote ao menos deste fim de semana, e imaginar o espanhol no pódio já no deserto de Sakhir não é viajar na maionese. O que virá depois, ainda é cedo para chutar.

O espanhol lidera no Bahrein: carro bom, piloto ótimo

Stroll também entra nesse pacote de prognósticos? Difícil. O canadense ainda está baleado, como era de se esperar. Deu para ver (e ouvir) que ele teve dificuldades, dores, desconforto, e precisou de ajuda para sair do carro. O pulso ainda pulsa, mas ainda dói. Está 100%? Claro que não. Dá para correr? Parece que sim. O número de voltas que completou hoje ficou na média dos demais pilotos. E fez um bom sexto tempo — mais um indicativo da qualidade do carro aston-mártico.

Alonso evitou grande euforia com o primeiro lugar na sexta-feira. Elogiou o trabalho da equipe e recebeu aplausos de volta do projetista Dan Fallows. “Fernando entende o que acontece com o carro e passa informações que os engenheiros adoram”, disse. “A Aston Martin chegar a uma condição de desafiar os times de ponta é uma questão de tempo”, devolveu o asturiano. “Lawrence [Stroll] tem uma visão vencedora das coisas e é difícil vê-lo falhar”, emendou, como se conhecesse o chefe há séculos. A ver.

E o resto?

Bem, a Red Bull apresentou o que dela se esperava. Bom desempenho, constantemente na ponta, tempos mais do que decentes em longas séries de voltas, uma ou outra queixa de Verstappen, que achou o carro melhor nos testes do que hoje. Nada preocupante. Christian Horner ficou impressionado com a Aston Martin. “Eles estão voando”, espantou-se.

A Ferrari andou exatamente como na pré-temporada, a saber: longe da ponta, sem encantar ninguém. O mesmo pode-se dizer da Mercedes. As duas equipes sabem que estão coisa de meio segundo atrás da Red Bull — e da Aston Martin, por que não dizer?

O pelotão da merda, como a gente costuma falar no automobilismo, está bem povoado com Haas, Alpine, McLaren e Alfa Romeo. A Williams e a AlphaTauri vão disputar garbosamente a lanterna. Eu achava que os carrinhos azuis fossem ficar um pouco mais à frente. Pelo jeito, seguem na rabeira.

Às 19h tem “Fórmula Gomes” lá no meu canal no YouTube. O texto de hoje foi pouco inspirado e sem graça, sei bem disso. Mas como ninguém mais lê blog, acho que a pressa não será notada…

Antes de terminar, porém, algumas palavrinhas sobre Fernando Alonso Díaz.

Aos 41 anos, Alonso ainda é competitivo: carreira longa e polêmica

Quando estreou na F-1, em 4 de março de 2001, Alonso tinha 19 anos. Foi na Austrália, pela Minardi. Desde então foram 355 GPs (é o piloto que mais disputou corridas na história) por seis equipes diferentes, contando a Aston Martin — as outras foram Minardi, McLaren, Renault, Ferrari e Alpine. Trocou de endereço sete vezes, chegou a largar a F-1, correu na Indy, venceu Le Mans, e aos 41 anos olha para o lado e vê um menino como Oscar Piastri, da McLaren, que ainda não tinha nascido quando ele alinhou num grid da F-1 pela primeira vez.

Considerado um piloto muito acima da média, Alonso não tem conquistas proporcionais ao seu talento. Suas 32 vitórias o colocam em sétimo na história da categoria, apenas. São só 22 poles, uma discreta 13ª posição nesse ranking das estatísticas — atrás de nomes nem menos luminosos, como Nico Rosberg e Mika Hakkinen. Os dois títulos conquistados em 2005 e 2006, da mesma forma, o deixam muito distante dos grandes multicampeões como Schumacher, Hamilton, Prost, Fangio e Vettel. Quase ninguém coloca o asturiano nas intermináveis listas de cinco ou dez melhores de todos os tempos.

Acusam-no de fazer escolhas erradas: sair da McLaren para voltar à Renault, jogar âncora na Ferrari, apostar numa volta à McLaren anos depois acreditando nos motores Honda, pular de galho em galho. Por conta dessas idas e vindas, a última vitória de Alonso já tem quase dez anos (2013, na Espanha, pela Ferrari), a última pole está ainda mais longe (2012, também pela Ferrari, na Alemanha), e se não fosse o pódio de 2021 no Catar, estaria desde 2014 sem colocar um trofeuzinho na estante.

Fernando voltou às manchetes em agosto do ano passado, quando se antecipou a todo mundo e se ofereceu para correr no lugar de Vettel, que anunciara sua aposentadoria horas antes. Bagunçou o mercado de pilotos e foi alvo de muita desconfiança. Um cara com mais de 40 estaria em condições de exigir contrato longo, ser tratado ainda como piloto de ponta? Justificaria um salário altíssimo? Estaria com essa bola toda para abrir mão de um lugar garantido, como tinha na Alpine? Teria gás para encarar um projeto novo, de uma equipe ainda trôpega e claudicante, que nunca foi grande? Ainda seria competitivo no meio de garotos de vinte e poucos anos?

A resposta a todas essas perguntas, como estamos vendo, é sim. E que bom que seja assim. Porque Alonso é quem vai dar graça a este campeonato.