Blog do Flavio Gomes
F-1

DESÉRTICAS (2)

SÃO PAULO (no fim das contas…) – Max Verstappen larga na pole para a primeira corrida do ano na Fórmula 1, no Bahrein. Depois de dias de muita expectativa com a aparição repentina de um carro candidato a ser a grande surpresa da temporada, o da Aston Martin, acabou dando a lógica no deserto de […]

Verstappen: 21 poles, lógica no Bahrein

SÃO PAULO (no fim das contas…) – Max Verstappen larga na pole para a primeira corrida do ano na Fórmula 1, no Bahrein. Depois de dias de muita expectativa com a aparição repentina de um carro candidato a ser a grande surpresa da temporada, o da Aston Martin, acabou dando a lógica no deserto de Sakhir: Red Bull em primeiro e segundo no grid.

A Ferrari foi a surpresa do dia, formando a segunda fila. O time italiano fizera uma pré-temporada discreta e ninguém apostava uma moeda de 500 liras nos carros vermelhos. E a Aston Martin, se não decepcionou, também não quebrou nenhuma banca: ficou em quinto com Alonso e oitavo com Stroll. A Mercedes, de quem nada se esperava, teve alguns bons momentos no Q1 e no Q2, mas no fim teve de se conformar com a dura realidade: Russell em sexto a 0s632 da pole, Hamilton em sétimo 0s676 atrás.

O grid completo: no fim das contas, Red Bull na primeira fila

Torcia-se para um desfecho diferente da classificação, porém. Depois de fazer o primeiro tempo no último treino livre, todas as câmeras, celulares, holofotes, polaroides, roleiflex e instamatics se voltaram para os boxes da Aston Martin.

Não para o lado da garagem de Stroll, que ontem foi notícia por seus punhos doloridos e hoje deixou de ser porque as dores não foram fortes o bastante para tirá-lo da corrida. Esse assunto passou. Não sem antes vir à tona nova revelação, feita pelo próprio canadense: ele também quebrou o dedo de um pé. “Não conseguia nem andar”, contou.

Estava todo mundo, mesmo, de olho em Alonso. Uma pole, depois de 11 anos? A última foi na Alemanha, pela Ferrari, em 2012. Por que não?

O treino livre mostrou realmente uma Aston Martin forte, mas não só ela. A Red Bull voltou a andar bem e Mercedes e Ferrari, com tempos interessantes, avisaram que estavam por lá, também, e gostariam de participar do jantar depois da classificação. Mas o cronômetro num treino livre com sol e calor não é referência muito precisa para tentar adivinhar o que aconteceria dali a algumas horas, já com a noite posta e a temperatura mais amena, na casa dos 24 graus e a secular brisa do deserto a refrescar as cucas.

Foi assim que começou a sessão que definiria o grid no Bahrein. No Q1, registre-se que uma bandeira vermelha foi acionada logo no início porque o carro de Leclerc pareceu se desmanchar sozinho, soltando peças por todos os lados.

(Exagero, foi só uma pecinha do assoalho. Arrumaram com esparadrapo.)

Foi uma sessão bem interessante, com todos deixando para registrar seus tempos no final, o que deixou a turma da degola indefinida até a bandeira quadriculada. Entre os passaram ao Q2, muitas surpresas nas posições: Sainz em primeiro com 1min30s993, numa Ferrari, como já dito, que vinha sendo muito discreta desde os treinos da semana passada; Russell em segundo, numa Mercedes idem; Hülkenberg em sexto, com a instável Haas, a equipe favorita da Netflix; e Albon em nono, com a modesta Williams.

Os dois pilotos da Aston Martin avançaram tranquilos, em quarto e quinto — Stroll fez sua volta nos estertores, porque uma anterior havia sido cancelada por exceder os limites da pista. O mesmo pode-se dizer da Red Bull, com Verstappen em sétimo e Pérez em décimo, sem sustos. Algo que chamou a atenção: apenas 0s899 entre Sainz, o mais rápido, e Magnussen, o 17º, já na zona de eliminação. Menos de um segundo! Oh, F-1, como te amamos!

Mas convinha esperar o Q2 e o Q3 antes de comemorar “o equilíbrio jamais visto na história da categoria”. Como todo mundo sabe, ou deveria saber, na parte final da classificação as equipes de ponta ajustam seus motores para atuarem mais ferozes, belicosos, agressivos. E se distanciam da escumalha que só faz número.

Ficaram de fora ao final do Q1: Sargeant (normal), Magnussen (algo aconteceu, já que Hülk ficou em sexto), Piastri (normal, a McLaren será uma bomba neste ano), De Vries (normal, a AlphaTauri vai andar lá atrás) e Gasly (último na estreia com a Alpine, daqui a pouco o fio desencapado começa a espalhar faísca; teve sua melhor volta cancelada, mas não largaria muito na frente, não).

O Q2 mostrou uma Ferrari na frente de novo, para espanto de todos, agora com Leclerc: 1min30s282. Colocou 0s221 sobre Verstappen, o segundo. Passaram, depois deles, Russell, Hamilton, Sainz, Alonso, Pérez, Hülkenberg, Ocon e Stroll, pela ordem. Hulk, em sua volta à F-1, seguia impressionando. A diferença entre o líder e o décimo, 0s845. Mas, agora, com dez carros, e não 17, no mesmo segundo. Oh, F-1, como te amamos, mas nada de inventar um equilíbrio que não existe. Devagar com o andor, que a ânfora é de barro. Eliminados foram Norris, da draga da McLaren, Bottas e Zhou, os dois da Alfa Romeo, mais Tsunoda e Albon.

Leclerc: um jogo novo de pneus guardado

E chegamos ao Q3, sinceramente, sem favoritos muito claros. Antes do nascer do sol no Golfo Pérsico, todos apostariam em Red Bull ou Aston Martin hoje. Mas, ao longo do dia, ofereceram-se ao sacrifício dos deuses do deserto as duplas da Ferrari e da Mercedes, ainda que sob alguma desconfiança. “Por uma pole, cortamos nossos pescoços com adagas sagradas!”, prometeram acólitos com cavalos rampantes e estrelas de três pontas em suas vestes. Por si, isso já era uma boa notícia: ninguém sabia quem faria a pole e nenhum palpite seria dado com muita convicção.

Mas no fim, deu Verstappen. Com uma bela volta em 1min29s708, o holandês conseguiu a 21ª pole de sua carreira. Nem todos os pilotos tentaram duas voltas, para guardar pneus novos para a corrida – a pista é cruel com a borracha. E a Red Bull confirmou seu favoritismo fechando a primeira fila com Pérez a 0s138 do companheiro. Na segunda fila, a surpresa ferrarista formará com Leclerc em terceiro e Sainz em quarto. Alonso, já mencionado, ficou em quinto, frustrando as expectativas dos que ansiavam por uma noite de Cinderela. Ficou a 0s628 da pole. O que não tirou o sorriso do rosto do espanhol. “Top 5 é irreal. Estamos no começo de um projeto, nossa meta aqui era ter os dois carros no Q3, terminar em primeiro seria bom demais para ser verdade, mas estamos na briga com Ferrari e Mercedes, e se tivermos uma chance de pódio amanhã, vamos agarrá-la”, disse.

Russell ficou em sexto, seguido por Hamilton, Stroll, Ocon e Hülkenberg fechando a turma dos dez primeiros. George estava animadinho, até. “Passamos três quartos da temporada passada tentando entender e corrigir os problemas do carro, agora temos um carro que é bom de guiar e é só focar em melhorar sua performance”, falou. Lewis, ao contrário, era a imagem da decepção. “P7? Sabíamos que estávamos atrás, podia ser qualquer número…” Suas entrevistas foram monossilábicas, e traduziam exatamente o que seu chefe Toto Wolff, a metros de distância, dizia: “A diferença para a Red Bull não é ridícula, mas ainda é grande. Não temos chance contra eles na corrida. Que ninguém espere por um milagre. Acreditamos nesse conceito de carro, levamos um ano para fazê-lo funcionar, não é o caso de jogar tudo no lixo, mas temos de ser humildes neste momento. É onde estamos”.

Para Leclerc, lutar pela pole foi “uma surpresa”. “Estamos mais perto que na pré-temporada. Guardar um jogo de pneus novos pode ajudar amanhã”. Pérez, por sua vez, garantiu que na corrida a Red Bull será mais forte. “Nós comprometemos a classificação para preparar o carro para o domingo”, falou. “Normalmente nosso carro é melhor em corrida que em classificação”, concordou Verstappen.

Assim, pode-se esperar amanhã que dê a lógica de novo. Mas que vai ser divertido ver Alonso brigar pelo pódio, e vai, será. E se o espanhol voltar a levantar um troféu, o GP do Bahrein já terá valido a pena.

A corrida começa ao meio-dia, com 57 voltas.