SÃO PAULO (foi divertido!) – Quando o gato sai, os ratos fazem a festa. Acho que é mais ou menos assim, o ditado. Se não for, é parecido. O gato é Verstappen. Os ratos são os outros. E hoje o gato saiu. Saiu no Q2 e não pôde lutar pela pole para o GP da Arábia Saudita, em Jedá. O rato mais parrudo foi Pérez. Ficou em primeiro no grid. O ratão mais veterano também aproveitou a chance. Alonso larga em segundo. Chutou o ratinho Leclerc, que fez o segundo tempo, para 12º. O monegasco já começou o dia punido com dez posições no grid. Russell, Sainz, Stroll, Ocon, Hamilton, Piastri, Gasly e Hülkenberg formam o time dos dez primeiros no grid.
Verstappen quebrou no Q2. Faria a pole com tranquilidade, creio. Seu tempo no Q1, quando as equipes de ponta não usam tudo que seus carros oferecem, seria suficiente para largar em quarto. Imagine o que ele faria no “modo alegria” da Red Bull na última parte da classificação.
Não deu para saber. Quando fazia sua volta rápida no Q2, o semieixo direito de seu carro moeu. É o que chamamos normalmente de “problema de transmissão”. O semieixo transmite para as rodas a potência gerada no motor. Como trucidou tudo, não transmitiu nada. Assim, Max larga em 15º. “Tudo pode acontecer aqui, mas ganhar vai ser difícil”, disse o piloto, tranquilo porque sabe que ainda tem mais de duas dezenas de corridas para arrebentar a concorrência. Em condições normais, ele deve chegar ao pódio. Em condições não tão normais — entenda-se por “não tão normais” eventuais entradas do safety-car, ou ainda alguma desdita que atrapalhe Pérez –, pode até vencer, sim.
Mas o companheiro Checo não é seu único adversário. Afinal, ¡tenemos a Alonso!
“Não estamos aqui para chegar em segundo. Quando um piloto como Alonso larga na primeira fila, certamente não vai para a corrida pensando em terminar em segundo. Quer algo a mais.” O pronunciamento saiu da boca de Mike Krack, um craque (desculpem) na chefia da Aston Martin. Mas seu otimismo foi amenizado pelo próprio piloto. “Não é realista falar em vitória ainda. A Red Bull está em outro mundo”, disse o espanhol. “Mas nosso carro é muito bom, agradável de guiar, e vamos buscar o máximo de pontos que pudermos aqui.”
Alonso acha que Verstappen “sem dúvida” chegará ao pódio. A Aston Martin confirmou hoje ser a segunda força da temporada, com Stroll conseguindo um bom quinto lugar no grid. Errou no final de sua volta rápida e poderia ter conseguido algo um pouco melhor. Abaixo, à esquerda, os tempos. À direita, o grid corrigido com a punição a Leclerc. Clique nas imagens para vê-las em tamanho maior.
A tarefa de Alonso será chegar na frente de Verstappen, já que acha Pérez, no mano a mano, impossível de bater. Ele tem sido contido nas declarações e evita criar grandes expectativas. Mas Fernandinho sabe que o mundo estará torcendo por uma vitória dele amanhã. A Red Bull vencer já enjoou. Pérez é um piloto medíocre e sem graça. El Fodón, aos 41 anos, voltar ao degrau mais alto do pódio seria uma grande história para um fim de semana que parecia condenado à mesmice.
Tanto que Verstappen abriu os treinos livres do sábado de novo na frente, e na frente terminou o Q1. A pole de Max era uma questão de tempo até a quebra de seu carro. Embaralhou as cartas. E mesmo que o resultado seja o de sempre — nova vitória do atual bicampeão mundial –, o enredo desta vez será diferente porque ele terá de partir de 15º do grid.
Tsunoda, Albon, De Vries, Norris e Sargeant foram os eliminados no Q1. A dupla da AlphaTauri não tem muito o que fazer. O carro é ruim. A equipe vive um péssimo momento, dizem que está à venda, o chefe Franz Tost xingou os engenheiros, o clima é uma desgraça. Já na Williams, Albon e Sargeant terão desempenho irregular ao longo do ano, e hoje foi o dia de oscilar para baixo.
A posição de Norris se deve a um erro em sua volta rápida. Lambeu o muro e quebrou a barra de direção. A McLaren deu um sinal de vida, pelo que fez Piastri. Talvez o desastre do desempenho no Bahrein não se repita. Mas não convém acreditar muito, não.
O Q2 tirou da disputa Hülkenberg, Zhou, Magnussen, Bottas e Verstappen. A Haas acha que dá para lutar pelos pontos a partir das posições de seus pilotos. O mesmo dizem os cabras da Alfa Romeo. Pode ser que ali no meio a briga seja divertida.
No Q3, Pérez foi absoluto. A Ferrari até ensaiou alguma coisa com Leclerc, mas sem entusiasmar ninguém porque o piloto teria de pagar punição. O tempo de Alonso não arranhou o do mexicano — quase meio segundo atrás. Não houve, na prática, uma briga pela pole. Haveria se Verstappen estivesse lá. E seria contra seu companheiro de equipe. E Max venceria.
Foi apenas a segunda pole da carreira de Pérez. A outra foi lá mesmo em Jedá no ano passado. Terminou a prova em quarto, sem brilho. Verstappen, que largou em quarto, ganhou.
E os demais? Na Mercedes, reações esquisitas de um e de outro. Russell saiu saltitante do carro parecendo a noviça rebelde cantando “My Favorite Things”. Elogiou o carro, o trabalho dos mecânicos, engenheiros, almoxarifes e porteiros da Mercedes. Larga em terceiro. “Ficar na frente de uma Ferrari e um Aston Martin foi mais do que esperávamos”, exultou, dançando como Julie Andrews. Hamilton, sétimo, foi mais sombrio. “Não consigo me conectar com esse carro”, disse. Tinha as feições do Coringa. Animadíssimo.
A corrida começa às 14h de Brasília. O problema de Verstappen vai ajudar a fazer dela um bom espetáculo. Vamos torcer.
