
SÃO PAULO (valeu acordar?) – O primeiro Sabadão Independente da Sprint dos Últimos Tempos da F-1 não foi assim uma Brastemp.
(Alguém se lembra da expressão “não é assim uma Brastemp”? Agora caiu a ficha – alguém ainda sabe o que é “cair a ficha”? – que o slogan publicitário tem anos, muitos anos, e talvez os mais novos não saibam do que se trata. Pesquisei aqui e vi que esse verdadeiro clássico da propaganda é de 1991 e foi “descontinuado” em 2003, 20 anos atrás, portanto. O bordão foi retomado em 2017 apenas como uma homenagem à grande campanha criada pela Talent, uma das mais criativas agências dos anos de ouro da publicidade brasileira. É possível que muita gente diga isso, hoje, sem saber a origem ou o significado. Assim como “cair a ficha” é algo que para os mais jovens carece de sentido, porque nem orelhão existe mais. Vocês sabem o que é orelhão, né? Bom, “não é uma Brastemp” é isso aí, é um troço OK, legalzinho, mas que não é… uma Brastemp, uai.)
Arriscaria dizer que a classificação bem cedinho, às 5h30 de hoje pelo horário de Brasília, foi melhor que a Sprint. Tudo teve de ser feito muito rápido e por isso a atividade de pista ofereceu algum frenesi — com tráfego, ansiedade, busca por uma volta rápida a qualquer custo, erros possíveis a cada esquina dobrada. Sessões de classificação, para pilotos, são quase como uma prova de virilidade. “Olha aqui como eu consigo ser mais rápido que você. Numa volta só, tu não amarra minha sapatilha!” É mais ou menos assim.
A sessão que forma o grid da Sprint se chama Shootout, dividida em três partes: SQ1 de 12 minutos, SQ2 de dez e SQ3 de oito. No final da primeira Sargeant bateu e, mais tarde, a Williams decidiu que ele nem participaria da provinha horas depois – não daria para arrumar o carro. O que se viu no SQ1, com todos usando obrigatórios pneus médios novos, foram baterias de cinco ou seis voltas sem parar. O mais rápido foi Leclerc com 1min42s820 e os eliminados, Zhou, Bottas, Tsunoda, Gasly e De Vries.
O SQ2 mais curto também foi disputado com todos usando pneus médios – a regra é essa – e Verstappen ficou em primeiro com 1min42s417. A degola ceifou Piastri, Hülkenberg, Ocon, Magnussen e Sargeant, que tinha passado da primeira fase, mas ficou sem automóvel disponível e, como se sabe, não pode pegar outro emprestado.
Um dos que foram ao SQ3, Norris, nem saiu para a pista na terceira parte. Isso porque, de novo pelas novas regras, nessa fase do Shootout é obrigatório o uso de pneus macios novos. A McLaren tinha usado todos os macios disponíveis. O mesmo aconteceria com Tsunoda, da AlphaTauri, se chegasse lá. É meio ridículo, mas é assim. Leclerc, que fizera a pole para o GP na véspera, acabou fazendo também a pole da Sprint com 1min41s697. Pérez ficou em segundo a 0s147 e Verstappen foi o terceiro. Fecharam os dez primeiros Russell, Sainz, Hamilton, Albon, Alonso, Stroll e Norris, este sem tempo.
Em relação ao grid que saiu na sexta-feira, seis pilotos ficaram na mesma posição – Leclerc, Stroll, Sargeant, Zhou, Gasly e De Vries. Cinco melhoraram e nove pioraram. Charlinho, logo depois de cravar o melhor tempo, conseguiu bater de leve no muro, quebrando o bico do carro. Nada grave.
Ninguém estourou champanhe na Ferrari pela pole de Leclerc na Sprint, assim como nenhum chefe de equipe foi demitido depois da classificação por conta de um mau resultado inesperado. Foram todos almoçar tranquilamente.
Quem resolveu mexer nos carros, que ficam tecnicamente “confinados” em regime de Parque Fechado, pagou por isso. Ocon, por exemplo, teve a configuração de suas suspensões alterada, o que resulta em punição, e teria de largar dos boxes. A Aston Martin, às voltas com uma nova asa móvel que não abre direito, não podia desmontar o equipamento para arrumar, nem trocá-lo. Há limites estabelecidos pelo regulamento daquilo que pode ou não pode ser feito em Parque Fechado.
E, finalmente, chegou a hora da Sprint. Grid montado, notou-se que apenas dois dos 19 que largariam para a corridinha foram de pneus macios, contra médios de todos os demais.
Leclerc e Pérez partiram bem e mantiveram primeiro e segundo lugares. Nos primeiros metros, Verstappen e Russell trocaram tinta, foram se batendo e ofendendo as respectivas famílias por algumas curvas e o inglês da Mercedes, sem muito a perder, ganhou a posição do holandês. Este reclamou bastante pelo rádio do comportamento do colega. “Ele é muito educado fora da pista, nos jantares, nas entrevistas, mas aqui me pareceu um tanto rude”, disse o piloto da Red Bull ao seu engenheiro.
(Na verdade, como as conversas de rádio têm de ser mais curtas por motivos óbvios, Verstappen falou apenas “manda esse arrombado se foder, filho da puta do caralho!”, o que no código das comunicações da F-1 significa exatamente a frase anterior. Por isso, nada de julgar o rapaz, é apenas a necessidade de falar menos, daí o uso de algumas expressões que podem parecer impróprias.)
Na segunda volta, um pneu de Tsunoda descolou da roda e fez-se necessária a intervenção do safety-car virtual. O japonês conseguiu voltar aos boxes e colocar pneus novos, mas saiu com o carro todo torto, andando de lado. Como se arrastava pela pista e em alguns pontos havia pedaços de carro espalhados, resultado das refregas da primeira volta, o safety-car real foi chamado para permitir a limpeza e a remoção dos detritos. A AlphaTauri foi multada por devolver seu piloto à pista sem a menor condição.
O reinício aconteceu no final da quinta volta. Max espumava atrás de Russell e tentaria o bote na relargada, graças ao vácuo que a enorme reta de Baku permite. Foi o que fez. “Chupa, almofadinha!”, berrou dentro do capacete – pena que o rádio estava desligado, mas foi possível fazer a leitura labial. Espertos, Sainz e Alonso passaram o sonolento Hamilton, que caiu de quinto para sétimo. Estava bocejando, na hora, pensando no que iria postar no Instagram mais tarde.
Leclerc se mantinha na ponta com Pérez na cola e Verstappen um tiquinho mais distante. A corrida era curta, 17 voltas, todos sabiam disso, daí a pressa de, havendo a intenção de fazer alguma coisa, não procrastinar muito. E na volta 8 o mexicano jantou Charlinho com guacamole e sour cream. Max, pertinho, viu que foi fácil. Mas não se animou muito para fazer o mesmo. Demorou para alcançar a Ferrari #16 e se colocar em condições de ultrapassar. Além do mais, seu carro estava todo arrebentado pelos toques com Russell no início.
Mais atrás, nada de relevante acontecia. Na volta 12, Stroll passou Albon e entrou na zona de pontuação da Sprint – oitavo lugar. Só. Os demais estavam longe para sonhar com pontos. Andavam próximos entre eles, é verdade, mas não arriscavam nada para não dar trabalho aos mecânicos em caso de uma batida besta. Ninguém atacava com apetite. Ninguém se defendia com sofreguidão.
Foi uma minicorrida protocolar e burocrática. Nem comemorar direito a Red Bull e Pérez, o vencedor, comemoraram. O mexicano recebeu a quadriculada mais de 4s à frente de Leclerc, que por sua vez viu Verstappen em terceiro a 0s6. Russell, Sainz, Alonso, Hamilton e Stroll fecharam o grupo dos oito primeiros.
O melhor do sábado foi o breve encontro entre Verstappen e Russell já no Parque Fechado. O carro de Max tinha um rombo na lateral causado pela Mercedes #63. Foi tirar satisfação com Jorginho, que passava por ele. “Porra, tu é cego? Não me viu? Tá louco? Fazer tanta merda na primeira volta? Cuzão!” As palavras não foram exatamente essas, talvez tenha ocorrido um pequeno erro de tradução aqui ou ali, mas consegui apurar que Russell, ainda que tenha sido difícil escutar tudo porque ele estava de capacete, respondeu: “Ora, ora, meu jovem nederlandês… Vivemos momentos dramáticos em nossa equipe, precisamos recuperar a autoestima perdida no ano passado com um projeto equivocado que inexplicavelmente teve sequência nesta temporada, o que fiz foi apenas pensando nas centenas de pessoas que trabalham conosco, algumas muito agradáveis e camaradas, de várias nacionalidades e etnias, uma vez que respeitamos a diversidade, todas certamente muito esforçadas e talentosas. Saiba que lhe admiro muito, reconheço seu elã e espírito competitivo, algo que muito me apetece, e se porventura, desafortunadamente, prejudiquei o amigo enfiando uma piroca gigantesca na lateral de seu veículo, pau no seu cu”.
Virou as costas e foi embora.
Na entrevistinha pós-corrida, a repórter da F-1 perguntou a Verstappen se aquele breve colóquio havia esclarecido as coisas. “Não esclareceu nada, não. Não entendo por que tem gente que se arrisca tanto na primeira volta. Ele disse que estava de pneus frios. Na primeira volta está todo mundo sem aderência, de pneus frios, mas tudo bem. Ele aprende com o tempo. É o que é, tem um buraco no meu carro, ficou feio, mas agora vamos pensar na corrida de amanhã.”
Funcionou a primeira Sprint autônoma da história da humanidade? Não. A corridinha foi ruim e nada do que a Liberty previa aconteceu – ninguém saiu feito louco atrás de um oitavo lugar.
Mas não funcionou porque o formato é ruim ou porque a pista não ajudou?
Acho que os dois. A prova não embaralha mais o grid do GP de verdade, portanto ninguém carrega drama nenhum para o dia seguinte. Quem não quer drama amanhã não faz cagada hoje, é o que sempre digo. Não quer acordar de ressaca, não bebe. A pista é muito longa, os carros se espalham rápido, há uma cautela natural por causa da proximidade dos muros e tal. Talvez a melhor definição do que vimos hoje tenha sido a de Hülkenberg: “A Sprint é o nosso treino de ‘long runs’. Não pode mexer em nada por causa do Parque Fechado, então é um pouco frustrante”. “Long runs”, como vocês sabem, são aquelas séries longas de voltas que os pilotos normalmente fazem no segundo treino livre, às vezes no terceiro, para acertar seus carros para a corrida.
Serão seis dessas Sprints no ano. Faltam cinco. Como diria Glória Pires, ainda não consigo opinar. Mas, numa primeira olhada, meio de mau humor, não curti muito, não. Falando português bem claro, achei uma porcaria.
Ah, o embate Russell x Verstappen, talvez vocês queiram saber o que achei. Não achei nada, não aconteceu nada, coisa normal de largada. Max não gosta das Sprints e anda com um humor parecido com o meu. “Junta tudo e joga fora”, respondeu, quando perguntaram se tinha sido um sábado agradável.