Peço perdão à minha meia-dúzia de leitores pelo horário. Tivemos um problema técnico nos servidores do blog (ficam nos EUA) que só agora, quase meia-noite, foi resolvido.
SÃO PAULO (errar é humano, mas é melhor errar menos…) – Sergio Pérez, quem diria… Está nas nuvens, o mexicano. Graças a um erro de Max Verstappen — raro, incomum,
fortuito, insólito, inaudito, ocasional –, Checo fez a pole para o GP de
Miami, a quinta etapa do Mundial de F-1, no estacionamento do estádio dos
Dolphins. O holandês, líder do campeonato, bobeou em sua primeira tentativa de
fazer tempo, deu uma rabeada numa curva de alta, abortou a volta e estava prestes a abrir sua segunda “flying lap” quando Charles Leclerc bateu de novo, motivando
uma bandeira vermelha e encerrando a classificação. Sem tempo de volta, Max
larga em nono.
Checo já tinha um tempo bastante aceitável, e com ele assegurou sua segunda
pole no ano. Lembremo-nos de que vem de duas vitórias no fim de semana passado,
uma na Sprint e outra no GP do Azerbaijão. Nessa posição, com Verstappen bem
atrás no grid, é o favorito para ganhar mais uma. Fernando Alonso larga em
segundo. A segunda fila tem Carlos Sainz, da Ferrari, e Kevin Magnussen, da
Haas. Um milagre do dinamarquês.
Feita a introdução, segue o relato literário do sábado em Miami.
Com 29°C, nuvens no céu e menos gente do que os organizadores gostariam nas
arquibancadas, o Q1 começou com Ferrari e Aston Martin paradinhas nos boxes
enquanto os outros iam para a pista. Pista, diga-se, com todo respeito, mas sem
papas na língua, de merda: asfalto escorregadio e sujo, traçado sem imaginação,
a chatice que combina com a cidade. “Ah, você não gosta de Miami, por que você
não gosta de Miami? É tão linda, tem outlets!” Não, não gosto de Miami, acho
uma merda, quente, úmida, e caguei para os outlets.
A Ferrari saiu depois de alguns minutos e os astonmárticos foram os últimos
a registrar tempos. De cara Alonso se colocou em quarto. Quem tomou um susto
meio esquisito foi Hamilton atrás de Magnussen. Vinha rápido, a Haas na frente
muito lenta, Lewis sem saber direito o que fazer, foi no muro e lambeu a
proteção com o lado esquerdo de seu carro.
Depois de algumas voltas opacas, Verstappen fez 1min27s363 e enfiou quase
0s4 em Pérez, para deixar claro que, ali, quem mandava era ele. Pelo menos até
aquele momento. Leclerc, que estava todo feliz em primeiro até minutos antes,
viu seu tempo ser pulverizado em meio segundo. A três minutos do fim, drama
mesmo vivia a Mercedes, com seus dois pilotos fora da zona de classificação, em
16º e 17º. Para não falar da McLaren, com as duas últimas posições.
No fim, os mercêdicos passaram. Mas a dupla papaia ficou. Norris, Tsunoda,
Stroll, Piastri e Sargeant foram os eliminados. Desastre ianque: Sargeant, o
único do país que disputa o Mundial, e a equipe dirigida pelo americaníssimo
Zak Brown, que faz muita espuma e apresenta poucos resultados. A Haas salvou a
América. Houve surpresas, aí. Stroll, com a vice-líder Aston Martin? Os dois da
McLaren, mesmo Norris? Sim, surpreendente. Lance explicou depois que a equipe
fez uma ligeira bobagem, colocando pneus usados em seu carro. Foi igualmente
espantosa a passagem de De Vries para o Q2, ele que está na marca do pênalti e
vinha ocupando, com louvor, o último lugar em vários momentos dos treinos.
Ganhou uma sobrevida.
No Q2, Leclerc foi o primeiro a baixar de 1min27s, com 1min26s964. Mas
Verstappen foi ainda melhor, com 1min26s814 — que viria a ser o melhor tempo
do fim de semana, melhor mesmo do que a pole de Pérez. E o roteiro da xepa do
Q1 se repetiu, com a dupla da Mercedes deixando para os últimos minutos a
tarefa de passar ao Q3. Russell se virou e conseguiu avançar na bacia das
almas, em décimo. Lewis ficou em 13º, patético. Pela ordem, os degolados: Albon,
Hülkenberg, Hamilton, Zhou e De Vries. Duas surpresas: Bottas em sétimo e
Magnussen em nono. Foi a primeira passagem da Alfa Romeo ao Q3 no ano.
Na fase decisiva, Verstappen abortou sua primeira volta quando cometeu o já
mencionado e inabitual erro, deixando para Pérez o melhor tempo da primeira
bateria de voltas voadoras: 1min26s841. Leclerc também deu uma esfregada no
muro e não conseguiu um tempo bom. A três minutos do final, o holandês foi para
a pista de novo. Não tinha tempo registrado, ainda. Àquela altura, qualquer
coisa já seria lucro, pressionado que estava. Mas, então, a menos de dois
minutos da quadriculada, Leclerc bateu de novo. Ah, Leclerc… Bandeira
vermelha. E a direção de prova, com 1min36s de tempo restante para o fim da
classificação, foi rápida e avisou: a sessão não seria reiniciada, já que
ninguém conseguiria, mesmo, abrir volta.
Assim, Pérez garantiu a pole, apenas a terceira de sua carreira (as outras
duas foram em Jedá, ano passado e no começo desta temporada). Com Dom Fernando
Alonso El Fodón de la Primera Fila em segundo, para gáudio dos quarentões. Na
segunda fila, dois motores Ferrari: o de Sainz em terceiro e, creiam, o de
Magnussen, da Haas, em quarto. Gasly, Russell, Leclerc, Ocon, Verstappen e
Bottas fecharam o grupo dos dez primeiros.
Max em nono será bem divertido. Se ontem ele colocou ordem na casa e em
todos os treinos até o Q3 dominou o fim de semana, na hora H deu tudo errado.
Agora, corre o seríssimo risco de sair da Flórida na vice-liderança do
campeonato, porque Checo não tem nada com isso. Seis pontos atrás na
classificação, se vencer termina o domingo no Taco Bell comemorando a ponta na
tabela de pontos. O que deixaria o garoto enxaqueca injuriado, certamente.
A corrida começa às 16h30. Façam aí suas apostas: em qual volta Verstappen
estará em segundo? E o que acontecerá depois? Resumo da ópera, uma prova que
prometia bocejos pode acabar sendo bem melhor que a encomenda.
