SÃO PAULO (deu dó) – Max Verstappen, seu malandrinho… Precisa fazer isso? Enfiar quase meio segundo no segundo colocado numa pistinha de voltas tão curtas? Não basta ganhar, fazer poles, conquistar títulos? Precisa sapatear sobre todo mundo?
Bom, mesmo se não for intencional, é o que o holandês da Red Bull está fazendo. Com 1min12s272, Max fez a 24ª pole de sua carreira e empatou nas estatísticas com Nelson Piquet e Niki Lauda. O segundo no grid, Carlos Sainz, ficou 0s462 atrás. É sua melhor posição de largada no ano. Lando Norris, o terceiro, terminou a mais de meio segundo de distância. Também conseguiu seu melhor grid de 2023.
Se nada de estranho acontecer, Verstappen ganha amanhã o GP da Espanha sem muito esforço. As chances dos adversários até existem, mas dependem de alguns fatores que fogem de seu controle. Um porre de sangria hoje à noite, por exemplo, e uma ressaca devastadora. Mas Max não tem esse hábito. No máximo, vai jogar videogame à noite depois do jantar. Que se for no Sete Portes, um restaurante caça-turistas na Barceloneta, pode lhe dar uma dor de barriga. Mas não será. Provavelmente vai pedir um misto quente no quarto para dormir cedo. Um assalto nas Ramblas seguido de sequestro e pedido de resgate? Essas coisas não acontecem assim com frequência na capital da Catalunha, ao contrário. A cidade é segura, desde que você não deixe sua carteira em cima da mesa no calçadão enquanto vai ao banheiro. Perder a hora amanhã, ficar preso no trânsito? Não, a corrida é de tarde, dá para fechar a conta ao meio-dia que chega a tempo para a largada. No nosso horário, às 10h.
Resta a chuva. Que hoje deu as caras nas primeiras horas da manhã, molhou a pista e prejudicou o terceiro treino livre. Este não serviu para nada porque, depois que Logan Sargeant rodou, a sessão foi suspensa, a chuva apertou, deixou o asfalto molhado e poucas voltas foram completadas.
Mas parou depois da corrida de F-2, e foi nesse chove-não-molha que começou a classificação, com asfalto já seco e todos, pois, com pneus macios. Ainda havia água aqui e ali, é verdade, especialmente nas zebras e em alguns trechos um pouco úmidos que demandavam alguns cuidados. Não por outro motivo, Tsunoda, Alonso, Albon e Bottas rodaram, passearam na brita, não atolaram, voltaram. Os primeiros tempos anotados ainda não eram muito emocionantes, entre 1min14s e 1min16s.
Com tantos passeios pelas áreas de escape, que em Barcelona não são asfaltadas (exigência da MotoGP, que também faz corridas por lá), a direção de prova resolveu interromper o Q1 para limpar a pista, faltando 14min13s para o final. Apenas sete pilotos haviam registrado voltas e Gasly era o mais rápido. Um exército de vassouras se espalhou pelo circuito.
Faxina feita, sessão retomada, a preocupação de todos se voltava para o céu. Pingava de leve. Não o suficiente para exigir uma troca de pneus, mas o bastante para que o circuito fosse considerado, pela direção de prova, “tinhoso”. Como vocês sabem, se a direção de prova determina que a pista está “wet”, todos são obrigados a usar pneus de chuva. Não era o caso, porém. Quando o estado é definido como “tinhoso”, cada um usa o pneu que bem entender.
Do jeito que dava, Verstappen fez uma boa volta em 1min13s660 e depois baixou para 1min13s615 “antes que o céu desabe sobre nossas cabeças”, como disse, citando Abracurcix. Não foi exatamente o que falou, mas sigo em minha cruzada permanente para interpretar comunicações de rádio entre pilotos e equipes.
A sessão estava confusa, com pilotos que costumam avançar sem maiores problemas sendo atrapalhados pelo tráfego e pelo destino. Eram os casos de Pérez e Leclerc, que estavam fora do Q2 nos últimos minutos. A pista, sem chuva, melhorava claramente. Gasly, Hülkenberg, Norris e Hamilton foram fechando voltas muito rápidas e, em algum momento, assumiram a ponta. Pérez fez uma tempo mequetrefe e se safou, em 15º. Com 1min12s937, Lewis fechou o Q1 em primeiro, seguido por Norris e Russell. E, no grupo dos eliminados, apareceu uma Ferrari.
Pois é, Leclerc acabou em 19º, uma vergonha gigantesca para o time italiano. Bottas, Magnussen, Albon e Sargeant fora os outros degolados. Charlinho, pois, teria de largar na última fila. O que houve? Saberemos adiante neste mesmo texto, que obviamente foi sendo escrito na medida em que os fatos se sucediam na Catalunha, em tempo real.
Aqui valem parênteses, antes de seguir. Alonso, esta figura cada vez mais divertida, percebeu que Gasly atrapalhou Verstappen e entrou no rádio para… orientar os comissários esportivos! “Isso aí dá três posições no grid”, decretou. El Fodón é profundo conhecedor do regulamento. Se fosse parlamentar, seria uma espécie de José Genoíno, o cara que mais entendeu de regimento interno da Câmara dos Deputados na história. Fecho os parênteses. Poderia ter aberto e fechado com os próprios, mas curto esse estilo de interromper a leitura fluida e ritmada para dizer ao leitor: aqui valem parênteses. O leitor fica puto. Gosto de deixar o leitor puto.
Começou o Q2, e antes que as primeiras voltas fossem fechadas Leclerc apareceu na zona mista para dar entrevista. Resumidamente, falou que havia alguma coisa errada com seu carro. Achou que podiam ser os pneus, não eram. Talvez algo quebrado atrás. Disse que nas curvas para a esquerda o automóvel se comportava de maneira esquisita. Lembrou da infância dura nos morros monegascos. Dos tempos em que, na escola, sofria bullying por causa das bochechas rosadas. “Eles me chamavam de Rosinha”, contou. Mas e o carro, afinal, o que tinha?, insistiram os repórteres. “Vocês não sabem o que passei…”, continuou Leclerc, o olhar perdido no horizonte. “Chutaram minha mochilinha. Tinha um iogurte, quebrou o potinho, sujou meus cadernos. Eu, que era tão caprichoso, com meus cadernos sujos de iogurte… Como ia explicar aquilo à minha mãe?” A entrevista acabou e os jornalistas desistiram de descobrir o que aconteceu com o carro.
Enquanto isso, o pau comia na pista. Verstappen enfiou 1min12s760 na sua primeira tentativa, um ótimo tempo. Não pingava mais nada. O asfalto estava totalmente seco e ia emborrachando rapidamente. Hamilton subiu para segundo. Alonso, para terceiro. Norris, Sainz, Piastri Ocon… A lista dos que melhoravam suas voltas era robusta. Então, nos últimos instantes, Pérez foi para a brita, colocando sua passagem ao Q3 em risco. Com pneus sujos, abriu outra volta. E não deu. Mais um vexame do mexicano. Ficou em 11º. Russell, Zhou, De Vries e Tsunoda foram para o purgatório com ele. Pilotos de sete equipes diferentes passaram ao Q3: Red Bull, McLaren, Mercedes, Alpine, Ferrari, Aston Martin e Haas.
Aqui, mais um par de parênteses. Num momento dos mais intrigantes do Q2, Hamilton e Russell se encontraram no final da reta dos boxes. George aparentemente não viu o companheiro, que vinha descendo o cacete. Se tocaram. A asa dianteira de Lewis foi danificada. Foi algo bem estranho. George explicou que tudo não passou de um mal-entendido. Havia uma Ferrari de um lado, Hamilton de outro, ele se atrapalhou, faltou comunicação, aquelas coisas.
Enquanto pedia desculpas nas entrevistas, começou o Q3 com Verstappen cravando 1min12s272 logo de cara. Era um tempo inatingível. Quem tinha problemas era Alonso. O otimismo do início do fim de semana se esvaiu com um desempenho abaixo do esperado dos carros verdes, aliado a uma melhora perceptível da Mercedes em relação à ximbica do começo da temporada. Fernandinho também ganhou adversários inesperados, como Norris, Hülkenberg e a dupla azul da Alpine, todos na briga pelas migalhas que Verstappen deixaria para os rivais. Quando Alonso saiu para sua primeira volta rápida, a sessão já estava no final. Teria de encontrar um tempo decente para, pelo menos, se colocar nas duas primeiras filas.
Não conseguiu. Aliás, fez sua pior classificação no ano e terminou com o nono tempo. “Desta vez, um pódio vai ser difícil. A meta é chegar entre os cinco primeiros”, analisou, realista. E assumiu a culpa: o passeio na brita no início da classificação danificou o assoalho de seu carro. A Aston Martin teve de remendar a peça toda com silvertape.
Verstappen não precisou nem fechar uma segunda volta para registrar sua quarta pole no ano. Sainz, piloto da casa que goza da mais constrangedora indiferença de sua torcida – são todos alonsistas –, parte ao seu lado na primeira fila. Em terceiro, uma grande surpresa: Norris, da McLaren. Na sequência vieram Gasly, com ótimo desempenho, Hamilton, num aceitável quinto lugar, Stroll, batendo Alonso pela primeira vez no ano, Ocon, Hülkenberg, Fernandinho (em nono, a 1s235 da pole) e Piastri.
Algumas horas depois da classificação Gasly foi punido com a perda de seis posições no grid, caindo de quarto para décimo — um pecado. Ele atrapalhou Sainz e Verstappen em voltas rápidas ao longo da sessão. Assim, Hamilton subiu para quarto e os demais, até Piastri, ganharam uma posição cada.
Como de hábito, Barcelona deve exigir pelo menos duas trocas de pneus em condições normais de temperatura e pressão. Com alguns carros teoricamente rápidos largando mais atrás — Alonso, Pérez, Russell e Leclerc –, talvez até tenhamos alguma diversão, Verstappen à parte. A possibilidade de chuva durante o dia é razoável, mas não necessariamente na hora da prova. Oremos.
