Blog do Flavio Gomes
F-1

CANADA WET (3)

SÃO PAULO (e não tem problema algum) – Max Verstappen = Ayrton Senna. O holandês acaba de empatar em número de vitórias com o brasileiro. São 41, com a de hoje no Canadá. Mas vou começar com uma opinião impopular. Creio que Verstappen, com todas as ressalvas que devem ser feitas quando se trata de […]

Corrida perfeita: Verstappen vence pela 41ª vez na F-1

SÃO PAULO (e não tem problema algum) – Max Verstappen = Ayrton Senna. O holandês acaba de empatar em número de vitórias com o brasileiro. São 41, com a de hoje no Canadá. Mas vou começar com uma opinião impopular. Creio que Verstappen, com todas as ressalvas que devem ser feitas quando se trata de comparar atletas de eras distantes, é um piloto melhor, mais completo e preciso que o tricampeão morto em 1994. Hoje, em Montreal, venceu pela sexta vez em oito etapas neste ano. Igualando Senna, se coloca na quinta posição entre os maiores vencedores da história. Perde apenas para Hamilton (103), Schumacher (91), Vettel (53) e Prost (51).

Na entrevista pós-GP, conduzida pelo ex-piloto Jenson Button, Max não falou uma palavra sobre o assunto. Celebrou, isso sim, o fato de ter sido o responsável pelo 100° triunfo da Red Bull, equipe que o tirou da escola aos 17 anos para enfiá-lo num carro de corrida. O time, que estreou em 2005, junta-se agora a Ferrari (242), McLaren (183), Mercedes (125) e Williams (114) no clubinho dos que chegaram aos três dígitos em número de vitórias.

Max tem apenas 25 anos e muita estrada pela frente para inflar suas cifras, quem sabe até se tornar o maior de todos os tempos, se estiver disposto a isso. Ele mesmo já disse que não se vê correndo à beira dos 40, como Hamilton, ou depois disso, como Alonso. Os dois, aliás, estavam no pódio com ele hoje no Canadá, Fernando em segundo, Lewis em terceiro.

Vamos à corrida?

Largada em Montreal: Hamilton janta Alonso

O melhor da largada foi Hamilton, que pulou à frente de Alonso para ganhar a segunda posição. O que ajudou Verstappen, que não teve de se preocupar com ataque de ninguém. Começou tranquilo seu passeio pela ilha de Notre-Dame, num domingo agradável, de sol entre nuvens e 19°C de temperatura. Bem diferente da chuvarada de ontem, que deu uma embaralhada no grid.

O primeiro incidente do dia foi o abandono de Sargeant na oitava volta, o que fez com que fosse acionado o safety-car virtual. Durou poucos segundos e o bonde foi retomado sem maiores problemas. Max liderava com tranquilidade, mais de 3s à frente de Hamilton, com Alonso em terceiro perturbando o inglês. Russell também vinha perto, fazendo do trio um sanduíche com duas fatias de pão preto da Mercedes envolvendo folhas de alface da Aston Martin. Sanduíche horrível, diga-se; pão com alface não chega a ser uma iguaria.

Gasly, na volta 11, foi o primeiro a parar nos boxes para trocar pneus. Ele era o único no grid com pneus macios. Quatro largaram com duros: Pérez, Magnussen, Bottas e Tsunoda. Os demais, com médios.

Max de médios na largada: pit stop no safety-car, corrida tranquila

Na volta 12, safety-car de verdade. Russell bateu sozinho no muro e Verstappen correu para os boxes para trocar pneus. Hamilton, Alonso e quem mais estivesse passando por ali fez o mesmo. Colocaram pneus duros. Nem todos pararam, porém. A dupla da Ferrari e Pérez, por exemplo, ficaram na pista.

George conseguiu levar seu carro todo estropiado aos boxes, os mecânicos deram uma olhada, trocaram pneus e bico, fizeram balanceamento e alinhamento, e disseram ao rapaz: “Volte, meu caro. E pare de se desculpar!”. Sim, porque da hora da batida até chegar à garagem, Russell não parou de dizer “sorry” pelo rádio. Caiu para último. Mas tudo bem, estava na corrida.

Nessa parada, Hamilton foi liberado pela Mercedes de um jeito meio apressado, assustando Alonso, cujo pit stop foi ligeiramente mais rápido. O espanhol, claro, reclamou. A direção de prova informou: “Nós percebemos! Vamos investigar! Esperem pelo pior!”.

Era só jogo de cena, ninguém foi punido.

A relargada aconteceu na volta 17 com Verstappen, Hamilton, Alonso, Leclerc e Sainz nas cinco primeiras posições. Pérez, Magnussen e Bottas vinham na sequência, sem pit stops, como os ferraristas. Mas com a diferença de que tinham largado com pneus duros, para esticar mesmo o primeiro stint. Já Charles & Carlos… Com pneus médios, teriam de parar logo. Por que não foram para os boxes no período de safety-car, era mistério ainda a ser desvendado. No fim, a estratégia acabou dando certo. O que não deixa de ser surpreendente, tratando-se de Ferrari.

Albon puxando a fila no início: pelotão do meio agitado

A prova até que era agitada mais para o meio do pelotão. Todos podendo abrir suas asas móveis, aproveitando a colossal reta que antecede a entrada dos boxes. Um passava o outro, que se defendia de alguém e mirava o alvo em outrem.

Na ponta, Alonso levantou a torcida no final da volta 22. Veio babando para cima de Hamilton, abriu a asa e engoliu o Mercedão #44 na freada para a chicane do Muro dos Campeões. Foi uma daquelas ultrapassagens de almanaque, assumindo a segunda posição com garbo e elegância. Garboso e elegante, Lewis não opôs resistência. E o espanhol foi embora, tentando enxergar Verstappen com uma luneta – o holandês estava quase 4s à frente.

Nessas horas, o piloto que está na liderança não tem muito o que fazer. Então, Max entrou no rádio. “Meus pneus não têm aderência”, falou. “OK, Max.” Mais duas voltas, ele voltou: “Meus pneus não têm aderência, não sei se vocês ouviram agora há pouco, o fato é que me ignoraram, porque se os pneus não têm aderência, algo tem de ser feito a esse respeito, e vocês seguem me ignorando, como se eu fosse obrigado a guiar com pneus que não têm aderência, sendo que os pneus têm a obrigação de ter aderência”. “OK, Max, a gente ouviu, sim”, veio a resposta. “Quem é que está falando comigo, não reconheço a voz!”, devolveu Verstappen, alarmado. “Jamie Oliver, o cozinheiro”, ouviu, do outro lado. “E o que você está fazendo aí que não está cozinhando, Jamie? Cadê meu engenheiro?” “Estão almoçando, Max. Pediram pra eu ficar aqui anotando os recados. Já anotei, pneus sem aderência. Vou passar pra eles assim que voltarem.” “Ah, OK, então, mas veja se eles não demoram, e reforce o ‘sem aderência’, diga que estou nervoso, inclusive.” “Mas você não está nervoso, Max, te conheço, você fica nervoso quando não tem parmesão fresco, te manjo.” “Mas diga mesmo assim, só pra zoar.” “OK, Max.”

Abraços ao final da prova: Red Bull chegou a 100 vitórias na categoria

Mas os pneus, de fato, não estavam agradando todo mundo. Ocon, por exemplo, foi um que trocou seus duros por outros duros pouco depois da metade da prova. Na volta 38, foi Pérez quem parou, para colocar pneus médios. Na 39, finalmente veio a Ferrari para os boxes, colocando pneus duros no carro de Sainz. Na 40ª, Leclerc fez o mesmo. Hamilton, o terceiro, parou também e colocou médios, para escapar de um futuro assédio dos ferraristas, com borracha mais nova. Voltou em terceiro, tranquilo.

Alonso, para não sofrer o mesmo com Lewis, também foi para os boxes e partiu para a última fase da prova com pneus novos. E já que todo mundo tinha parado, Max fez o mesmo. “Pessoal voltou do almoço?”, perguntou. “Sim, Max, estamos aqui”, respondeu seu engenheiro, mastigando uma coxa de frango. “Pode vir que a gente troca seus pneus. Escolhe aí o que você quiser.” E assim foi, com os compostos médios alocados em seu carro.

Quem àquela altura merecia palavras de incentivo era Russell, já na zona de pontos, em oitavo, depois da batida besta no começo da prova. E Albon, em sétimo, era o grande nome da turma menos estrelada. Pena para George que na volta 55 a equipe percebeu que seus freios estavam prejudicados. “E se a gente trocar as pastilhas?”, sugeriu o piloto. “Pode ser, George. Venha para os boxes”, falou o engenheiro, piscando para Toto Wolff. “Falei pra ele que a gente ia trocar as pastilhas, mas vamos recolher o carro”, disse ao chefe. “Coitado, vocês precisam parar de zoar esse menino”, respondeu Toto. Russell abandonou e pediu desculpas mais 15 vezes. “A culpa não é sua, George”, falou o engenheiro. “É das pastilhas.”

Alonso e Hamilton se cumprimentam: não teve briga

A última fase da prova ficou reservada a uma possível disputa pelo segundo lugar entre Alonso e Hamilton. O espanhol, com pneus duros, ia sendo avisado pela equipe da aproximação do heptacampeão. Lewis, com pneus médios, chegou a ficar apenas 1s5 atrás. Foi quando Fernando, pelo rádio, perguntou qual era a diferença. Informado, falou: “Não se preocupem. Conheço Lewis. Fomos companheiros em 2007. Saí da equipe porque ele era muito paparicado. Acho que ainda é. Devem estar dizendo a ele neste exato momento: ‘Vamos, Lewis, você consegue! Não desista nunca! Keep fighting!’. Conheço meu eleitorado. Fiquem tranquilos. Ele finge que acredita e depois da corrida vai agradecer todo mundo na equipe, na fábrica, a torcida no Canadá que é incrível e está dentro do coração dele. Já perceberam que para o Lewis toda torcida é incrível e tá dentro do coração dele? Só papagaiada. Deixem comigo. Aqui ele não se cria, não!”.

E, assim, El Fodón del Podión acelerou um pouquinho mais e acabou com a festa daqueles que estavam já ajoelhados diante da TV roendo as unhas e torcendo para um duelo épico, gigante, matador. Não aconteceu nada.

Max gargalhando pelo rádio: fase espetacular

Bacana, mesmo, estava o trenzinho de Albon, sétimo, a Piastri, 12º. Entre eles, Ocon, Norris, Bottas e Stroll. Todos colados, tentando migalhas. As imagens do carro de Ocon eram aflitivas. Sua asa traseira estava balançando perigosamente. Norris, atrás dele, alertava sua equipe pelo rádio. “Essa merda vai dar na minha cara!” Lando estava punido com 5s por mau comportamento durante o safety-car e perderia sua posição na zona de pontos. Restava alcaguetar o adversário.

Max seguia conversando amenidades pelo rádio e mandando mensagens pelo celular. “Oxe, quase dei no muro kkk”, escreveu no WhatsApp. Aí, de repente, a corrida acabou. Verstappen recebeu a bandeira quadriculada com 9s5 de vantagem sobre Alonso. Hamilton fechou o pódio de 11 títulos mundiais, nas mesmas posições da largada. Leclerc, Sainz, Pérez, Albon, Ocon, Stroll e Bottas fecharam a zona de pontos. O tailandês da Williams acabou sendo o grande nome do fim de semana, levando a equipe mais fraca do grid a um resultado extraordinário graças à sua inata capacidade de administrar o desgaste de pneus. Foi, aí sim, gigante, épico e matador.

Na tabela de classificação, Verstappen ampliou sua vantagem para 69 pontos em relação ao vice-líder, o apagado Pérez: 195 x 126. Alonso, como um adolescente dos anos 70 que encontrou o último número de “Ele & Ela” escondido no banheiro, vem em terceiro com 117. Hamilton tem 102 em quarto e Sainz, agora, é o quinto com 68. Russell, que zerou, ficou com 65, ainda à frente de Leclerc (54). Stroll (37), Ocon (29) e Gasly (15) fecham a turma dos dez primeiros. Entre os construtores, a Red Bull tem 321 contra 167 da Mercedes, 154 da Aston Martin (essa é a briga do ano, pelo vice), 122 da Ferrari e 44 da Alpine nas cinco primeiras posições.

Com mais uma vitória de ponta a ponta, Verstappen chegou a 224 voltas seguidas na liderança de GPs. Desde a 48ª volta da corrida de Miami, só ele aparece em P1. Foi assim em todas de Mônaco, de Barcelona e, agora, de Montreal. Quinto nessa estatística da F-1, não precisa de muito para ultrapassar três marcas que estão à frente da sua: de Mansell (235 entre Brasil e Mônaco/1992), Senna (237 entre San Marino e EUA/1989 e 264 entre Inglaterra e Itália/1988) e Ascari (305 entre Bélgica e Holanda/1952). A próxima etapa acontece na Áustria, daqui a duas semanas. É corrida de 71 voltas. Façam as contas.

Resultado final em Montreal: Ferrari até que se deu bem