SÃO PAULO (absoluto) – Comecemos com os números: cinco vitórias seguidas, sete em nove corridas de 2023, 42 na carreira, superando Ayrton Senna e isolando-se na quinta colocação entre os maiores vencedores da história. Esse foi o resultado do GP da Áustria hoje, e é claro que as cifras se referem a Max Verstappen. O holandês só não venceu de ponta a ponta porque foi uma prova de muitos pit stops, e num circuito curtinho como a pista da Red Bull é difícil parar sem perder posição se o pit stop acontecer numa volta diferente da de quem está em segundo.
Mas voltas na liderança não dão pontos, apenas engordam estatísticas, e por isso Verstappen não liga muito para isso. O que é relevante para ele é espremer um fim de semana de GP até a última gota. E o fez. Somou todos os pontos que a F-1 coloca à disposição em eventos com Sprint, da vitória na minicorrida ao ponto extra da melhor volta na prova principal: 34. Isso sem contar as poles para as duas, que também não dão pontos mas mostram quem manda no pedaço.
Não menos importante, sua equipe segue invicta no ano. Ganhou as nove provais disputadas até aqui. E as duas Sprints. A de Baku, com Sergio Pérez.
O GP austríaco foi agitado, apesar da previsibilidade da vitória de Verstappen. Teve muitas disputas, algumas atuações dignas de nota – como as de Charles Leclerc e Pérez, segundo e terceiro colocados – e alguma movimentação na tábua de pontos, especialmente na de Construtores, com a Ferrari dando sinal de vida e entrando na briga pelo vice-campeonato. Horas depois de encerrada a corrida, a Aston Martin entrou com recurso contra o resultado final, alegando que várias passagens de pilotos por fora dos limites de pista foram ignoradas. A FIA reviu a corrida e aplicou várias punições, o que mudou algumas posições na prova. Lá no fim do texto explico tudo que aconteceu.
O domingo começou com homenagens a Dilano van ‘t Hoff, 18 anos, que morreu num acidente ontem em Spa na Fórmula Regional Europeia, campeonato promovido pela Alpine. Um minuto de silêncio foi respeitado em memória do jovem piloto holandês. Sem chuva e sem calor, 22°C, os pneus médios foram a escolha da maioria dos pilotos para começar a prova em Spielberg, vilarejo rural aos pés dos Alpes austríacos. Fernando Alonso, Valtteri Bottas e Kevin Magnussen foram os únicos que decidiram partir com os compostos duros. A largada foi interessante. Leclerc atacou Verstappen com vontade nas curvas 2 e 3, de forma até surpreendente, mas o holandês resistiu. E respirou ao final da primeira volta, quando o safety-car foi acionado porque Yuki Tsunoda deixou pedaços de seu carro na curva 1 e, depois, foi para a brita um pouco adiante. Era preciso fazer uma breve faxina para tirar detritos do asfalto.
Pista limpa, a relargada aconteceu na terceira volta e lá foi Charlinho de novo, sonhando com uma ultrapassagem. Só que dessa vez Max não seu sopa para o azar. Socou o pé no acelerador e não permitiu a aproximação do monegasco. Muito rapidamente abriu mais de 1s para a Ferrari #16 e foi embora. Só seria visto de novo na bandeira quadriculada debaixo de uma nuvem laranja de seus torcedores.
Com Verstappen a léguas de distância, quem teve de se preocupar com o assédio foi Leclerc. Carlos Sainz, seu companheiro, em terceiro, se assanhou e começou a fustigar o rapaz de bochechas róseas, educadíssimo e solícito — ao contrário do espanhol, grosso que só ele. “Nos informe sobre seu ritmo, Carlos, se não for muito incômodo”, pediu seu engenheiro, com toda polidez. “Não tá vendo? Preciso mesmo dizer? Tu é cego? Vão ficar me tratando como segundo piloto até quando?”, respondeu.
(Sempre reforço que as reproduções dos diálogos aqui obedecem a um critério bastante particular no quesito “tradução”, em esforço desmesurado para oferecer aos diletos leitores interpretações que se aproximem da realidade dos fatos, muitas vezes dura e incômoda.)
Alterando ligeiramente o tom de voz diante da aspereza do piloto, a chefia devolveu: “Fica na sua e deixa o menino na frente, seu…, seu…, seu comedor de jamón serrano!”. A comunicação foi prejudicada pela estática e Sainz, irritadíssimo, ainda teve tempo de dizer que “nunca comi Ramon nenhum, é tudo mentira, ele é só meu amigo, a gente se conhece desde os tempos da escola, e o que falavam da gente não era verdade, aquele negócio do sabonete no chuveiro do vestiário nunca aconteceu!”.
Outro momento radiofônico curioso aconteceu pela altura da 12ª volta, quando Lando Norris passou a avisar à McLaren que Lewis Hamilton, quarto colocado à sua frente, estava excedendo os limites da pista. “Onde e quando?”, questionou o time. “Em todas as curvas o tempo todo, não vou ficar avisando vocês toda hora, haja paciência, senão não faço outra coisa na corrida, além de tudo não sou narrador!”. A Mercedes captou a delação através de seu serviço de espionagem e alertou seu piloto, que não hesitou: “Se eu não fizer isso, esta bosta de carro não faz as curvas!”.
Na volta 15, Nico Hülkenberg quebrou, parou o carro num lugar perigoso, e o safety-car virtual foi acionado. Hamilton e Norris aproveitaram, foram para os boxes e trocaram pneus. A Ferrari fez a mesma coisa na volta seguinte, parando seus dois pilotos ao mesmo tempo. Sainz perdeu duas posições e caiu para sexto. Na relargada, na volta 17, Verstappen liderava com Leclerc em segundo, já de pneu novo, Pérez em terceiro (vinha lá de trás, sem trocar pneu), Hamilton em quarto e Norris em quinto.
Sainz passou Norris bufando pelo rádio porque não queria ter parado nos boxes, irritando ainda mais o pitwall ferrarista. Meus serviços de espionagem captaram, inclusive, comentários bem maldosos envolvendo Ramon ou jamón, não deu para entender direito — sotaque italiano é terrível. No mesmo momento, a direção de prova começou a distribuir cartões amarelos na forma de 5s de punição para os pilotos que ultrapassavam os limites da pista insistentemente. Hamilton e Tsunoda foram os primeiros.
Endiabrado, (“Deve estar pensando no jamón”, disse um mecânico nos boxes também captado pelos meus microfones escondidos, mas talvez ele tenha dito “Ramon”), Sainz foi para cima de Hamilton, passou e assumiu o quarto lugar. Havia diferenças de pneus entre eles – Lewis de duros, Carlos de médios. Na sequência, foi para cima de Pérez e engoliu o mexicano sem dó, voltando à terceira posição. Atrás dele, Hamilton foi ao rádio e falou: “Já que é assim, ficaram me dedurando, bando de X-9 dos infernos, vamos lá: o Pérez saiu da pista também. Não vão punir? Se me deram cinco segundos, não vão dar pra ele? Por quê? Ah, nem precisa responder, eu mesmo digo! É Red Bull, né? É um coitadinho, segundo piloto, ninguém faz nada com ele. Olha lá! De novo! Curva 10! Já puniram ele? Claro que não! Eles podem tudo! Lembram em 2021? Eu estava em primeiro, aí o Lat…”. A Mercedes desligou o rádio.
Na volta 25, Verstappen parou nos boxes e colocou pneus duros. Perdeu a liderança de uma corrida pela primeira vez desde a volta 48 do GP de Miami – depois disso, liderou todas as voltas em Mônaco, Barcelona e Montreal. Voando, na volta seguinte passou Sainz e calibrou a mira sobre Leclerc, o líder. A Ferrari teria de parar de novo. Max, só se tivesse vontade.
Pérez também colocou pneus duros e caiu para décimo. Hamilton, atormentado pelas injustiças do mundo traduzidas em punições de 5s, foi ultrapassado por Norris. Na volta 30, Leclerc, Verstappen, Sainz, Norris, Hamilton e Alonso eram os seis primeiros colocados. Sainz também levou um pênalti de 5s pelo mesmo motivo: ultrapassar as linhas que delimitam a pista – na Áustria, esse tipo de ação é clássica, pela configuração do traçado e suas zebras.
Verstappen, enquanto isso, remava para retomar a liderança. À razão de 1s por volta, se aproximava de Leclerc, que era avisado pela Ferrari de que a degradação de seus pneus era maior do que o esperado e talvez ele tivesse de fazer sua segunda troca antes do desejado. Max encostou no carro vermelho na volta 34. Ficou ali ciscando e na volta seguinte passou.
O festival de punições seguia: Esteban Ocon, Alexander Albon, Nyck De Vries, Pierre Gasly… Por exceder os limites de pista ou outros motivos, como empurrar amiguinho para fora da pista (De Vries sobre Magnussen), liberação perigosa do pit stop (Ocon), macacão desalinhado, barba malfeita…
A Mercedes parou seus pilotos pela segunda vez nas voltas 42 (George Russell) e 43 (Hamilton) abrindo nova sessão de pit stops. Na 46ª, Sainz também foi para os boxes. Ele e Lewis aproveitaram para pagar suas multas de 5s. Verstappen, de quem ninguém mais falava, liderava com 13s sobre Leclerc, que ainda precisava fazer mais uma troca. Pérez era o terceiro, mas também teria de parar de novo.
Charlinho parou na volta 48. Voltou atrás do mexicano. A Ferrari fazia uma corrida boa, com esperança de colocar seus dois pilotos no pódio. Quase deu. Verstappen, um ano na frente de todo mundo, foi chamado para os boxes na 50ª volta. Colocou pneus novinhos, bocejou e voltou à pista sem perder a liderança. Pérez parou na seguinte e retomou sua jornada em quinto. Restou, então, uma briga pelo terceiro lugar. Norris, com grande atuação, encostou em Sainz. Não passou. Quem foi atrás de um trofeuzinho foi Pérez, que ganhou a posição do piloto da McLaren e partiu para cima do espanhol. Tentou na volta 59, levou o troco, insistiu, teve muito trabalho e só conseguiu na 61, aos trancos e barrancos.
E os rádios? Ah, os rádios… Em sétimo, Hamilton insistia: “Alguém mais foi punido? Hã? Hã? Ou só eu? Tudo eu, sempre eu!”. Foi quando Toto Wolff in persona entrou na linha pela segunda vez, algo que não costuma fazer. Antes, tinha dito a ele que “todo mundo na frente seria punido”, para tentar encerrar o assunto. Depois, foi duro de verdade com seu piloto: “Lewis, sabemos que o carro é ruim. Por favor, apenas o dirija”. E, aqui, as palavras do chefe da equipe alemã são literais – sem tradução livre. Hamilton finalmente silenciou. Mas pensou (sim, temos detectores de pensamento): “Bosta de carro lerdo do caralho, não vou renovar meu contrato, eles que se virem, esses caras só sabem fazer caminhão e ônibus e olhe lá, Mercedes é carro de velho rico, vou comprar uma Kombi Safári e sair pelo mundo com meu cachorro, nunca mais vão ouvir falar de mim, vão se foder”.
Com a ultrapassagem de Pérez sobre Sainz, as posições se acomodaram. Carlos ainda teve tempo para uma reclamação inusitada: “Os comissários deveriam dar uma olhada no que aconteceu. Ele ficou me intimidando”. Hoje não estou nem precisando brincar muito com os rádios. Eles vieram prontos. Intimidou, Carlito? Jura? Ficou com medo? O que ele fez? Gritou com você? Ameaçou chamar o cartel de Tijuana? Mostrou a língua, rangeu os dentes? Ah, tenha dó…
Ganancioso, com 23s de vantagem sobre Leclerc, na volta 69 Verstappen pediu para fazer uma terceira parada e colocar pneus macios. Faltavam duas para o final. Queria o ponto extra da volta mais rápida, mesmo correndo o risco de dar alguma coisa errada no pit stop. Um maluco ensandecido, resvalando no sadismo. A parada aconteceu, foi bem rápida e o moleque foi lá e cravou a melhor volta da corrida.
Verstappen, Leclerc, Pérez, Sainz, Norris, Alonso, Hamilton, Russell, Gasly e Lance Stroll foram os dez primeiros na quadriculada. O resultado teve algumas alterações por conta das punições aplicadas depois do recurso da Aston Martin. Na zona de pontos, Sainz caiu de quarto para sexto, Hamilton foi de sétimo para oitavo e Gasly, de nono para décimo. No quadro acima, um detalhe: estão todos com uma parada a mais porque no safety-car da primeira volta os pilotos foram obrigados a passar por dentro dos boxes para limpeza da pista. Além do holandês, merecem notas elogiosas Leclerc, que manteve o segundo lugar do grid e conseguiu seu melhor resultado no ano, e Pérez, que saiu de 15º e, desta vez, soube se recuperar para fisgar o terceiro degrau do pódio. Assim como Norris, em quarto, ganhando até o título de “piloto do dia” do amigo internauta. A Aston Martin teve um desempenho opaco, com Alonso em quinto e Stroll em nono, já no resultado corrigido. A Mercedes, idem.
Com 100% dos pontos que podia marcar na Áustria, Max foi a 229 na classificação, contra 148 de Pérez – uma diferença de 81, obviamente intransponível. Alonso vem em terceiro com 131, seguido por Hamilton (106), Sainz (82), Leclerc (72) e Russell (72). Entre as equipes, a Red Bull permanece absoluta com 377, mas a briga pelo vice se tornou muito interessante: Mercedes (178), Aston Martin (175) e Ferrari (154). O time italiano deu um passo largo para entrar de vez na disputa fazendo 32 pontos no fim de semana, contra 21 da Aston Martin e apenas 11 da Mercedes.
O ingresso no top-5 dos maiores vencedores de todos os tempos parece não ter comovido muito Verstappen, que até onde pude acompanhar não tocou no assunto, como não havia se importado muito com o tema no Canadá, depois de igualar Senna. De qualquer forma, vale sempre lembrar os que estão à frente dele: Hamilton (103), Michael Schumacher (91), Sebastian Vettel (53) e Alain Prost (51).
Essa, definitivamente, é a sua turma.
ÚLTIMA HORA – A Aston Martin protestou o resultado da corrida, alegando que muitas passagens de vários pilotos excedendo os limites da pista não foram consideradas pelos comissários esportivos. Pediu contagem manual das irregularidades e punições aos infratores. A FIA analisou o videoteipe e aplicou punições a oito pilotos: Sainz (10s), Hamilton (10s), Ocon (30s), Gasly (10s), Sargeant (10s), Albon (10s), De Vries (15s) e Tsunoda (5s). Na zona de pontuação, como já atualizado no textão, Sainz caiu de quarto para sexto, Hamilton foi de sétimo para oitavo e Gasly, de nono para décimo. Norris subiu para quarto, Alonso para quinto, Russell para sétimo e Stroll para nono. Albon e Sargeant mantiveram suas posições (11º e 13º). Ocon foi de 12º para 14º. De Vries, de 15º para 17º. E Tsunoda, de 18º para 19º.
