Blog do Flavio Gomes
F-1

MAXLÂNDIA (3)

POÇOS DE CALDAS (acabou) – O caótico e divertidíssimo GP da Holanda poderia ter qualquer resultado, mas deu a lógica com uma nova vitória de Max Verstappen, a nona seguida dele nesta temporada. O piloto da Red Bull igualou o recorde de vitórias consecutivas estabelecido por Sebastian Vettel, da mesma equipe, em 2013. Foi o […]

Verstappen: imbatível em qualquer situação

POÇOS DE CALDAS (acabou) – O caótico e divertidíssimo GP da Holanda poderia ter qualquer resultado, mas deu a lógica com uma nova vitória de Max Verstappen, a nona seguida dele nesta temporada. O piloto da Red Bull igualou o recorde de vitórias consecutivas estabelecido por Sebastian Vettel, da mesma equipe, em 2013. Foi o 46º triunfo do holandês na categoria, 11º em 13 etapas neste ano. Completaram o pódio Fernando Alonso, da Aston Martin, e Pierre Gasly, da Alpine.

A corrida começou com pista seca, chuva na primeira volta, depois sol e uma tempestade a dez voltas do final. O dilúvio levou à interrupção da prova com bandeira vermelha por 40 minutos na 65ª das 72 voltas previstas — Guanyu Zhou bateu e uma barreira de proteção teve de ser refeita. Houve dezenas de pit stops, gente rodando e batendo, decisões de box apressadas ou atrasadas, muitas ultrapassagens, belas disputas de posição, caos à espreita o tempo todo e, no fim, acabou sendo uma das melhores corridas de uma temporada enfadonha por causa do domínio do atual bi e virtual tricampeão mundial.

Aconteceu bastante coisa. Então, vamos passar a régua na inesquecível prova de Zandvoort.

Olho nos radares: a chuva foi, voltou, foi, voltou…

Hamilton foi o único piloto a largar com pneus médios. Os outros 19, com macios. E foi sob expectativa de chuva que a prova começou, com intensa comunicação de rádio entre pitwall e cockpits. O problema era saber em quem acreditar. Narciso Vernizzi, o Homem do Tempo de uma antiga rádio de São Paulo? Não, não. Ele só sabia o que acontecia em Neuquén, na Argentina. Anne Lottermann? Também não, foi para o Faustão, largou a meteorologia. Sites, aplicativos, pais-de-santo, ciganas?

Melhor era olhar para o céu. E quando as luzes se apagaram, o céu estava cinzento, carregado e ameaçador. Na metade da volta, a água veio. Daria para dizer, antes de mencionar a chuvarada, que Verstappen e Alonso fizeram grandes largadas. Bottas também, ganhando seis posições. Mas com a chuva lavando o asfalto, os primeiros carros foram para os boxes antes mesmo de completarem a primeira volta. E as cartas colocadas na largada acabaram sendo embaralhadas de novo. Foram sete que espetaram pneus intermediários logo de cara. Entre eles, Sergio Pérez.

Na segunda volta, Max e Alonso, primeiro e segundo colocados, pararam. Norris e Russell, da turma da frente, ficaram na pista. O inglês da Mercedes passou o da McLaren e assumiu a ponta. E Pérez, o primeiro a colocar pneus de chuva, se deu muito, muito bem. Passou todo mundo que tinha slicks, ganhou a liderança e viu Verstappen em oitavo. O holandês foi abrindo caminho e na volta 4 estava em quinto, 13s7 atrás do mexicano. Norris e Hamilton trocaram pneus na terceira volta e despencaram para as últimas posições.

Clima instável: corrida virou uma quase loteria

Com seis voltas, cinco carros seguiam com slicks no banhado asfalto de Zandvoort: Albon, Piastri, Bottas, Hülkenberg e Sargeant. Todos lá no fundão. Na liderança, Pérez. Em segundo, Zhou. Sim, Zhou! OK, estava 11s atrás da Red Bull, mas se deu bem, como Pérez, ao colocar pneus intermediários rapidamente.

A segunda posição honrosa do chinês durou pouco, porém. Na sétima volta, Verstappen, que foi jantando quem via pela frente, já tinha passado por ele e mirava Pérez. Que, àquela altura, via o companheiro se aproximar, a 7s3 de distância. De forma impressionante, o holandês foi tirando a diferença para apavorar o companheiro. Tirou 6s em três voltas.

Na décima volta, Pérez, Verstappen, Zhou, Gasly, Alonso, Sainz, Leclerc, Tsunoda, Magnussen e Ocon eram os dez primeiros. O dinamarquês da Haas, então, parou de novo e resolveu voltar aos pneus slicks. A pista estava secando. Os que se seguraram com esses pneus, desafiando a chuva, vibraram. E os mecânicos perceberam que teriam um dia longo, muito longo. De repente, havia uma fila nos boxes para recolocar pneus para piso seco.

Na volta 11, só os quatro primeiros tinham intermediários, que eram cerca de 4s mais lentos que os slicks. Na 12ª, então, Verstappen parou. Desta vez, antes que Pérez. O último com intermediários. Ele parou na volta 13. E quando voltou à pista, estava em segundo. Na frente? Verstappen, por óbvio.

Não dava para Checo reclamar muito, porém. A agilidade dele e da Red Bull na primeira parada resultaram num salto de sétimo no grid para a liderança. Após a volta aos slicks, estava em segundo. Nada mau. E o sol apareceu em grande parte do circuito. O fenômeno meteorológico aconteceu exatamente na volta 14. Só que, na 15ª, a chuva voltou. Mas foi apenas na área dos boxes. O resto do traçado estava seco. O que fazer? Parar? Continuar? Rezar?

Sargeant arrasado: fiasco do americano da Williams

Na dúvida, todo mundo seguiu com os pneus para pista seca. Até porque a breve pancada vista na reta dos boxes foi isso mesmo: breve, brevíssima; coisa de segundos. O saldo do troca-troca e do chove-não-molha foi muito negativo para Russell – de terceiro no grid, caiu para 18º. Norris também: de segundo na largada, despencou para 11º. Então veio um safety-car na volta 16. Sargeant bateu na curva 8 e abandonou.

Para tentar salvar sua corrida, Russell parou e colocou pneus duros. Se tudo desse certo para ele, não choveria mais e ele teria paradas a menos até o fim da corrida. Mas era um chute.

Atrás do feioso Aston Martin que na Holanda foi escolhido como safety-car, o pelotão em fila indiana tinha Verstappen, Pérez, Alonso, Gasly, Sainz, Zhou, Magnussen, Albon, Ocon e Tsunoda nas dez primeiras colocações. O único, aí, que não tinha entrado nos boxes ainda era Albon. Ele se mantinha com os pneus da largada.

O safety-car deixou a pista no final da volta 21. Sol brilhando, asfalto seco, protetor solar à mão, o ritmo da relargada foi dado por Verstappen, que fez o que faz sempre: quase para o carro, depois dá uma estilingada e some na frente.

A corrida deu uma acalmada, apesar de algumas boas disputas intermediárias como Albon x Magnussen e Hamilton x Leclerc. Sem intercorrências. Lá na frente, ao notar que Pérez já tinha perdido o contato com Verstappen, Alonso, em terceiro, começou a se insinuar sobre o mexicano. Se o cabrón não vai, vou eu, pensou o espanhol. Alguém, a essa altura do relato, pode estar se perguntando: e a Ferrari? De fato, mal foi citada até aqui. Então, citemos: Sainz se mantinha razoavelmente bem em quinto e Leclerc se arrastava lá atrás, em 14º. Já tinha trocado um bico e feito um pit stop desastroso, o monegasco. Feito o registro.

Gasly: pódio merecido e valoroso

Ali pela 30ª volta, o sol desapareceu e nuvens escuras tomaram o autódromo. Verstappen entrou no rádio imediatamente. “O que diz a Maju?”, perguntou. “Maju está no ‘Fantástico’, Max”, respondeu seu engenheiro. O piloto suspirou com a falta de informações mais acuradas.

A prova chegou à metade, 36 voltas, com Verstappen quase 5s à frente de Pérez — que, por sua vez, não havia se impressionado muito com as ameaças de Alonso, deixando o carro da Aston Martin quase 4s atrás. Gasly, Sainz, Albon, Ocon, Tsunoda, Norris e Hamilton fechavam o grupo dos dez primeiros.

Sem muito o que fazer, Max brincava com o cronômetro registrando voltas mais rápidas. Pelo rádio, recebeu a informação de que dali a uns cinco minutos algumas gotas cairiam nas curvas x, y e z. Nem respondeu. “Se não tem Maju mais, não acredito”, pensou. De fato, os cinco minutos se passaram e não choveu.

Quem parou na volta 42 para colocar pneus novos, abrindo uma nova janela de pit stops – todo mundo teria de trocar outra vez, ao menos aqueles que estavam com macios –, foi Sainz. Caiu de quinto para 11º. Aproveitando que tinha gente no box, Leclerc estacionou também. Ao chegar, seu engenheiro perguntou o que ele fazia ali. “Nada, vim tomar um café”, respondeu Charlinho. “Curto, que é mais rápido.” Seu carro tinha problemas no assoalho, na asa, no motor, no câmbio, na alma. E a Ferrari optou pelo abandono. Um alívio para o piloto, que momentos antes brigava com o estreante Liam Lawson pela 15ª posição. Não precisava passar aquela vergonha.

Albon, finalmente, fez seu pit stop na volta 45 e colocou pneus médios. Uma façanha: terminaria a prova com apenas uma parada se não voltasse a chover. Voltou em 11º. Pérez também parou, na volta 46. A bateria de trocas entrou em marcha: Hamilton, Gasly (que teve de pagar uma punição por excesso de velocidade nos boxes), Piastri… Russell – lembram? –, com seus pneus duros, era já o sétimo.

Alonso fez uma parada ruim na volta 49, o que resultou na perda da terceira posição para Sainz. Um problema na troca do pneu dianteiro esquerdo foi o que atrapalhou o veterano das Astúrias. Verstappen, tranquilo, trocou seus pneus na volta 50. A briga pelo terceiro lugar no pódio virou a grande atração da corrida naquele momento. Eram dois espanhóis, com Fernandinho claramente mais rápido.

Alonso: corridão e volta ao pódio após quatro GPs de jejum

Na volta 52, El Fodón del Coche Verdón fez a ultrapassagem em cima da Ferrari #55 com estilo, garbo e elegância. Mais atrás, Russell, Albon, Ocon e Norris foram para cima de Tsunoda e passaram o japonês, que já tinha problemas com pneus desgastados e uma asa danificada. Hamilton fez o mesmo. Em duas voltas, o japonês perdeu cinco posições. Lewis, depois, passou Norris e foi para nono.

Faltavam 15 voltas quando os rádios das equipes, frenéticos e apocalípticos, passaram a avisar seus pilotos que um dilúvio bíblico se aproximava do circuito. Alguém citou o livro de Gênesis: “Faze para ti uma arca de madeira, e a revestirás de betume por dentro e por fora”. Na volta 60, Gasly passou Sainz e foi para quarto. Pouco antes, Hamilton deixara o companheiro Russell para trás.

E veio a chuva. “Assim fez Noé; segundo tudo o que Deus lhe mandou, assim o fez.” Ainda bem que Noé fez o que lhe mandaram. Porque na volta 61, Pérez, Gasly, Sainz, Hamilton, Russell e quem mais estivesse passando pelas cercanias dos boxes parou e colocou pneus intermediários. A parada de Pérez foi ruim. Verstappen e Alonso vieram na volta seguinte. Desabou o mundo. Uma tempestade memorável. Os carros começaram a aquaplanar. Ocon colocou pneus para chuva pesada. Pérez rodou. Zhou bateu. O safety-car virtual foi acionado. Verstappen voltou aos boxes e colocou pneus mais apropriados para alagamentos datenianos. O mexicano fez o mesmo. Quando sairia dos boxes, a direção de prova mandou uma bandeira vermelha parar tudo. Noé passou ao largo pelo Mar do Norte em direção ao Canal da Mancha, acenando para as pessoas na praia e no autódromo. De dentro da arca, porque não queria se molhar.

A corrida foi interrompida na volta 65 com Verstappen, Alonso, Gasly, Sainz, Hamilton, Pérez, Norris, Russell, Albon e Piastri na zona de pontuação. Mas as posições seriam revistas para a relargada, porque em caso de bandeira vermelha vale sempre o resultado da volta anterior – seja para um reinício, seja para o encerramento da prova. Assim, o novo grid teria Verstappen, Alonso, Pérez, Gasly, Sainz, Hamilton, Norris, Russell, Albon, Piastri, Ocon, Tsunoda, Stroll, Hülkenberg, Bottas, Lawson e Magnussen – os 17 sobreviventes.

Norris x Russell: toque no final

A corrida foi reiniciada cerca de 40 minutos depois, ainda com o piso bem molhado. Os pneus intermediários já seguravam a onda, e foram percorridas duas voltas atrás do safety-car, com largada em movimento.

Ninguém quis dar uma de herói. Quase sem visibilidade, Russell foi o único que partiu para cima de alguém – no caso, Norris. Mas os dois se tocaram e George foi despencando até abandonar no final da volta. Pérez ainda levou uma punição estúpida por excesso de velocidade nos boxes. Para garantir o pódio teria de abrir 5s para quem estivesse atrás.

Nas últimas duas voltas, em sexto, Hamilton tentou como pôde ultrapassar Sainz, que resistiu. Max recebeu a quadriculada diante do delírio dos torcedores holandeses. Foi sua terceira vitória seguida em casa – ele está invicto desde a volta do país ao calendário. A vantagem para Alonso foi de 3s7. Gasly fechou o pódio com uma atuação fabulosa, herdando a posição de Pérez graças à punição para o mexicano, que terminou em quarto. Sainz, Hamilton, Norris, Albon, Piastri e Ocon fecharam a grupo dos dez primeiros. Registre-se que Lawson, o estreante, terminou em 13º. Na frente de Tsunoda.

Foi um grande espetáculo. A chuva ajudou e, felizmente, não machucou ninguém. Verstappen deu mais uma aula de frieza, competência, repertório, talento, autoridade. É um dos maiores pilotos de todos os tempos. Veloz, preciso, decidido.

E o que mais impressiona é sua incrível capacidade de se adaptar a qualquer situação numa corrida. Falamos de caos lá em cima. O caos, no entanto, não incomoda muito esse rapaz. Ele faz com que tudo pareça muito normal. Assim, suas vitórias acabam sendo naturais e previsíveis. Porque ele sabe exatamente o que está fazendo. O tempo todo.