Blog do Flavio Gomes
F-1

BANZAI (2)

SÃO PAULO (lógica é isso) – Bom, se alguém realmente achava que a Red Bull e Max Verstappen haviam mergulhado na obsolescência programada por causa de uma corrida, a de domingo passado em Marina Bay, talvez seja o caso de deixar de lado a conversinha boba sobre diretivas técnicas, trapaças e desconfianças para se render […]

Verstappen: olhar de quem não estava para brincadeira

SÃO PAULO (lógica é isso) – Bom, se alguém realmente achava que a Red Bull e Max Verstappen haviam mergulhado na obsolescência programada por causa de uma corrida, a de domingo passado em Marina Bay, talvez seja o caso de deixar de lado a conversinha boba sobre diretivas técnicas, trapaças e desconfianças para se render às evidências. O que aconteceu em Singapura foi algo totalmente anormal. E o normal é o que se viu nesta madrugada em Suzuka. Um domínio absoluto e esmagador do holandês e seu carro imbatível.

Verstappen fez a pole para o GP do Japão e larga na frente pela nona vez no ano, 29ª na carreira. Uma pole que o deixa ao lado de Juan Manuel Fangio nas estatísticas, empatado em nono lugar com o argentino pentacampeão mundial. Está em boa companhia.

Red Bull dominante: volta à normalidade

Como na sexta, o sábado foi quente e ensolarado em Suzuka, com os termômetros batendo nos 27°C na tarde japonesa. Lawson e Stroll abriram os trabalhos no Q1 e chamou a atenção a diferença do primeiro para o segundo: mais de 0s5 a favor do neozelandês. O canadense da Aston Martin tem sido uma decepção enorme. Nunca foi grande coisa, mas também não parecia ser tão ruim. Dá a impressão de que já não está nem aí com o brinquedo que ganhou do pai – uma equipe de F-1 só para ele.

Verstappen fez sua primeira volta rápida do dia em 1min29s878. É o que no automobilismo se chama de “temporal”. Não deu tempo de muita gente fechar volta, porque a 9min do encerramento do Q1 Sargeant bateu de novo. Foi na entrada da reta dos boxes. Destruiu o carro da Williams. A bandeira vermelha foi acionada, interrompendo a sessão.

Sargeant bate de novo: dificilmente fica em 2024

(Sargeant merece algumas palavras em longos parênteses, num momento como esse. É um piloto muito, muito ruim. Foi contratado pela Williams por causa de sua nacionalidade, um troço meio fora de moda, inclusive, na categoria. Mas como a Liberty, dona do negócio, é uma empresa norte-americana, a equipe foi comprada por um fundo de investimentos dos EUA e vive-se um propagado “boom” da F-1 no país, compreende-se o esforço para se ter um comedor de hambúrguer e ovos com bacon no grid.

Só que não dá. OK, os EUA têm três etapas no calendário, uma delas a mais esperada do ano pelos jecas de plantão, em Las Vegas. Mas alguém como Sargeant não só não acrescenta nada a um time, como traz prejuízos a cada corrida. Bate o tempo todo, não consegue um resultado decente sequer, e só piora. Achávamos que Latifi era ruim. Mazepin também. Sargeant, para ser ruim como esses dois, precisa melhorar muito.

A Williams ainda não confirmou sua permanência para 2024. James Vowles, chefe do time, disse que tomará uma decisão depois da corrida de Austin. Até lá ainda temos Japão e Catar. Assim, Sargeant teria três provas para mostrar alguma coisa. Não vai conseguir. Porque é ruim. E está muito pressionado. Piloto ruim pressionado termina no muro. Não há milagres.

Nesse cenário, Felipe Drugovich lidera a fila dos candidatos à vaga, que nem são tantos assim. Toto Wolff tentou empurrar Mick Schumacher, mas Vowles, que trabalhou na Mercedes por anos e só saiu no início desta temporada, teve acesso aos dados de telemetria de Mick nos simuladores da equipe alemã. Não ficou nada impressionado. Assim, o brasileiro tem uma tarefa que nem é tão absurda assim para virar titular: arrumar uns 15 milhões de euros com patrocinadores para garantir o lugar. Mas mesmo se conseguir menos, tem chances muito boas. Porque não tem ninguém muito melhor no mercado. Drugovich, é bom lembrar, é piloto de testes e de simuladores da Aston Martin, que também usa motores Mercedes. Assim, o que tem feito na fábrica também chega aos ouvidos de Vowles. Neste momento, pode-se dizer, sem muito medo de errar, que Drugovich está bem perto de fechar com a Williams – as partes estão conversando, inclusive. Porque as chances de manutenção de Sargeant passavam por um mínimo aceitável de performance até Austin. E a batida de hoje no Q1 mostrou que esse mínimo não será atingido. Fechamos os parênteses.)

Tráfego no Q1: convite a algumas surpresas

O Q1 foi retomado depois de 20 minutos, e os últimos instantes foram caóticos com um tráfego intenso na saída dos boxes. Essas bandeiras vermelhas quebram o ritmo de pilotos e equipes e por isso algumas surpresas podem acontecer. Batata. Os eliminados não foram novidade: Bottas, Stroll, Hülkenberg, Zhou e Sargeant. Mas lá na frente apareceu Lawson em quarto, um espanto. Tsunoda foi bem, também: oitavo. E Alonso bateu na trave da degola, em 14º.

Com pneus usados, Verstappen foi o primeiro a sair dos boxes no Q2 e já fez uma volta em 1min29s964 logo de cara. Ninguém chegava perto. A McLaren se insinuava com seus dois pilotos, é verdade, mas a briga era muito menos para tentar bater a Red Bull do holandês do que para superar Ferrari e, pasmem, AlphaTauri. A Mercedes não assustava, confirmando as previsões sombrias de Hamilton para o fim de semana de Suzuka. Max seguia soberano. Até ali, liderara todas as sessões no Japão, tanto dos treinos livres quanto na classificação. Só foi desbancado no final do Q2 por Leclerc, que fez 1min29s940. Mas não se incomodou. Sua volta era mais do que suficiente para avançar ao Q3. Nem pensou em voltar à pista. Não precisava. Ficaram fora Lawson, Gasly, Albon, Ocon e Magnussen.

Ferrari de Leclerc: sinal de vida no Q2

Max puxou a fila de novo no Q3, agora com dois jogos de pneus macios novos para buscar mais uma pole na temporada. Fez 1min29s012 na primeira volta, um tempo inatingível pela concorrência. Se quisesse voltar aos boxes, tirar o macacão e sair para tomar uma caipirinha de saquê (recomendo com limão siciliano e gengibre, fica muito bom), podia. Na primeira bateria de voltas rápidas, o segundo colocado, Piastri, ficou 0s446 atrás dele. A Ferrari deixou para buscar tempo no final, uma volta para cada piloto, apenas – a explicação era simples: escassez de pneus macios; era preciso guardar alguns para a corrida.

Verstappen até voltou à pista para uma segunda “flying lap”. E resolveu dar uma humilhada básica na concorrência: 1min28s877. Ninguém conseguiu melhorar seus tempos e a Ferrari, com sua volta única para cada piloto, ficou para trás. Piastri assegurou o segundo lugar no grid e vai largar na primeira fila pela primeira vez na carreira. Seu tempo foi 0s581 pior que o da pole. Norris foi o terceiro, seguido por Leclerc, Pérez, Sainz, Hamilton, Russell, Tsunoda e Alonso.

Esqueçam Singapura. O Verstappen de 2023 é esse que vimos hoje em Suzuka e em 14 das 15 corridas deste ano, não o do último fim de semana. Vai ganhar fácil a corrida.