
SÃO PAULO (imparável) – Max Verstappen registrou hoje em Monza um recorde importante na F-1. Tornou-se o primeiro piloto da história a vencer dez GPs consecutivos. Desde o dia 7 de maio, quando abriu a série em Miami, só ele ganha na categoria. O holandês superou a sequência que havia sido estabelecida pela primeira vez em 2013 por Sebastian Vettel pela mesma Red Bull.
O piloto teve poucas dificuldades para vencer o GP da Itália, 14º do ano. Como não largou a pole, precisou de alguma paciência e estratégia até ultrapassar Carlos Sainz. Quando passou, tchau. Só foi visto de novo recebendo mais um troféu. O espanhol da Ferrari terminou em terceiro, atrás ainda do outro carro da Red Bull, de Sergio Pérez.
O dia do novo recorde de Verstappen começou quente e ensolarado com casa cheia no histórico autódromo italiano. Segundo os organizadores, passaram pelas catracas de Monza 304.134 pessoas nos três dias do evento – o domingo, claro, com mais gente; afinal, uma Ferrari aparecia na frente de todos no grid.
Hamilton, Bottas e Magnussen foram os três pilotos que optaram pelos pneus duros na largada, contra os médios de todos os outros. Na volta de apresentação, o carro de Tsunoda quebrou na entrada da curva Parabólica, forçando o cancelamento da largada. Tristeza para a AlphaTauri, correndo em casa. Frustração para o japonês, que nem largou. Garantia para Lawson de terminar de novo um GP melhor que o companheiro, na sua segunda corrida na F-1. Coisas da vida.
Como o carro de Yuki demorou para ser retirado do acostamento, a direção de prova abortou o procedimento de largada, provocando uma curiosa aglomeração de mecânicos na saída dos boxes para “reiniciar” os carros. Uso as aspas para reforçar a ação: esses automóveis são como computadores, que quando desligados precisam sair do zero de novo para funcionar. A boiada de mecânicos foi autorizada a cruzar a mureta dos boxes e às 10h20 de Brasília, com 20 minutos de retardo, uma nova volta de apresentação aconteceu, com a distância original da corrida reduzida de 53 para 51 voltas.
Fazia muito calor em Monza, 30°C e um sol inclemente de assar pizza fora do forno. No asfalto, 43°C, o que era uma péssima notícia para a Ferrari, notável devoradora de borracha. Apesar de todo o entusiasmo da torcida, quem conhece um pouco de F-1 sabia que era uma questão de tempo para seus pilotos começarem a ter problemas com o desgaste de pneus.
A largada foi uma das mais limpas da história da humanidade, sem contatos, toques ou esbarrões. A maioria manteve suas posições, com uma ou outra exceção no meio do pelotão. Na volta 4, o uso da asa móvel foi autorizado. Era a senha para Verstappen começar a perturbar o líder Sainz. De camarote, o holandês observava o carro do espanhol escorregando de um lado para o outro e começando a detonar seus pneus – consequência da alta temperatura e da falta de equilíbrio dos carros vermelhos.
Na volta 6, Max fez a primeira tentativa de ultrapassagem na chicane do fim da reta dos boxes, colocando seu carro por fora. Sainz resistiu. “Danadinho!”, disse o piloto da Red Bull pelo rádio. Parecia muito claro que ele tinha mais carro que o adversário, mas era preciso ter alguma paciência. Leclerc, em terceiro, só observava. Monza, apesar das altas velocidades, é uma pista difícil para ultrapassar. Carros ruins, mas rápidos de reta, conseguem se defender durante algum tempo. Era o caso evidente da Ferrari #55. Um pouco mais atrás, Pérez, em quinto, enfrentava a mesma dificuldade para superar Russell, o quarto.
E foi na abertura da volta 15 que Verstappen, depois de cozinhar o galo sem pressa, levou Sainz a frear no deus-me-livre, fritando pneus, arregaçando de vez a borracha e tracionando mal na saída da segunda perna da chicane. Max, então, preparou o bote e passou o espanhol antes da chicane seguinte, assumindo a ponta. No tênis, isso se chama “forçar o erro” do adversário. Na F-1, também. Em seguida Pérez ganhou a posição de Russell, começando a abrir sua trilha particular para, no final, terminar em segundo.
Leclerc, que vinha em terceiro acompanhando o duelo entre Max e Carlos e poupando seus pneus, encostou no companheiro de equipe, então. Tinha um carro mais inteiro. Foi esperto de não se meter na briga dos dois nas primeiras voltas. “Ele que se vire para segurar o cara. Vou ficar por aqui só olhando”, pensou (este blog tem a capacidade de adivinhar pensamentos). Começava ali uma peleja que só seria resolvida quando a corrida terminasse.
Max sumiu na frente depois de passar Sainz. Na volta 19, tinha mais de 4s de vantagem. O espanhol fez sua parada na volta 20, abrindo a janela de pit stops da turma da frente. Colocou pneus duros e voltou em oitavo. Do meio para trás do pelotão, bastante gente já tinha feito suas paradas. Na 21ª volta, Verstappen trocou seus pneus e Pérez assumiu a liderança. Depois das paradas, Sainz e Leclerc se encontraram de novo na pista e começaram a litigar. O espanhol na frente. O monegasco embutido nele.
Na volta 22, Piastri era líder, com Norris em segundo e Hamilton em terceiro. Os três sem paradas. A dupla da McLaren foi para os boxes e, Lewis, com pneus duros, seguiu na pista e virou líder. Momento efêmero de prazer, porque Verstappen era o segundo, veio com pneus novos, retomou a liderança na 25ª volta e foi embora de novo, atrás do recorde do dia.
Houve um toque entre os dois pilotos da McLaren quando Piastri saiu dos boxes, o que pode azedar a relação entre os dois – a ver as declarações após a corrida. Hamilton parou na volta 28, caindo para décimo. Sua estratégia não foi lá grande coisa, mas com esforço ele terminaria numa posição até razoável, no fim.
A briga na segunda metade da prova ficou interessante entre Pérez, quarto, e a dupla da Ferrari à frente. Na volta 31, o mexicano recebeu uma porta na cara de Leclerc, mas passou limpo na 32ª, assumindo o terceiro lugar. Aí a batalha mais divertida se transferiu para Albon x Norris pelo sexto lugar. O tailandês, bravamente, se manteve à frente até a volta 38, quando Lando passou por dentro da chicane, devolveu a posição e voltou à carga. À espreita, atrás dos dois, Piastri. Chegando neles, com pneus médios, Hamilton.
Na volta 41, Pérez grudou em Sainz para buscar o segundo lugar e a dobradinha para a Red Bull. E um momento tenso aconteceu entre Hamilton e Piastri. O inglês partiu para cima do australiano da McLaren e em alta velocidade os dois se tocaram chegando na segunda chicane. Oscar quebrou a asa e teve de ir para os boxes, deixando a zona de pontos. Lewis foi considerado culpado pelos comissários e levou uma punição de 5s. Depois da corrida, pediu desculpas ao jovem estreante. “É o que cavalheiros devem fazer quando erram”, explicou, assumindo a responsabilidade pelo incidente. A Piastri restou o consolo de, com pneus novos depois da parada imprevista nos boxes, fazer a melhor volta da corrida entrando para as estatísticas oficiais da F-1.
Pérez tentou passar Sainz 200 vezes no mesmo lugar, a primeira chicane, e só conseguiu na volta 46. Mais atrás, Hamilton ia abrindo passagem com seus pneus mais aderentes. Passou Norris e foi para cima de Albon.
Na volta 47, a torcida da Ferrari ficou de cabelo em pé. Leclerc atacou Sainz, passou, mas depois foi superado pelo companheiro na curva seguinte. Os dois quase se tocaram mais de uma vez. E seguiram combatendo feito alucinados. Estavam tão perto que se um xingasse a mãe do outro de dentro do cockpit, seria ouvido. Na mureta da equipe, o chefe Vasseur pedia atendimento médico. Pelo rádio, o espanhol implorou: “Vamos levar os carros de volta pra casa!”. O que, em “corridês”, quer dizer: guerrear a essa altura da corrida não faz nenhum sentido, manda ele parar de fazer isso!
Foi só aí que a Ferrari orientou Charles ficar onde estava. Mas ele não respeitou a ordem. Partiu para cima de novo na última volta. Cortou a chicane, quase levou o companheiro ao abismo. Mas acabou não passando.
Verstappen, enquanto isso, desfilava lépido e faceiro para receber a quadriculada em primeiro, estabelecendo o supracitado recorde de dez vitórias seguidas. A Red Bull chegou a 15 triunfos consecutivos, os 14 deste ano mais o último da temporada passada, ampliando marca que já era sua. Foi a sexta dobradinha do time austríaco no campeonato, 28ª de sua história.
Verstappen, Pérez, Sainz, Leclerc, Russell, Hamilton, Albon, Norris, Alonso e Bottas terminaram na zona de pontos. Destaque-se aí o ótimo sétimo lugar de Albon e o empenho de Hamilton para chegar em sexto, mesmo com a punição. Bottas, em décimo, foi uma surpresa. A Alfa Romeo estava sem marcar um pontinho sequer havia cinco corridas. No Mundial de Construtores, os 27 pontos marcados pela Ferrari levaram o time italiano a passar a Aston Martin, que caiu para quarto na classificação: 228 x 217.
Sainz foi para o pódio com o boné da Ferrari, quebrando um protocolo comercial que exige que os três primeiros, na cerimônia, vistam a bombeta da Pirelli, fornecedora de pneus da categoria. Alguém vai ter de pagar por isso, mas nada que afete a saúde financeira de ninguém. O espanhol tentou reger a torcida, meio sem jeito, e a massa que invadiu a pista o aplaudiu. Verstappen, por sua vez, comemorou sua 12ª vitória em 14 corridas neste ano como fez em todas as outras: com discrição e naturalidade.
O holandês tem agora 47 troféus de primeiro colocado na carreira. Com mais quatro, iguala Alain Prost nas estatísticas. Faltam oito corridas para o final da temporada. A questão agora é, apenas, saber quando ele será matematicamente campeão e quais outras marcas vai derrubar até o encerramento do Mundial.
Momentos que serão comemorados, da mesma forma, discreta e naturalmente.