
SÃO PAULO (quem diria…) – Nem sempre a história é a história dos vencedores. Para falar da definição do grid para o GP de Singapura, hoje no circuito citadino de Marina Bay, é preciso começar com os perdedores. Os fracassados. Os oprimidos. Os malogrados. Os infaustos. Os desditosos. Os infelizes da Red Bull.
Sim, da Red Bull, aquela que ganhou 24 das últimas 25 corridas disputadas na F-1. Aquela que venceu as 15 últimas provas da categoria em sequência. Ela mesma, a Red Bull, líder absoluta do Mundial de Pilotos e de Construtores, equipe que costuma trucidar seus adversários sem dó nem piedade, subjugando-os ao ponto de transformá-los em farrapos, aviltando-os e ridicularizando-os.
Pois não tem Red Bull na pole.
Nem em segundo.
Nem entre os dez primeiros!
A Red Bull, aquela mesma de Max Verstappen e Sergio Pérez, de Christian Horner e Helmut Marko, de Vettel e Ricciardo, das latinhas de energéticos e das baladas com uísque e gelo, a Red Bull empacou no Q2! E não é porque trocou de motor, de câmbio, por punição, por nada!
Os humilhados se reergueram, ó deuses do automobilismo!
OK, me perdoem pelo descomedimento verbal. É que o que aconteceu hoje foi tão esquisito e insólito, que se faz necessário o uso de uma hipérbole aqui, outra ali. Verstappen é o 11º no grid para a corrida de amanhã, 15ª da temporada. Nem ele entendeu direito o que se passou. “Eu sabia que ia ser difícil lutar pela pole aqui. Mas nunca imaginei que seria tão ruim assim”, falou o piloto, que ainda encerrou a noite sendo investigado por três infrações ao longo do sábado – que serão descritas abaixo. “A gente não sabe direito o que aconteceu. Tentamos muitas coisas diferentes, mas tudo se resume a não termos encontrado a janela ideal para os pneus”, tentou explicar Buziner, o chefe.
Ah, a pole é de Carlos Sainz, a segunda seguida do espanhol da Ferrari neste ano. Clap-clap-clap, parabéns. Mas agora vamos contar um pouco deste sábado muito doido em Singapura.
Os primeiros sinais de que as coisas não estavam muito boas para a Red Bull começaram a ser dados nos dois treinos livres da sexta-feira. Se repetiram hoje na última sessão antes da classificação, com tempos muito discretos de seus pilotos e queixas incessantes pelo rádio, e se confirmaram à noite. Max só foi liderar a tabela de tempos pela primeira vez no fim de semana a 7min do final do Q1, e por pouquíssimo tempo – logo depois de sua volta rápida, Sainz veio com a Ferrari e o superou. Não era, definitivamente, o normal de 2023.
E foi divertido, esse Q1. Com a pista melhorando nitidamente na medida em que ia sendo emborrachada, os 20 pilotos deixaram os boxes ao mesmo tempo quando faltavam 2min para a quadriculada. Num circuito de rua, isso complica a vida de todo mundo, por causa do tráfego. Fora que se repetiu a cena insana de carros muito lentos preparando suas voltas sem saber direito quem podia estar vindo rápido atrás. O que motivou o aviso da direção de prova de uma investigação coletiva após a classificação, porque entre as curvas 16 e 19 vários pilotos se atrapalharam mutuamente.
Então começaram a aparecer, lá no topo, pilotos que não costumam frequentar as melhores posições, como Tsunoda em primeiro, Hülkenberg em terceiro, Lawson em quarto e Magnussen em quinto. Foram os primeiros do pelotão que fecharam suas voltas. A tendência era de uma queda acentuada dos tempos de todos.
Mas aí veio a grande pancada do dia.
Stroll, que estava na zona de eliminação, tentava se safar de mais uma degola e bateu violentamente na entrada da reta dos boxes. Saltou na zebra, perdeu o controle do carro e deu de frente no muro. Foi no exato instante em que o cronômetro zerou. A bandeira vermelha foi imediatamente acionada. Assim, aqueles que tentavam avançar ao Q2 não puderam completar suas voltas e ficaram onde estavam. Caíram Bottas, Piastri, Sargeant, Zhou e o desafortunado canadense da Aston Martin. Felizmente o piloto não se machucou – ao menos saiu sozinho do carro.
O soluço competitivo da Red Bull, que ganhou todas as corridas deste ano, resultou num sempre sonhado equilíbrio no início da classificação. Com Verstappen cheio de adversários, sem elevar o sarrafo do melhor tempo, a consequência foi que ao final do Q1 os 15 pilotos que avançaram ficaram separados por menos de 1s: apenas 0s677 entre o líder Tsunoda e o 15º, Albon. Sendo mais exato, até o 17º, Piastri, a diferença foi menor que 1s para o mais rápido do Q1: 0s911.
Para os registros, o japonês da AlphaTauri cronometrou sua melhor volta em 1min31s991.
Max passou em nono. E foi informado que seria investigado após a classificação. Isso porque numa de suas voltas à pista parou na saída do box segurando uma fila de carros atrás, mesmo com o sinal verde aceso. Ficou um tempão imóvel esperando o melhor momento de deixar o pitlane, sem se preocupar se estava incomodando alguém — como aqueles malas que ficam no celular na sua frente no semáforo e não percebem que abriu. Atrás dele, Leclerc, Sainz & companhia espumavam de raiva.
Depois, a direção de prova avisou que Verstappen seria investigado também por ter atrapalhado uma volta de Sargeant, da Williams. Segunda anotação do dia na caderneta do holandês.
Mais de meia hora depois da batida de Stroll a classificação foi retomada, após os serviços de limpeza do asfalto e vistoria da mureta de proteção. Verstappen foi o primeiro a sair dos boxes no Q2 e fez uma volta ruim, em 1min32s307. Quando todos fecharam sua primeira bateria de tentativas, o atual bicampeão do mundo era apenas o décimo colocado. E seu companheiro Pérez, o 11º. Não era mesmo o melhor fim de semana da temporada para a Red Bull.
Provisoriamente, na liderança, apareceu Russell, da Mercedes, com 1min31s743. Tsunoda, o líder do Q1, abortou sua volta por ter pegado Verstappen lento pela frente. Xingou bem pelo rádio, talvez sem saber quem era. Quando entrou nos boxes, foi chamado para a pesagem. A reclamação radiofônica teve efeito: mais um comunicado da direção de prova, avisando que Max seria investigado por ter atrapalhado o pequenino japonês. Terceira marquinha na folha corrida do dia.
A segunda volta de Verstappen foi igualmente ruim, ficou em décimo, mas ainda tinha gente na pista. E ele acabou superado por Lawson, da filial AphaTauri. “Vocês viram? Foi uma experiência chocante, absolutamente chocante!”, falou o holandês pelo rádio, incrédulo.
Pois é. Max Emilian Verstappen, 12 vitórias em 2023, não passou do Q2! Para piorar a vida do time austríaco, Pérez rodou, estragou sua volta e também foi eliminado, com o 12º lugar. Gasly, Albon e Tsunoda foram os outros que ficaram pelo meio do caminho.
Sainz fechou o Q2 em primeiro com um temporal, 1min31s439. A surpresa foi a Haas, levando seus dois carros ao Q3. Russell e Alonso, segundo e terceiro, foram bem. E Lawson, claro, merece uma menção honrosa. Em seu terceiro GP, colocou a AlphaTauri entre os dez primeiros no grid. Só não será titular em 2024 se a matriz rubro-taurina insistir com Ricciardo, o que faz cada vez menos sentido.
Sem os dois carros da Red Bull, todo mundo no Q3 tinha o direito de sonhar com alguma coisa. Na primeira bateria de voltas rápidas, Sainz tornou a se impor com 1min31s170, um tempo muito bom, 0s251 à frente de seu companheiro Leclerc, o segundo. Andando bem desde o início das atividades, ontem, o espanhol era o franco favorito à pole. Na segunda saída, baixou ainda mais seu tempo, para 1min30s984. E conseguiu pela quinta vez na carreira a primeira colocação de um grid. Russell, 0s072 atrás, ficou em segundo. Leclerc foi o terceiro, a 0s079. Norris, Hamilton, Magnussen, Alonso, Ocon, Hülkenberg e Lawson fecharam a turma dos dez primeiros.
Pela primeira vez no ano, os rubro-taurinos se encaixam na categoria “zebra” de um GP. Salvo alguma situação muito excepcional, a sequência de vitórias de Verstappen (e, vá lá, Pérez) será interrompida amanhã. A tendência, nesses casos, é apontar o pole como maior candidato ao degrau mais alto do pódio. Mas talvez Sainz não seja exatamente a melhor aposta. Vejam o grid abaixo:
Os carros italianos têm tido problemas em ritmo de corrida, embora em Monza, duas semanas atrás, as coisas não tenham sido tão ruins. Olho em Russell. Ele vem fazendo um trabalho sólido neste fim de semana e a Mercedes fez uma jogada de pneus que lhe garantiu dois jogos médios zerinho para amanhã. Alonso, em sétimo, não deve ser de todo desprezado. É esperto, sabe aproveitar oportunidades. Norris corre por fora. E a Ferrari, claro, tem todo direito de sonhar com pódio, talvez a vitória.
E Max? Em provas passadas, Verstappen venceu mesmo largando mais atrás, alguém há de argumentar. Só que seu carro não está andando nada em Singapura. OK, é corrida que sempre tem safety-car, desgastante, quente. Mas não se tira desempenho do nada de um dia para o outro. Amanhã, ouviremos da Red Bull frases como “hoje era dia para reduzir os danos”. Até pódio é bem difícil — algo que parecia impensável de se dizer nesta temporada.
Por essas e outras, deve ser um GP interessante. O grande protagonista do ano, pelo menos neste domingo, será coadjuvante.