Blog do Flavio Gomes
F-1

NÃO TÃO PURA (3)

SÃO PAULO (delícia de ver) – Se a Red Bull não existisse, talvez a F-1 fosse mais divertida. Pelo menos neste ano. Porque a Red Bull não existiu no GP de Singapura. E, sem ela – na verdade, sem Max Verstappen –, o que se viu foi uma corrida disputada até os últimos metros por […]

Sainz vibra em Singapura: ótimo GP, sem Red Bull para atrapalhar…

SÃO PAULO (delícia de ver) – Se a Red Bull não existisse, talvez a F-1 fosse mais divertida. Pelo menos neste ano. Porque a Red Bull não existiu no GP de Singapura. E, sem ela – na verdade, sem Max Verstappen –, o que se viu foi uma corrida disputada até os últimos metros por pilotos de três equipes diferentes. A vitória foi da Ferrari, com o pole-position Carlos Sainz. O espanhol teve uma atuação brilhante desde a largada, controlando a prova e mostrando um sangue frio acima da média nas últimas voltas, ao manter o segundo colocado Lando Norris, da McLaren, a menos de 1s de distância, para que ele conseguisse se defender da maior ameaça ao seu resultado, a Mercedes de George Russell.

Russell acabou batendo na última volta e o terceiro lugar no pódio foi herdado pelo outro carro da Mercedes, de Lewis Hamilton. Verstappen, que teve seu pior fim de semana na temporada, terminou em quinto depois de largar em 11º. Foi a primeira derrota da Red Bull no ano. Para Sainz, a segunda vitória na carreira – a outra fora em Silverstone no ano passado.

Sem a Red Bull – na verdade, sem Verstappen –, o circuito de Marina Bay teve corrida com muita gente participando dela atrás do que interessa: vencer. Sainz recebeu a quadriculada 0s8 à frente de Norris, que por sua vez cruzou a linha 0s4 à frente de Hamilton. Chegadas assim são sempre emocionantes. Mas, até ela, aconteceu bastante coisa. Então, deliciem-se.

Stroll fora: resultado do acidente de ontem

O dia começou com o anúncio da desistência de Lance Stroll de participar do GP de Singapura. O canadense acordou todo dolorido e, como é filho do dono da Aston Martin, pode se dar o luxo (ou “ao luxo”, as duas formas são aceitas) de escolher se corre ou não corre. “Paiê, tá doendo tudo, hoje vou não vir, tá?”, foi a mensagem que mandou para Lawrence. É geralmente o que acontece depois de uma pancada forte. Na hora, o piloto não sente nada – o corpo está “quente”, como se diz. No dia seguinte, dói até a alma.

A escolha de pneus para a largada recaiu sobretudo nos médios. Três escolheram os duros: Verstappen, Pérez e Bottas. Outros três, macios: Leclerc, Tsunoda e Zhou. Os macios de Chaleclé foram muito úteis para pular à frente de Russell ao apagar das luzes vermelhas, como diria aquele antigo locutor de rádio.

Deu certo e, assim, graças a uma boa largada de Sainz, o pole, os dois carros da Ferrari saltaram na ponta e foram embora, enquanto mais atrás Russell se ocupava da defesa de sua posição, cobiçada por Hamilton e Norris. Lewis passou ambos por fora da pista na primeira curva. Pouco depois devolveu o lugar a ambos, para não ser punido. Sainz, Leclerc, Russell, Norris, Hamilton, Alonso, Ocon, Magnussen, Verstappen e Hülkenberg, na quinta volta, eram os dez primeiros. Max, 11º no grid, ganhou duas posições no início e, na sétima volta, passou Magnussen e assumiu o oitavo posto. Até que seu ritmo de corrida, diante do fiasco de ontem, não era tão ruim.

O espanhol da Ferrari na frente: controle absoluto do começo ao fim

Na Ferrari, tudo estava combinado desde o GP da Itália, onde Leclerc parecia um maluco atrás de Sainz, colocando em risco o pódio da equipe correndo em casa. O comportamento do monegasco foi visto com algumas ressalvas pelo espírito atento de Enzo Ferrari. Por isso, em Singapura, ordens explícitas foram delineadas após a definição do grid. O papel de Charlinho, caso Sainz mantivesse a ponta na largada, seria de escudo para o companheiro. Nada de ataques. Ele seria, como alertou o engenheiro de Russell ao seu piloto, “sacrificado” pelo time vermelho.

Chaleclé assentiu calado. Emprego não está fácil por aí, ainda mais com carteira assinada, vale-transporte, férias e 13º. No caso da Ferrari, tem até tíquete restaurante. Mesmo com pneus mais rápidos, permitiu que o espanhol, na altura da 14ª volta, abrisse 1s8. Sua preocupação seria Jorginho em terceiro. A Ferrari queria cobrir qualquer possibilidade de uma perda de posição nos boxes, afastando o inglês do líder da corrida. Para isso, pediu a Leclerc que ficasse 3s atrás do companheiro. “OK, pessoal”, respondeu educadamente o garoto das comunidades de Mônaco. “Mas, caso isso aconteça, quem se fode sou eu”, emendou, já não tão educadamente assim.

O primeiro terço da corrida não foi grande coisa. O circuito de Marina Bay não é dos mais fáceis para ultrapassagens e, por isso, as posições se acomodaram com todo mundo à espera das primeiras paradas. Ou, quem sabe, de alguma barbeiragem que resultasse num safety-car. Leclerc seguia recebendo instruções pelo rádio. “Agora, mon cher, queremos cinco segundos de tranquilidade para Carlos”, pediu o engenheiro. O piloto, conformado, suspirou e não disse mais nada.

Russell: candidato à vitória até o fim, sucumbiu na última volta

Falávamos de uma eventual barbeiragem, e ela aconteceu na volta 19. Sargeant bateu de leve no muro, quebrou o bico, espalhou detritos pela pista e a direção de prova decidiu acionar o safety-car na volta 20. Todo mundo foi para os boxes colocar pneus duros. E a Ferrari, como de hábito, se atrapalhou com um de seus carros. O de Leclerc. A parada demorada, de 5s7, foi explicada ao piloto como necessária “por causa do tráfego”. Charlinho suspirou de novo. Perdera duas posições, para Russell e Norris.

Quando disse, acima, “todo mundo”, não fui lá muito preciso. Quem estava com pneus duros desde a largada não parou, escalando o pelotão. Isso significa que, ao voltar para a pista e olhar no retrovisor, Sainz viu atrás dele…  Verstappen em segundo! Pérez aparecia em quarto. Bottas, em décimo.

Carlos ficou apavorado. “¡É ele! ¡É o Max! ¡Cabrón! ¡Hijo de puta! ¿Cadê o Charles? ¡Preciso do Charles!”, começou a gritar, com exclamações e interrogações de ponta-cabeça, o que foi interpretado por seu engenheiro como uma espécie de confusão mental por causa do calor. “Calma, Carlos, ele está com pneus velhos, o carro está ruim, não dormiu bem. Fique tranquilo.” Na relargada, na volta 22, Max sustentou a posição por uma volta e meia. Russell, com pneus novos, conseguiu passar e foi para cima de Sainz. Pérez também perdeu posições para Norris e Hamilton. A estratégia da Ferrari começou a ficar ameaçada. Porque atrás dele não estava mais o parceiro para segurar todo mundo. Nem Verstappen com pneus velhos. O problema do espanhol se chamava George Russell, louco para ganhar uma corridinha.

Norris, segundo colocado: festa da McLaren

A borracha desgastada de Verstappen permitiu a ultrapassagem também de Norris, que assumiu o terceiro lugar. Hamilton veio logo depois e fez o mesmo. Max caiu para quinto. Aí veio Leclerc. O carro da Red Bull era presa fácil, com pneus velhos e um carro surpreendentemente ruim. Soube, pelas minhas fontes, que o holandês xingava todo mundo desde a largada, mas o rádio fora desligado. Por isso não sabia nem em qual volta teria de parar para trocar os pneus.

As posições se acomodaram novamente. Russell, em segundo, se espantava com o ritmo contido de Sainz na liderança. “Ele está querendo segurar a gente, percebo uma estratégia premeditada de impedir que imponhamos nosso próprio ritmo, e isso tem um pouco a ver com questões históricas entre italianos e alemães desde a Segunda Guerra, o desprezo que os germânicos dedicavam aos parceiros do Eixo, admirando muito mais os japoneses por sua resiliência e, por que não dizer?, suas tendências suicidas que eram tratadas como corajosas nas figuras dos camicases…” Foi interrompido pelo engenheiro, que encerrou aquela ladainha abruptamente: “George, você é inglês e ele é espanhol, você gosta de críquete e ele de touradas, vai tocando aí que depois a gente se fala”.

Mais atrás, Pérez x Ocon x Alonso foi um dos bons momentos da corrida. O mexicano tinha pneus velhos e segurava todo mundo. Fernandinho teria de cumprir 5s por cortar a entrada dos boxes no pit stop. O francês fazia aniversário, 27 anos. Nas voltas 38 e 39 os três ficaram trocando posições e ofensas com Ocon se saindo melhor, passando ambos. Na 40ª volta, finalmente, Pérez parou para trocar pneus. Caiu para último. Na 41ª, Verstappen, sexto, parou também. E foi parar em 15º. O fim de semana da Red Bull era o pior desde o dia em que Dietrich Mateschitz colocou as latinhas de energéticos no mercado austríaco, em 1987, depois de uma lisérgica viagem à Tailândia para vender pasta de dente.

Segunda vitória de Sainz: corrida perfeita

Na volta 42, Ocon quebrou. Estava em sexto e esmurrou o volante, de raiva. O safety-car virtual foi acionado. E aí? Parar ou não parar, eis a questão. A Mercedes resolveu parar. Colocou um jogo de pneus médios novo, novo, novo no carro de Russell. Outro no de Hamilton. Sainz, Norris e Leclerc eram os três primeiros quando, na volta 45, a prova foi retomada. Russell caíra para quarto, 13s4 atrás do monegasco, mas com pneus novos.

Verstappen, na volta 48, entrou de novo na zona de pontos ao ultrapassar Zhou. A meta da equipe passou a ser “não sair daqui no zero”, o que representaria um vexame ainda maior. Depois, passou Hülkenberg e Lawson, assumindo o oitavo lugar. Na ponta, Sainz seguia tranquilo, mas Norris aparecia em seu retrovisor. Leclerc, desanimado, era o terceiro. Russell, babando, tirava 2s por volta do monegasco e rapidamente chegaria para brigar pelo pódio.

A dez voltas do final, George estava 2s atrás de Leclerc. Para sonhar com uma vitória, não poderia perder tempo atrás da Ferrari #16. Ainda teria Norris pela frente e uma possível briga com Sainz. A vantagem do piloto da Mercedes eram os pneus mais novos e velozes. Os três primeiros colocados tinha pneus duros gastos.

Russell passou Leclerc na volta 53. Hamilton fez o mesmo na 54. O alvo seguinte da dupla mercêdica era a McLaren de Norris, 6s à frente. Os dois carros pretos vinham feito alucinados para cima de Lando. Mas faltava pouco para terminar a prova. Seria necessário passar o automóvel papaia e, depois, atacar o espanhol. Que, presumivelmente, defenderia a ponta com a vida e a honra, se preciso fosse.

(Verstappen, àquela altura, na volta 58, assumia a sexta posição ao passar Gasly. Uma recuperação aceitável, não mais que isso. E terminou em quinto. À espera de dias melhores. Se possível na semana que vem, em Suzuka. Sua sequência de dez vitórias foi encerrada. A invencibilidade da Red Bull no campeonato, também.)

Russell chegou em Norris na volta 59. Inteligente, Sainz permitiu que o inglês ficasse a menos de 1s dele, para poder abrir a asa móvel e se defender de Jorginho. Os quatro primeiros, então, ficaram colados. Lando resistiu. Carlos monitorava a turma atrás dele de forma surpreendentemente fria e calculista.

Foi um fim de prova belíssimo, tenso, nervoso. Tanto que, na última volta, Russell bateu. Norris nem acreditou. Hamilton não teve tempo de atacar o jovem mclariano e ficou com o terceiro lugar no pódio. Leclerc, Verstappen, Gasly, Piastri, Pérez, Lawson e Magnussen completaram a zona de pontos. Palmas para Piastri, que largou em 17º e chegou em sétimo. E aplausos efusivos para o jovem neozelandês da AlphaTauri. A equipe tinha três pontos no Mundial em 14 corridas. Ele marcou dois em seu terceiro GP. Será titular em 2024. Ricciardo e Tsunoda que lutem.

O resultado elevou Hamilton ao terceiro lugar no Mundial de Pilotos, ultrapassando Alonso – que zerou pela primeira vez na temporada: 180 x 170. Verstappen foi a 374, contra 223 de Pérez. A má performance da Red Bull não afetou o campeonato em nada. No máximo, a autoestima da equipe. No Mundial de Construtores, os 37 pontos anotados pela Ferrari acirraram a briga pelo vice. A Mercedes, que fez 16, tem 289, contra 265 dos italianos.

Semana que vem tem mais, no Japão. E as coisas devem voltar ao normal.