
SÃO PAULO (cumprindo tabela) – O fim de semana “incrível” de Max Verstappen terminou com mais uma vitória do holandês na temporada. Venceu o GP do Catar, conseguindo seu 14ª triunfo no ano em 17 etapas. Ontem ele se sagrou tricampeão mundial. Hoje conquistou a 49ª vitória de sua carreira. Faltando cinco corridas para o final do campeonato, ele agora tem duas metas não declaradas: passar Alain Prost (51) e Sebastian Vettel (53) nas estatísticas e bater o recorde de vitórias em uma temporada — marca que é dele mesmo; foram 15 no ano passado.
A corrida, maculada pelo problema dos pneus detectado na sexta à noite pela Pirelli (veja post abaixo) e pelo calor desumano, foi ruim. Meio besta, por conta do limite de voltas para cada jogo de pneus imposto pela fornecedora, por razões de segurança. No fim das contas, o destaque do fim de semana – Verstappen e Red Bull à parte – foi a McLaren. Ontem, a equipe papaia fez primeiro e terceiro na Sprint de Lusail com Piastri e Norris. Hoje voltou a colocar seus dois pilotos no pódio: Oscar em segundo, Lando em terceiro. É o grande time da segunda metade de 2023.
O grid esteve desfalcado de um carro, a Ferrari de Carlos Sainz. A equipe descobriu um vazamento de combustível antes da largada e não conseguiu encontrar de onde. Carburador? Boia? Bomba? Filtro? Mangueira? Azar dele.
O início da prova foi dos mais tumultuados. Hamilton, com pneus macios, largou bem e percebeu a chance de ultrapassar seu companheiro Russell por fora. Este tinha médios, menos aderentes. Mas Lewis errou miseravelmente o cálculo quando mergulhou para a curva à direita. Acertou seu pneu traseiro direito no dianteiro esquerdo de Jorginho.
Lewis arrebentou a suspensão, rodou e abandonou. “Você está bem, parceiro?”, perguntou seu engenheiro Bono Vox. “Sim. Fui tirado da corrida por meu companheiro de equipe”, respondeu o heptacampeão mundial. Do outro lado da trincheira, Russell berrava loucamente. “Aaaaaaaahhhhh! Não é possível! De novo! Duas corridas seguidas! Existem certas regras de convivência que precisam ser respeitadas, ainda que não sejamos propriamente amigos, daqueles que jogam buraco aos domingos tomando ponche de frutas e ouvindo boleros de Francisco Alves, enquanto nossas esposas preparam macarronada com molho de tomate e queijo ralado de pacotinho…”, e nisso foi interrompido por Toto Wolff, que nem no autódromo estava. “George, cale a boca.”
(Hamilton foi multado em 25 mil euros por cruzar a pista a pé de forma perigosa, com carros podendo aparecer a qualquer momento em alta velocidade. Pediu desculpas e admitiu que não devia ter colocado ninguém em risco.)
O safety-car foi acionado antes mesmo de terminada a primeira volta. Russell foi para os boxes trocar pneus e verificar danos. Voltou lá atrás. Na relargada, na abertura da quinta volta, Verstappen, que tinha partido sem problemas, Piastri, Alonso, Leclerc e Ocon eram os cinco primeiros. Hülkenberg, em oitavo, foi avisado de que tomaria um pênalti de 10s por alinhar o carro fora de lugar – ele teve problemas quando fez a prova de baliza aos 18 anos, tirando a carteira de motorista.
Russell voltou com a faca nos dentes, como se diz, numa referência aos piratas do Caribe. Na volta 10 já estava na zona de pontos, passando todo mundo. Como a prova seria marcada pelos múltiplos pit stops ordenados pela Pirelli – que concluiu que não mais do que 18 voltas poderiam ser completadas com cada jogo de pneus –, as mudanças de posição determinadas pelas paradas de boxes eram muito frequentes.
E foi ali pela 11ª volta que as trocas começaram. Era importante notar que esse limite de 18 voltas por jogo de pneu estabelecido pela Pirelli incluía as percorridas nos treinos e na classificação. Russell foi escalando o pelotão na medida em que todos paravam e na volta 15 era o segundo colocado, quando fez seu segundo pit stop. Albon, então, apareceu na vice-liderança. Verstappen, ainda sem trocar pneus, tinha mais de 20s de vantagem para o tailandês da Williams. Pérez, que largou com pneus duros, era o terceiro.
Max usou sua borracha até onde era permitido e parou no final da volta 17. Albon assumiu a ponta, mas tinha de parar também na volta seguinte, o que fez. Verstappen retomou a primeira posição e Piastri apareceu em segundo, abrindo caminho vindo lá de trás com pneus novos. Com 20 voltas, Bottas era o terceiro e Alonso, o quarto. O finlandês da Alfa Romeo se beneficiara de uma troca durante o safety-car. Mas teria de parar de novo em breve. Fernandinho passou por ele e foi atrás de um pódio — àquela altura, bastante provável.
A situação ridícula dos pneus ameaçados pelas zebras do Catar fazia com que a transmissão oficial da F-1 informasse o tempo todo quem teria de parar nos boxes e quando, acabando com qualquer especulação e/ou tentativa das equipes de surpreenderem seus adversários. Na volta 25, Piastri foi para os boxes e Alonso assumiu o segundo lugar. Naquele momento, Hamilton chegava à zona mista de entrevistas e assumia a bobagem que fizera com Russell. “Na hora, de cabeça quente, falei aquilo. Mas depois vi as imagens e George não tinha mesmo para onde ir”, assumiu. “ É 100% culpa minha.”
Alonso parou na volta 27. Pouco antes, avisara à Aston Martin que seu rabo estava quente. “Tem alguma coisa queimando meu traseiro no banco, joguem água, façam alguma coisa!” Ninguém fez nada – não havia o que fazer — e ele saiu dos boxes com a bunda em chamas. Na metade da prova, Verstappen, Russell (a 23s), Pérez (com punição a cumprir por exceder os limites da pista), Albon, Piastri, Zhou, Norris, Alonso e Bottas eram os dez primeiros.
Na volta 33, o então provável pódio de Alonso foi para a brita. O espanhol da Aston Martin perdeu a traseira de seu carro, foi para a área de escape e quando voltou quase mandou Leclerc para o Golfo Pérsico. Perdeu várias posições e a chance de levar um troféu para casa.
Verstappen parou na volta 34 e saiu dos boxes tranquilamente em primeiro, com Piastri e Norris em segundo e terceiro. Depois da xaropada de Alonso, El Fodón de la Caja de Britón, era o pódio que deveria ser confirmado na bandeira quadriculada, ainda que até lá algumas posições se alterassem pelo momento em que cada piloto fizesse sua terceira ou até quarta parada.
Pérez, que tinha alguma chance de fazer pontos mesmo tendo largado dos boxes, recebeu uma segunda punição de 5s por ultrapassar os limites da pista. Pelo rádio, seu engenheiro, claramente de mau humor, deu-lhe uma dura. “Mais uma. Isso está acabando com nossa corrida”, falou. “Cucurrucucúúúú! Palooooomaaaaa, no llores!”, respondeu o mexicano. “Como?”, perguntou o engenheiro. “Que una paloma triste, muy de mañana le va a cantar… A la casita sola, con sus puertitas de par en par! Juran que esa paloma no es otra cosa más que mi alma, que todavía la espera a que regresse…” “Está delirando”, comentou Christian Horner, e entrou no rádio: “Checo! Checo! Está tudo bem?”. “Ay, ay, ay, ay, ay, lloraba, ay, ay, ay, ay, ay, gemía, ay, ay, ay, ay, ay, cantaba, de pasión mortal moría…”
Quem quase morreu foi Sargeant, que pouco mais de dez voltas antes do final pediu à equipe para abandonar a corrida. Estava esgotado fisicamente e não aguentou o tranco. O time, claro, deu a maior força para o menino. “Pelo menos não vai bater em nada”, disse um mecânico cuja leitura labial consegui fazer pela TV. Mas não foi o único. Todos os pilotos se queixaram do calor e das condições extremas da corrida. Albon foi ao centro médico. Ocon vomitou dentro do carro. Stroll disse que chegou a perder a consciência. Amanhã, no “Sobre ontem…”, vamos discutir isso melhor.
Na volta 48, Verstappen liderava com Russell em segundo, Piastri em terceiro e Norris em quarto. O inglês da Mercedes tinha mais uma parada obrigatória. Assim, restava saber quem ficaria em segundo e terceiro. A McLaren acabou com as dúvidas pelo rádio, pedindo a Lando para não atacar o companheiro e determinando que as posições finais seriam aquelas. O inglês contestou, reclamou, arguiu, replicou, argumentou, discutiu, debateu, mas a equipe foi inflexível. E fez muito bem.
Max fez seu derradeiro pit stop na volta 52. Naquele momento, dos dez primeiros, apenas Zhou, em sexto, ainda tinha uma troca para realizar. Verstappen fechou a corrida em primeiro, léguas à frente de Piastri, o segundo. Norris, Russell, Leclerc, Alonso, Ocon, Bottas, Zhou e Pérez fecharam a zona de pontos, com destaque para a bela recuperação de George e o quase milagre da Alfa Romeo, de colocar dois carros entre os dez primeiros — passando a Haas no Mundial de Construtores.
A F-1 volta à América daqui a duas semanas para o GP dos EUA, em Austin. Será mais um fim de semana de Sprint. Mais dois dias incríveis para Verstappen, que agora só busca recordes. E também para continuarmos a apreciar a incrível ascensão da McLaren e seus dois garotos velozes.
E, claro, para discutir algumas coisas sérias. Correr no Catar faz algum sentido? Que F-1 é essa que não se importa em não ter uma etapa na Alemanha ou na França e tem etapas em países abjetos e com condições climáticas inaceitáveis para a segurança de todos?
Chega de tapar o sol com a peneira e de achar que tudo que a Liberty faz é legal. Não é. Não tem nada de legal. Gasta-se muita energia para debater (e vetar) a entrada de uma nova equipe na categoria, algo que só agrega valor e amplia a competição, e nada para os absurdos geopolíticos e esportivos de uma categoria que se acha o máximo, mas derrapa o tempo todo.