ALERTA DE ATUALIZAÇÃO: quase quatro horas após o fim da corrida, Lewis Hamilton (segundo colocado) e Charles Leclerc (sexto) foram desclassificados porque as pranchas de madeira sob o assoalho de seus carros apresentou desgaste maior que o permitido. Assim, o resultado foi alterado e o texto, idem.

SÃO PAULO (para poucos…) – Max Verstappen teve paciência para vencer o tático GP dos EUA hoje no Texas. Largando em sexto, depois de uma punição na sexta-feira que lhe tirou a pole, precisou de meia corrida para assumir a ponta em Austin. Jogou com a estratégia de pneus dele e dos outros, e com a gestão da borracha. Não arriscou muito. Soube esperar o momento certo de tomar o controle da prova. Quando o fez, não teve muito com que se preocupar. Caminhou célere para a 50ª vitória de sua carreira. E a ela chegou.
Faltam quatro etapas para o fim do Mundial. Nas estatísticas, Max tem à frente, em número de vitórias, apenas quatro pilotos: Lewis Hamilton (103), Michael Schumacher (91), Sebastian Vettel (53) e Alain Prost (51). Deve fechar o ano à frente do francês, pelo menos. Se passar o alemão que se aposentou no ano passado, ninguém deve se espantar. É um fenômeno de desempenho, frieza, talento e precisão. Não se sabe onde vai chegar quando pendurar o capacete. Ainda que não solte rojões, nem comova multidões com carisma inigualável, pode ser que atinja o topo do topo: o melhor de todos os tempos.
Eu que não duvido.
E vamos à história desse GP texano, que não foi grande coisa, mas mostrou, mais uma vez, a capacidade da Red Bull e de Verstappen de lidar com a adversidade e, de um limão siciliano, fazer uma deliciosa macarronada com molho cremoso e delicado. E que teve, como visto na caixona vermelha acima, seu resultado alterado cerca de quatro horas depois do final, com as desclassificações de Hamilton e Leclerc.
Com sol e calor, o GP dos EUA começou com a informação dos organizadores de que 432 mil ingressos foram vendidos para os três dias do evento. De fato as arquibancadas estavam cheias. Foi a segunda prova realizada no país neste ano. Ainda tem mais uma, em Las Vegas.
De décimo no grid para sexto ao fim da primeira volta, Oscar Piastri foi quem largou melhor entre os 16 no grid — quatro almas largaram dos boxes, as duplas da Haas e da Aston Martin. O australiano, porém, só foi protagonista no comecinho da prova de Austin. Acabaria abandonando a corrida, com um vazamento de água. Resultado de um esfrega-esfrega com Ocon, que também abandonou. Olho lá na frente, então.
Leclerc se preocupou tanto em se defender e manter a pose de pole-position que acabou sendo superado por Norris, companheiro de Piastri. O inglês da McLaren, segundo no grid, assumiu a ponta nos primeiros metros da prova e se mandou.
Observação sempre relevante, antes de seguir: todos os pilotos largaram com pneus médios – OK, nem todos; as exceções foram Hülkenberg e Stroll, dois dos que saíram dos boxes. Mas é importante dizer porque, ao final das 56 voltas nos EUA, a escolha pelos compostos médios e duros acabaria tendo alguma influência no resultado final.
Verstappen ganhou apenas uma posição na largada, avançando de sexto para quinto. Começou a prova discretamente, sem incomodar ninguém. Ficou ali calminho, assobiando e escutando Duran Duran no toca-fitas Bosch modelo Rio de Janeiro instalado no cockpit. Sem o tradicional e incrível amplificador Tojo, é bom que se diga, preterido por causa do peso. À frente dele, Hamilton mergulhou para cima de Sainz e ganhou a terceira posição. Norris, Leclerc, Lewis, Sainz e Max eram os cinco primeiros na volta 5.
Ao final dela, a volta 5, Verstappen passou pelo espanhol sem muito esforço para assumir o quarto lugar. Naquele momento, tocava “Save a Prayer” no sonzão de seu Red Bull. A fita do Duran Duran era C90, suficiente para a corrida toda. E Rio de Janeiro, como se sabe, tem auto reverse.
A Ferrari não enchia os olhos de ninguém, mesmo. Tanto que logo depois Hamilton passou por Leclerc com enorme facilidade, assumindo o segundo lugar. O monegasco suspirou e olhou no retrovisor. Ouvia, a distância, alguma música conhecida. Era “Hungry Like the Wolff”, saberia depois. Saía dos alto-falantes Bravox triaxiais do carro de Verstappen, que já vinha colado nele.
Foi na 11ª volta que Max passou por Charlinho. A música ainda não tinha terminado. A próxima era “The Reflex”. “Gostei dessa!”, disse o piloto pelo rádio. “Foi mesmo uma ótima ultrapassagem, Max”, respondeu o engenheiro. “Tô falando da música, GP”, respondeu o piloto. “GP” é como ele chama Gianpiero Lambiase, que fica em contato com ele a corrida toda. “Também gosto, Max. O que vem agora?”, devolveu GP. “É o Hamilton! U-hu!”, informou Verstappen. “Não, Max. A próxima música…”, corrigiu o engenheiro. “Ah, deixa eu ver… ‘New Moon on Monday’, tá escrito aqui na caixinha.” “Também gosto dessa, Max”, vibrou o parceiro de todas as horas.
Na volta 17, Verstappen parou. Colocou mais um jogo de pneus médios e caiu para nono. “Você tem certeza, Max?”, perguntou Lambiase. “Sim, ‘New Moon on Monday’, tá escrito aqui.” “Não, Max, certeza que era para colocar médios? Assim vamos ter de parar de novo.” “Ah, sei lá… Ouve, ouve, vou aumentar o volume aqui. Tem Dolby, mano! Esse Rio de Janeiro é foda!”
Tive alguns. É foda, mesmo.
No rastro da parada de Max, os pit stops começaram a ser feitos em ritmo frenético. Na 18ª volta, o líder Norris parou também. Colocou pneus duros, insinuando que poderia fazer apenas uma visita aos boxes. Hamilton assumiu a liderança. Pérez, mais atrás, parou e espetou um jogo de pneus médios. Pelo rádio, a Red Bull informou a Verstappen que Lewis poderia estar numa estratégia de apenas uma parada. “Ah, é? Legal… Olha só! Tenho uma coisa pra te dizer, GP!”, falou Max. “O quê? Vamos de macios no fim?” “Não, não! ‘The Wild Boys’ é a próxima, adoro essa!” Foi quando Christian Horner entrou no rádio colocando um ponto final àquele papinho aranha de adolescentes gravando cassetes nas tardes de domingo. E deu-lhe uma senhora bronca: “Max, você só levou essa fita? Duran Duran, sério isso? Na próxima parada temos duas opções pra você. Simple Minds ou Supertramp”, avisou. “Supertramp”, respondeu o piloto.
Quando Lewis trocou seus pneus, colocando um jogo de duros possivelmente para ir até o fim da corrida, perdeu a posição para Verstappen. A parada foi ruim. Leclerc assumiu a liderança, porém sem pit stops. Norris vinha em segundo e Max, em terceiro. Charlinho era o único na pista que não tinha parado, ainda. Sua estratégia — desastrosa, ver-se-ia depois — era de apenas uma troca. Foi para o box na volta 24 e Landinho retomou a ponta. A corrida estava entre ele, se fizesse apenas uma parada, e Verstappen.
Max chegou em Norris na volta 27. E exatamente na metade da prova, na 28ª, passou o britânico do time papaia. “Viram? Viram?”, gritou no rádio. “’A Matter of Feeling’, é linda…”, suspirou o chefe da Red Bull. “Chris, eu passei o Norris! Eu tô em primeiro, é sobre isso…”, reclamou o piloto. “Steal away in the mooooorning…”, seguiu cantando Horner, os olhos fechados, a cabeça gingando para um lado e para o outro, lembrando aqueles dias encantados dos anos 80, sem se importar minimamente com o entusiasmo de seu piloto.
Em segundo, Norris teria a corrida na mão, se não precisasse parar de novo. Atrás de Verstappen, passou a dedurar o rival. “Ele saiu da pista, olha lá no teipe!”, gritou. “OK, Lando”, ouviu de volta, da equipe. “Ele tá virando a fita sem o auto reverse, olha lá na on-board dele!”, insistiu. “OK, Lando.” “Ele fez tchau pra uma mina na arquibancada e tem namorada, olhá lá!”, seguiu. “OK, Lando.”
Para ganhar a prova, teoricamente, Verstappen precisaria abrir mais de 20s para Norris, para colocar um segundo jogo de pneus e – vá lá – trocar a fita do Duran Duran para a sugerida por Christian Horner, a do Supertramp. Isso, claro, considerando uma hipotética estratégia de apenas um pit stop do inglês do carro #4. Seis voltas depois de passar por Norris, porém, sua diferença para o inglês da McLaren era de apenas 3s4. Não conseguia abrir muita coisa. Então – surpresa! –, Lando foi para os boxes na volta 35. Ué, não era uma parada só? Em tese, sim. Mas, pelo jeito, a borracha não aguentou. Colocou duros, de novo.
E, aí, acabou a brincadeira.
“Pessoal, cadê o Landinho?”, perguntou Max, ao assumir a liderança. “Vou parar também.” Foi o que fez, na volta seguinte. Colocou pneus duros, para voltar à frente de Norris. E voltou, com pouco menos de 2s de vantagem. A corrida ficou para ele. À sua frente, Hamilton, Pérez e Leclerc ainda teriam de fazer uma segunda parada cada. Não precisaria passar ninguém.
Pérez foi para os boxes na 38ª volta, e Lewis parou na 39ª, exatamente enquanto Max ultrapassava Leclerc. E, assim, o tricampeão assumiu a liderança de fato e de direito, com todos na pista tendo parado duas vezes. A dupla da Mercedes foi para a fase final da corrida com pneus médios. Hamilton era o quarto colocado e Russell, o nono. Max teria, no máximo, de monitorar Norris, o segundo. Leclerc ocupava a terceira posição.
Foi quando Verstappen reclamou pelo rádio. “Eu queria aquele disco gravado ao vivo em Paris, Chris. Você colocou ‘Breakfast in America’. É legal, mas não é ao vivo”, queixou-se, com razão. Pouco atrás, Hamilton, de pneus médios, passou a atacar Leclerc, com pneus duros. Valia um lugar no pódio. Lewis passou na volta 43. Havia uma chance de buscar Norris, que tinha pneus duros. A diferença esbarrava nos 4s.
“Dá pra ir até o fim?”, voltou Verstappen ao rádio. “Claro, Max. Esses pneus aguentam”, tranquilizou-o Lambiase. “Tô falando de ‘Take the Long Way Home’, que começou agora. Quanto tempo tem?” O engenheiro foi ao Google: “Cinco minutos e nove segundos, Max, menos de quatro voltas”, calculou. “Ah, então vai ter de tocar outra…”, lamentou o piloto.
Na volta 49, com pneus melhores, Hamilton partiu para cima de Norris e, com alguma dificuldade, conseguiu passar o garoto mclariano. Assumiu o segundo lugar e, para ganhar a corrida, teria de escalar uma montanha de 5s para o líder Verstappen. Impossível. O pódio parecia montado, com Lando em terceiro, mesmo. Sainz e Leclerc, este com pneus em frangalhos, vinham em quarto e quinto.
Max reclamou bastante dos freios até o fim da corrida e chegou a gritar com o pessoal da equipe para não falar com ele quando estivesse brecando o carro. Mas, sem maiores problemas, acabou recebendo a bandeira quadriculada em primeiro, pela 15ª vez no ano, em 18 corridas. Igualou seu próprio recorde de vitórias na mesma temporada, que havia estabelecido no ano passado.
As desclassificações de Hamilton e Leclerc alçaram à zona de pontos a dupla da Williams. Albon ficou em nono e Sargeant, em décimo. Foi o primeiro ponto do americano na categoria, e os primeiros pontos de um piloto nascido no país desde o terceiro lugar de Michael Andretti no GP da Itália de 1993. Norris herdou o segundo posto de Lewis e Sainz ficou com a terceira posição no pódio. Em sétimo, Stroll voltou a pontuar depois de cinco corridas no zero. Mesmo assim, sua Aston Martin perdeu o quarto lugar entre as equipes para a ascendente McLaren. Por fim, Tsunoda registrou a melhor volta de um GP pela primeira vez na carreira. Fez quatro pontinhos do oitavo lugar (tinha sido décimo e subiu duas posições com as desclassificações) e mais o extra pela volta mais rápida.
Esteve longe de ser a melhor corrida de todos os tempos, esse GP dos EUA. Mas, mais uma vez, Verstappen e a Red Bull deram uma aula. Desta vez, de paciência e estratégia. Ao fim, Horner parabenizou Verstappen no rádio. E perguntou qual música estava tocando quando ele recebeu a bandeirada, afinal de contas, na fita do Supertramp.
“The Logical Song”, arriscaria eu.